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Direito_Sa�de e Bio�tica --
23.09.2001
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Absurdos de guerra
M�rcio Sousa* A intoler�ncia e a irracionalidade dos que defendem medidas de guerra chegaram � televis�o brasileira. E n�o foi no Programa do Ratinho, como muitos devem estar pensando. Nem na Globo, que por sinal est� fazendo �tima cobertura. Foi o mais famoso �ncora do telejornalismo nacional, Boris Casoy, que defendeu abertamente uma retalia��o violenta por parte dos EUA contra os "respons�veis" pelo atentado ao Pent�gono e �s torres g�meas do World Trade Center. Antes de tudo, h� que se perguntar: que respons�veis cara-p�lida? Os miser�veis do Afeganist�o, que vivem sob a �gide de um regime teocr�tico severo e arbitr�rio? Os separatistas mu�ulmanos da Caxemira, "determinados a impedir o triunfo do hindu�smo no mundo ocidental?" Ou uma mil�cia cubana p�s-guerra fria, "num ato extremo de inveja contra a pujan�a econ�mica do inimigo capitalista?" C� para n�s, isso est� mais para ca�a �s bruxas. O �bvio ululante mostra que o ataque a Washington e a Nova York foi engendrado por uma rede de assassinos com ramifica��es e poderio muito maiores do que se imaginava. Mesmo que sejam confirmadas as suspeitas sobre o milion�rio Osama bin Laden, � prov�vel que ele n�o tenha arquitetado toda a ousad�ssima a��o sozinho. Detalhes importantes da estrat�gia (como o treinamento dos seq�estradores em simuladores de v�o da Fl�rida) certamente foram tramados "por outras c�lulas de intelig�ncia" em territ�rio norte-americano, sob olhares distra�dos da CIA e do FBI. A paran�ia da conspira��o paira at� sobre os cidad�os do pa�s, simp�ticos � extrema-direita. Se, por ventura, essa hip�tese se mostrar cr�vel, uma segunda punhalada atingir� o insond�vel orgulho dos filhos do Tio Sam (a primeira foi o atentado orquestrado pelo nova-iorquino Timothy McVeigh a um edif�cio federal em Oklahoma City). Por tudo que j� foi dito, � muito ruim quando formadores de opini�o defendem uma a��o militar para combater o terrorismo. A��es armadas de qualquer natureza deveriam ser evitadas. N�o � racional repudiar um erro estimulando outro. Vai se atacar o qu� e onde especificamente? Mil�cias terroristas costumam ser secretas e n�mades. Pela l�gica perversa do revide, outros civis inocentes ter�o que pagar com a vida pelos equ�vocos de uma minoria. Ser� que as mulheres subjugadas pelo Talib� (que controla 90% do Afeganist�o), que t�m assist�ncia m�dica limitada e sofrem pesadas humilha��es diariamente, devem responder pelos erros de seus governantes, ultraxiitas que escondem e formam terroristas? Sim, porque se os EUA optarem por uma retalia��o militar (como querem os xen�fobos e os inconseq�entes) � exatamente isso que vai acontecer: um ataque indiscriminado � popula��o do Afeganist�o e do Iraque, pa�ses (que, nas palavras do Secret�rio de Estado Americano) "acobertam amea�as terr�veis ao mundo livre". Os americanos, � sabido, sofrem de um desmesurado senso de narcisismo e tiveram a sua invulnerabilidade posta em xeque. Levada pela catarse, a maioria da popula��o pressiona o presidente George W. Bush (um homem ortodoxo e despreparado para o cargo que ocupa) para um acachapante contra-ataque. Esquecem (ou ignoram) que a Casa Branca patrocinou, � �poca da Guerra Fria, a militariza��o de alguns dos seus atuais inimigos �rabes, como Saddam Hussein e o pr�prio bin Laden. Ali�s, esquecimento � um mal que parece acometer tamb�m o jornalista Boris Casoy. Renegando a sua antiga milit�ncia pacifista, quando criticava veementemente o derramamento de sangue da ditadura Fidel Castro, ele hoje defende uma a��o violenta dos EUA contra os terroristas. Entretanto, um caso n�o difere do outro no que tange � estupidez das motiva��es (perpetrar o autoritarismo, a repress�o militar e o revanchismo). S�o, enfim, duas faces turvas de uma mesma e desprez�vel moeda. Antes que interpretem esse texto como uma apologia do mal, � bom que se diga que ele �, acima de tudo, uma defesa da vida humana, contra a guerra e, por extens�o, contra o terror. Todavia, se n�o repensarmos os nossos modelos, o terrorismo continuar� a existir, ainda que se descubra e se castigue um ou outro culpado, disseminando mundo afora a crueldade e o radicalismo da sua causa (o ataque suicida � feito pelos rostos an�nimos daqueles que se disp�em a tudo em nome da f�). O temido inimigo dos EUA (e do resto do mundo) j� n�o tem face e nem est�, como querem fazer crer os reducionistas, escondido num canto remoto do Oriente M�dio. Eleger Osama bin Laden como o principal respons�vel por esse que j� � um dos crimes mais hediondos da hist�ria � um paliativo, uma manobra para saciar a sanha justiceira da sociedade. Ele n�o est� sozinho no "p�reo", e merece (tanto quanto outros in�meros pulhas) ser enquadrado na lei que julga os crimes contra a humanidade. Por outro lado, � uma ilus�o acreditar que sem o seu comando os fan�ticos deixar�o de utilizar o pr�prio corpo como bombas. Do mesmo modo, n�o estar�o a salvo da barb�rie as superpot�ncias com sofisticados aparatos de seguran�a (existem dimens�es da condi��o humana - e o terrorismo suicida � a pior delas - que a tecnologia n�o consegue deter). Na realidade, o buraco � mais embaixo. Passa pela quest�o geopol�tica, pela solu��o dos problemas e tens�es que sufocam o globo (desigualdade brutal entre ricos e pobres, destrui��o do meio-ambiente, conflitos �tnico-religiosos, exclus�o s�cio-econ�mica de pa�ses inteiros) e pela afirma��o de uma nova ordem sustentada por valores mais humanistas ou, parafraseando Edgar Morin, pela minguada heran�a de vida que o s�culo XX nos legou. * M�rcio Sousa � formado em Comunica��o, pela Unifacs, e cumpre especializa��o, na mesma �rea, pela Uneb. --- Outgoing mail is certified Virus Free. Checked by AVG anti-virus system (http://www.grisoft.com). Version: 6.0.281 / Virus Database: 149 - Release Date: 19/9/2001 Endere�os da lista: Para entrar: [EMAIL PROTECTED] Para sair: [EMAIL PROTECTED] -----------------------------------
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