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Analisando a cobertura dos
acontecimentos relacionados com os atentados contra o World Trade Center e
o Pent�gono, nos EUA, o ensa�sta palestino Edward Said disse em artigo
publicado nesta semana que � not�vel a recorr�ncia de
imagens negativas sobre o islamismo e o mundo �rabe nos meios de
comunica��o. O que s�o os �rabes, por exemplo? As generaliza��es
grotescas t�m sido menos exce��o do que regra: o estere�tipo � de que os
�rabes s�o "um povo lascivo, violento, irracional e fan�tico", diz Said.
Said sabe do que fala.
Professor da Universidade de Columbia (EUA), � autor de um livro
not�vel(1), sobre a constru��o do discurso cient�fico do
orientalismo, que ajudou a legitimar a autoridade e "superioridade"
das pot�ncias colonizadoras ocidentais sobre as sociedades apoiadas na
religi�o isl�mica do Oriente M�dio e da �sia Central.
No livro
Said mostra que a distin��o radical entre "Oriente" e "Ocidente" surgiu
como uma resposta ao crescimento do islamismo, atrav�s da expans�o militar
dos �rabes e dos turcos pela Europa. Da morte de Maom� em meados do
s�culo 7 at� a derrota militar dos �rabes na Espanha, em 1491, � derrota
da armada turca em Lepanto, em 1571, resume Said, "o isl�, em sua forma
�rabe, otomana, norte-africana ou espanhola, dominou ou amea�ou
efetivamente o mundo crist�o europeu". N�o por acaso, o isl� passou a
representar "o terror, a devasta��o, o demon�aco, as hordas de odiosos
b�rbaros".
Said analisa um leque
extremamente diversificado de textos escritos da Antiguidade aos anos 70
-- discursos pol�ticos, estudos de filologia, hist�ria, religi�o e
geografia, bem como relatos de viagem e obras liter�rias. Com isso,
reconstr�i a trama material e cultural que est� por tr�s do conjunto de
representa��es sobre o "oriental", sobre suas caracter�sticas, cren�as e
costumes. Mostra que a s�rie de clich�s usada at� hoje em 9 de 10
coment�rios sobre os problemas do islamismo e dos povos mu�ulmanos tem uma
hist�ria milenar.
Para
Said, as caracter�sticas associadas � "ess�ncia" do mundo isl�mico sempre
disseram menos sobre o que era o "Oriente" de fato, e mais sobre o uso que
o "Ocidente" pretendia fazer dessas caracter�sticas. � sintom�tico, para o
professor, que o campo de estudos conhecido como orientalismo,
flores�a e d� seus melhores frutos � sombra dos imp�rios coloniais
europeus, entre os s�culos 18 e 19.
O
boom desses estudos, diz ele, coincidiu exatamente com o per�odo de
1815 a 1914, quando o dom�nio colonial direto europeu cresceu de cerca de
35% para cerca de 85% de toda a superf�cie da Terra. Nas descobertas
eruditas, reconstru��es filol�gicas, an�lises psicol�gicas e descri��es
paisag�sticas e sociol�gicas feitas pelos orientalistas nesse
per�odo, se elabora n�o s� uma distin��o geogr�fica b�sica entre Oriente e
Ocidente, mas o saber ocidental se constitui como uma autoridade que
define e explica o que "o Oriente" �.
Said aponta a constru��o de v�rias dicotomias
que serviram subliminarmente para reafirmar a necessidade do colonialismo
europeu:
- a for�a e riqueza das grandes civiliza��es orientais da
Antiguidade se contrapunha ao que seriam o caos e pobreza vividos pelos
pa�ses isl�micos modernos e justificaria a interven��o "civilizat�ria"
dos imp�rios europeus modernos;
- a racionalidade ocidental se destacava do que seria o
racioc�nio tortuoso e trai�oeiro do oriental;
- a livre iniciativa e a prud�ncia ocidentais se opunham
ao que seria o car�ter lasso e devasso dos �rabes, e assim por
diante.
O processo de descoloniza��o da �frica e da �sia
marca a primeira grande crise do discurso orientalista erudito. A
imagem est�tica e atrasada que se fazia do Oriente n�o servia para
explicar a derrocada do colonialismo europeu. O movimento
anti-colonialista alterou completamente o mapa do mundo a partir dos anos
20 do s�culo passado. No final dos anos 50 quase todos os pa�ses do mundo
isl�mico tinham passado por processos de independ�ncia, muitas vezes
atrav�s de grandes conflitos armados com as metr�poles.
A imagem do oriental apegado a tradi��es arcaicas e
detentor de uma racionalidade duvidosa e trai�oeira, que estava baseada em distin��es raciais e religiosas estritas
entre o oriental e o ocidental, entra em conflito com a realidade. A id�ia
de que o mundo isl�mico podia ser estudado como um conjunto de categorias
fixas, separado da economia, da sociologia e da pol�tica das sociedades
mu�ulmanas modernas entra em crise, junto com grande parte dos estudos
eruditos sobre o Oriente.
Com a hegemonia
norte-americana no p�s-guerra, o orientalismo sofre uma grande
inflex�o. Nos Estados Unidos, os estudos orientais n�o
se alimentam mais de uma longa tradi��o acad�mica erudita e passam a
responder a uma demanda crescente de informa��es estrat�gicas para as
pol�ticas do pa�s. O novo orientalista n�o come�a estudando as
l�nguas esot�ricas do Oriente, como faziam os antigos estudiosos europeus;
inicia sua carreira como cientista social treinado que "aplica" sua
ci�ncia ao Oriente, com base em an�lises estat�sticas de "atitudes" e
"tend�ncias".
N�o por acaso, os institutos
mais renomados de estudos orientais t�m linhas de pesquisa financiadas
pelo Departamento de Defesa, pela Funda��o Ford e o Instituto Hudson,
grandes bancos, companhias petrol�feras e multinacionais.
Said resume alguns dogmas desses
novos estudos e mostra como eles reorganizam e se alimentam dos antigos:
- O primeiro � a separa��o estrita e generalizante entre
o Ocidente – racional, desenvolvido, humanit�rio e superior – e o
Oriente – aberrante, subdesenvolvido e inferior.
- O segundo � a prefer�ncia por abstra��es baseadas em
textos de uma sociedade oriental "cl�ssica" em lugar de evid�ncias
diretas extra�das das diversas realidades orientais modernas.
- O terceiro � o dogma de que o Oriente � eterno,
uniforme e incapaz de definir a si mesmo.
- O quarto � o de que o Oriente, no fundo, � algo a ser
temido – como o Perigo Amarelo, as hordas dos mong�is, o dom�nio dos
pardos e, mais recentemente, o fundamentalismo religioso – ou a ser
controlado – por meio da pacifica��o, pesquisa e desenvolvimento ou
atrav�s da ocupa��o pura e simples.
Esses
preconceitos, diz Said, se refletem,
em geral de modo ainda mais caricato, nas imagens do mundo isl�mico
fornecidas pela imprensa do grande capital e pelo aparato holywoodiano.
Nos filmes e na televis�o, o �rabe � associado � libidinagem ou �
desonestidade sedenta de sangue. Aparece como um degenerado supersexuado,
capaz de intrigas astutas e tortuosas, essencialmente s�dico, trai�oeiro e
baixo. Traficantes de escravos, cameleiro, cambista, trapaceiro, etc, s�o
alguns dos pap�is tradicionais dos �rabes no cinema.
Nos filmes ou nas fotos, o �rabe � visto com freq��ncia em grande
n�mero, sem individualidade ou experi�ncia pessoal. A maior parte das
imagens apresenta massas enraivecidas ou miser�veis ou gestos irracionais.
Na �ltima Newsweek, a segunda maior revista
de informa��es do mundo global, um "especialista" no mundo �rabe diz que,
para entender as ra�zes da raiva anti-americana no Oriente M�dio, basta
reconstruir o fracasso das �ltimas d�cadas de tentativas de reformas na
regi�o, feitas com base em experi�ncias socialistas ou nacionalistas
adaptadas �s tradi��es isl�micas locais. Isso s� poderia produzir
estagna��o e burocracia, diz o especialista. Como se v�, trata-se de um
novo orientalista, do tipo globalizador: aquele que combina
os preconceitos contra o islamismo e os �rabes aos dogmas anti-nacionais e
anti-socialistas.
(1) O ORIENTALISMO, Edward Said,
Companhia das Letras,
1995
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