Giovanni Martins
Sent: Wednesday, October 24, 2001 1:32 PM
Subject: Demitir em Massa n�o Adianta Mais.


                      DEMITIR EM MASSA N�O ADIANTA MAIS 

 
                                                             - Carlos Chagas
- 20 de outubro de 2001.

  N�o adianta ficar perguntando como come�ou nem onde come�ou. Importa
menos saber quem apareceu primeiro, se o ovo ou a galinha. A verdade �
que depois que o mundo se "globalizou", ali�s, pela cent�sima vez, dos
Estados Unidos � Uni�o Europ�ia, para falar dos ricos, como da Am�rica
Latina � �frica, para ficar com os pobres, diante de crises, recess�o ou
queda nas atividades, as empresas partem para demiss�es em massa. E
agora mais, em fun��o dessa singular guerra contra o terrorismo. 
 

                Homem nada vale ante o Deus lucro

  Com �nfase para os tempos posteriores � queda do Muro de Berlim, o
indiv�duo passou a valer pouco, ou nada. Sem mais aquela, o assalariado
� deixado na rua da amargura. Em nome da preserva��o do modelo, a
palavra de ordem � demitir, antes de mais nada. Estamos assistindo �
aus�ncia total de solidariedade, at� de humanismo, nas rela��es
econ�micas deste in�cio de s�culo. N�o se pensa em racionalizar, reduzir
lucros, descobrir f�rmulas capazes de manter empregos. 


  O trabalhador tornou-se descart�vel, seja bra�al ou intelectual, tanto
faz se trabalha na ind�stria, na agricultura ou no com�rcio. Ele que se
vire, que adie o almo�o e o jantar, porque a empresa n�o pode adiar suas
metas. Nem os respons�veis por ela, os seus dividendos.


  S� esta semana, os jornais publicaram horrores acontecidos na Su�cia,
na It�lia, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Argentina, no Brasil e
nas ilhas Tonga-Monga. Em todos os continentes, tangem o cidad�o para
baixo desse obsceno denominador: as demiss�es em cascata, em nome da
manuten��o das metas das empresas. 


  Registre-se que essa atitude n�o � privil�gio dos donos, que tamb�m,
feito avestruzes em meio � tempestade, s� querem saber dos resultados no
fim do ano. Parte deles sequer tem inger�ncia direta nos neg�cios.
Muitos se tornaram apenas cobradores de percentuais, o que n�o lhes
diminui a responsabilidade. 


  Mas piores s�o os chamados prepostos, executivos �vidos de n�o perder
suas comiss�es e seus empregos. Levam �s �ltimas conseq��ncias as sempre
periclitantes fun��es de mando, decis�o e chefia que exercem. 

  Talvez porque tenham vindo da massa que agora pisoteiam, quem sabe
porque, para subir, precisaram ludibriar montes de concorrentes. De
qualquer forma, os executivos perderam qualquer sentimento de humanidade
e solidariedade. Cultivam a livre concorr�ncia a todo custo, dispostos a
vender a pr�pria m�e se isso render algum lucro, seguran�a ou prest�gio. 

               
 
    Brasil anda para tr�s, feito caranguejo

  N�o aprendem, esses energ�menos, que para gente como eles nunca haver�
tranq�ilidade. Mais dia, menos dia, acabam catapultados. Os que podem,
escrevem livros sobre suas experi�ncias. Os que n�o podem, v�o para o
ostracismo. Estes, com recursos que conseguiram amealhar � custa das
demiss�es de seus semelhantes. Aqueles, acanhadamente igualados aos que
massacraram, solicitando outra vez ingresso no clube dos sup�rfluos.

  � essa a pior conseq��ncia da globaliza��o: institucionalizaram a
preval�ncia absoluta da empresa sobre o empregado. Do capital sobre o
trabalho. Suprimiram a dignidade humana atrav�s do terror empresarial.
N�o foi por outra raz�o que no planeta inteiro, com �nfase aqui para
n�s, revogaram-se direitos e garantias sociais a dar com o p�.
Inventou-se a fal�cia do "custo Brasil". Andamos para tr�s, feito
caranguejo, sofrendo os efeitos do modelo delet�rio que nos assola. 


  Os respons�veis por essa pol�tica suicida comemoraram antes da hora o
fim da Hist�ria. Ignoraram a natureza das coisas, quer dizer, a
capacidade de rea��o dos que foram transformados em pe�as descart�veis.
Vem coisa ruim por a�. Malan e companhia j� foram avisados, menos pelos
canais competentes, mais pelos meandros informais da economia, que
enquanto durar a guerra do Afeganist�o deveremos esquecer o fluxo de
capitais americanos para o nosso Pa�s. 

  Ao contr�rio, come�a a retirada. Mesmo assim, n�o se cogita de
interromper o pagamento de um centavo sequer dos juros da d�vida
externa. Muito menos de obstar as remessas de lucro ou de especula��es
para o exterior. Sequer o aumento obrigat�rio de taxas e tarifas
contratualmente doados �s empresas privatizadas de servi�os p�blicos,
muito al�m da infla��o. Claro que tamb�m estar�o congelados
investimentos no plano social, como o atendimento a reivindica��es
sociais imprescind�veis. 


  O resultado ser� o aumento das demiss�es. Ou j� est� sendo. N�o perdem
por esperar. L� e c�, rea��es come�aram e mais aumentar�o. Ser� que
bombas e m�sseis resolver�o?

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Carlos Chagas � jornalista.
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