Os preconceitos da propaganda --
O "ORIENTE" CONSTRU�DO PELOS IMP�RIOS DO OCIDENTE
 
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PONTO DE VISTA
Sexta-feira, 19 de outubro de 2001
 

Os preconceitos da propaganda contra o islamismo e o mundo �rabe

O "ORIENTE" CONSTRU�DO PELOS IMP�RIOS DO OCIDENTE

 

Analisando a cobertura dos acontecimentos relacionados com os atentados contra o World Trade Center e o Pent�gono, nos EUA, o ensa�sta palestino Edward Said disse em artigo publicado nesta semana que � not�vel a recorr�ncia de imagens negativas sobre o islamismo e o mundo �rabe nos meios de comunica��o. O que s�o os �rabes, por exemplo? As generaliza��es grotescas t�m sido menos exce��o do que regra: o estere�tipo � de que os �rabes s�o "um povo lascivo, violento, irracional e fan�tico", diz Said.


Said sabe do que fala. Professor da Universidade de Columbia (EUA), � autor de um livro not�vel(1), sobre a constru��o do discurso cient�fico do orientalismo, que ajudou a legitimar a autoridade e "superioridade" das pot�ncias colonizadoras ocidentais sobre as sociedades apoiadas na religi�o isl�mica do Oriente M�dio e da �sia Central.

No livro Said mostra que a distin��o radical entre "Oriente" e "Ocidente" surgiu como uma resposta ao crescimento do islamismo, atrav�s da expans�o militar dos �rabes e dos turcos pela Europa. Da morte de Maom� em meados do s�culo 7 at� a derrota militar dos �rabes na Espanha, em 1491, � derrota da armada turca em Lepanto, em 1571, resume Said, "o isl�, em sua forma �rabe, otomana, norte-africana ou espanhola, dominou ou amea�ou efetivamente o mundo crist�o europeu". N�o por acaso, o isl� passou a representar "o terror, a devasta��o, o demon�aco, as hordas de odiosos b�rbaros".

Said analisa um leque extremamente diversificado de textos escritos da Antiguidade aos anos 70 -- discursos pol�ticos, estudos de filologia, hist�ria, religi�o e geografia, bem como relatos de viagem e obras liter�rias. Com isso, reconstr�i a trama material e cultural que est� por tr�s do conjunto de representa��es sobre o "oriental", sobre suas caracter�sticas, cren�as e costumes. Mostra que a s�rie de clich�s usada at� hoje em 9 de 10 coment�rios sobre os problemas do islamismo e dos povos mu�ulmanos tem uma hist�ria milenar.

Para Said, as caracter�sticas associadas � "ess�ncia" do mundo isl�mico sempre disseram menos sobre o que era o "Oriente" de fato, e mais sobre o uso que o "Ocidente" pretendia fazer dessas caracter�sticas. � sintom�tico, para o professor, que o campo de estudos conhecido como orientalismo, flores�a e d� seus melhores frutos � sombra dos imp�rios coloniais europeus, entre os s�culos 18 e 19.

O boom desses estudos, diz ele, coincidiu exatamente com o per�odo de 1815 a 1914, quando o dom�nio colonial direto europeu cresceu de cerca de 35% para cerca de 85% de toda a superf�cie da Terra. Nas descobertas eruditas, reconstru��es filol�gicas, an�lises psicol�gicas e descri��es paisag�sticas e sociol�gicas feitas pelos orientalistas nesse per�odo, se elabora n�o s� uma distin��o geogr�fica b�sica entre Oriente e Ocidente, mas o saber ocidental se constitui como uma autoridade que define e explica o que "o Oriente" �.


Said aponta a constru��o de v�rias dicotomias que serviram subliminarmente para reafirmar a necessidade do colonialismo europeu:
 
  • a for�a e riqueza das grandes civiliza��es orientais da Antiguidade se contrapunha ao que seriam o caos e pobreza vividos pelos pa�ses isl�micos modernos e justificaria a interven��o "civilizat�ria" dos imp�rios europeus modernos;
  • a racionalidade ocidental se destacava do que seria o racioc�nio tortuoso e trai�oeiro do oriental;
  • a livre iniciativa e a prud�ncia ocidentais se opunham ao que seria o car�ter lasso e devasso dos �rabes, e assim por diante.


O processo de descoloniza��o da �frica e da �sia marca a primeira grande crise do discurso orientalista erudito. A imagem est�tica e atrasada que se fazia do Oriente n�o servia para explicar a derrocada do colonialismo europeu. O movimento anti-colonialista alterou completamente o mapa do mundo a partir dos anos 20 do s�culo passado. No final dos anos 50 quase todos os pa�ses do mundo isl�mico tinham passado por processos de independ�ncia, muitas vezes atrav�s de grandes conflitos armados com as metr�poles.

A imagem do oriental apegado a tradi��es arcaicas e detentor de uma racionalidade duvidosa e trai�oeira, que estava baseada em distin��es raciais e religiosas estritas entre o oriental e o ocidental, entra em conflito com a realidade. A id�ia de que o mundo isl�mico podia ser estudado como um conjunto de categorias fixas, separado da economia, da sociologia e da pol�tica das sociedades mu�ulmanas modernas entra em crise, junto com grande parte dos estudos eruditos sobre o Oriente.

Com a hegemonia norte-americana no p�s-guerra, o orientalismo sofre uma grande inflex�o. Nos Estados Unidos, os estudos orientais n�o se alimentam mais de uma longa tradi��o acad�mica erudita e passam a responder a uma demanda crescente de informa��es estrat�gicas para as pol�ticas do pa�s. O novo orientalista n�o come�a estudando as l�nguas esot�ricas do Oriente, como faziam os antigos estudiosos europeus; inicia sua carreira como cientista social treinado que "aplica" sua ci�ncia ao Oriente, com base em an�lises estat�sticas de "atitudes" e "tend�ncias".

N�o por acaso, os institutos mais renomados de estudos orientais t�m linhas de pesquisa financiadas pelo Departamento de Defesa, pela Funda��o Ford e o Instituto Hudson, grandes bancos, companhias petrol�feras e multinacionais.

Said resume alguns dogmas desses novos estudos e mostra como eles reorganizam e se alimentam dos antigos:
 
  • O primeiro � a separa��o estrita e generalizante entre o Ocidente – racional, desenvolvido, humanit�rio e superior – e o Oriente – aberrante, subdesenvolvido e inferior.
  • O segundo � a prefer�ncia por abstra��es baseadas em textos de uma sociedade oriental "cl�ssica" em lugar de evid�ncias diretas extra�das das diversas realidades orientais modernas.
  • O terceiro � o dogma de que o Oriente � eterno, uniforme e incapaz de definir a si mesmo.
  • O quarto � o de que o Oriente, no fundo, � algo a ser temido – como o Perigo Amarelo, as hordas dos mong�is, o dom�nio dos pardos e, mais recentemente, o fundamentalismo religioso – ou a ser controlado – por meio da pacifica��o, pesquisa e desenvolvimento ou atrav�s da ocupa��o pura e simples.


Esses preconceitos, diz Said, se refletem, em geral de modo ainda mais caricato, nas imagens do mundo isl�mico fornecidas pela imprensa do grande capital e pelo aparato holywoodiano. Nos filmes e na televis�o, o �rabe � associado � libidinagem ou � desonestidade sedenta de sangue. Aparece como um degenerado supersexuado, capaz de intrigas astutas e tortuosas, essencialmente s�dico, trai�oeiro e baixo. Traficantes de escravos, cameleiro, cambista, trapaceiro, etc, s�o alguns dos pap�is tradicionais dos �rabes no cinema. Nos filmes ou nas fotos, o �rabe � visto com freq��ncia em grande n�mero, sem individualidade ou experi�ncia pessoal. A maior parte das imagens apresenta massas enraivecidas ou miser�veis ou gestos irracionais.

Na �ltima Newsweek, a segunda maior revista de informa��es do mundo global, um "especialista" no mundo �rabe diz que, para entender as ra�zes da raiva anti-americana no Oriente M�dio, basta reconstruir o fracasso das �ltimas d�cadas de tentativas de reformas na regi�o, feitas com base em experi�ncias socialistas ou nacionalistas adaptadas �s tradi��es isl�micas locais. Isso s� poderia produzir estagna��o e burocracia, diz o especialista. Como se v�, trata-se de um novo orientalista, do tipo globalizador: aquele que combina os preconceitos contra o islamismo e os �rabes aos dogmas anti-nacionais e anti-socialistas.

(1) O ORIENTALISMO, Edward Said, Companhia das Letras, 1995
 
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