com tristeza, o seguinte questionamento: "Quem sabe que terr�veis carnificinas ainda est�o sendo preparadas em surdina".
 
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Sociologia Jur�dica - 31.out.2001
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Subject:  com barba ou sem barba
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O embate dos b�rbaros

Bilion�rios de barba e bilion�rios sem barba
 
 

Os rios sempre correm para o mar, e a globaliza��o capitalista vai e volta para o seu pr�prio centro, para o centro do centro. Se tudo est� globalizado, se os mercados nunca dormem e as mercadorias ocidentais penetram at� nos lugares mais rec�nditos do mundo, como � que algu�m pode se admirar de tamb�m a guerra e o terror n�o pouparem ningu�m? � claro que os atentados de Nova Iorque e Washington impressionam pelo n�mero de v�timas, por seu car�ter espetacular e pelo desejo incondicional dos autores de praticar a maior carnificina poss�vel. Mas, no fundo, apenas aconteceu nos Estados Unidos aquilo que a grande maioria dos pa�ses vem experimentando nos �ltimos sessenta anos, desde a Guatemala at� o Camboja, desde a S�rvia at� o Vietn�, desde o Iraque at� a Biafra, sem se falar na Segunda Grande Guerra Mundial. Embora se tenha consci�ncia de que 6.000 mortos representam um terr�vel quadro, n�o se pode furtar � inc�moda sensa��o de que americanos, ainda mais se trabalharem em Manhattan, ao que parece s�o mais iguais que outras pessoas.
 

Centenas de milhares de argelinos mortos, duzentos mil tchetchenos, meio milh�o de sudaneses, um milh�o de ruandeses, ou seja qual for o n�mero exato de v�timas, afinal ningu�m as contou, nenhum destes grupos de mortos mereceu um minuto de sil�ncio nem a interrup��o da programa��o televisiva. Ningu�m falou do "mais s�rio ato de guerra desde 1945", e nenhuma dona-de-casa europ�ia afundou, horrorizada, em sua poltrona diante da TV quando os russos arrasaram Grosny. Nenhum alem�o e nenhum italiano afirmou "esse dia mudou a minha vida" quando os s�rvios cometeram atos assassinos em Tuzla, nem quando os croatas perpetraram seus crimes na regi�o da Krajna, na atual Eslov�nia. Nenhum presidente europeu fez pronunciamento especial na TV quando a guerra Ir�- Iraque atingiu o seu ponto culminante. Na verdade, todos os mortos merecem respeito, e com certeza n�o s�o os Bushs e os Putins que nos far�o crer que a morte de inocentes os emocionou tanto a ponto de faz�- los derramar l�grimas.
 
Ademais, essa como��o em escala mundial envolvendo as v�timas do World Trade Center lembra um pouco as ondas de simpatia em torno de Lady Diana ou de outros colun�veis normalmente presentes nas p�ginas da imprensa sensacionalista, enquanto, em contrapartida, ning�m costuma demonstrar interesse por um navio naufragado repleto de imigrantes nem por um campo de refugiados bombardeado. As v�timas de Nova Iorque causam todo esse abalo aos europeus talvez por eles n�o mais poderem crer que, logo ali na Turquia, h� povos se digladiando. Existe um ciclone em movimento, e seria uma sandice acreditar ser poss�vel viver eternamente em seu centro im�vel, sorrindo de felicidade em meio ao ac�mulo de dejetos e destro�os globais. Nunca houve 6.000 mortos em um atentado, mas com certeza os houve em bombardeios "normais" contra grandes cidades. O que causa bastante indigna��o junto � opini�o p�blica ocidental � a atrevida ruptura que se deu no monop�lio de viol�ncia antes meramente estatal. Em outras palavras: terroristas arvoram-se em fazer coisas normalmente permitidas apenas a qualquer Estado ocidental. Ser� que isso significa: bem feito para os americanos, afinal por que eles t�m o direito de viver melhor, ainda mais sabendo-se que, nas guerras travadas em outras partes do mundo, eles normalmente eram o culpado principal ou o c�mplice? N�o. Mas n�o se pode negar que as v�timas n�o sucumbiram a um "fanatismo religioso" que possa simplesmente ser extirpado do jardim como uma erva daninha. Muito mais que isso, elas foram mortas por uma l�gica cujos representantes e benefici�rios principais s�o o pa�s em que se encontravam naquele momento.
 
S� h� uma for�a que, no tocante a fanatismo e �nsia destrutiva, pode igualar-se ao fundamentalismo isl�mico: o fundamentalismo de mercado. Por mais que queiram crer em sua Idade M�dia idealizada, os islamitas n�o apareceram montados em cavalos e munidos de sabres de l�mina curva como na �poca de suas grandes conquistas. Talvez naquela �poca se pudesse falar em "choque de civilizac�es". Nos dias de hoje, por�m, o islamismo � mais um ramo da globaliza��o mundial oca de sentidos que sempre necessita revestir-se, de acordo com o local, de diferentes pseudoconte�dos.
 
Um bilion�rio de barba que, segundo consta, est� escondido em uma caverna afeg�, enfrenta bilion�rios sem barba instalados em arranha-c�us, primeiramente matando os empregados destes �ltimos, pois, como diz o prov�rbio, quando os reis se engalfinham, algo dever� sobrar para os camponeses. Os talib�s que decepam m�os e fazem todas as mulheres esconderem-se em verdadeiros sacos podem ser colocados no mesmo patamar que os talib�s da m�o invis�vel que jogam na sarjeta m�es indigentes tr�s horas ap�s darem � luz. Uns ordenam que os familiares das pr�prias v�timas executem em est�dios os condenados � morte, j� os outros transmitem as execu��es pela televis�o, porque isso, supostamente, far� algum bem aos familiares das v�timas. Uns pro�bem instrumentos musicais por motivos religiosos, enquanto os outros ensinam nas aulas de biologia escolares a doutrina b�blica da cria��o. Dito isso, estariam erradas at� mesmo as boas almas que, visando � elimina��o das "causas do terror", exigem de pronto "mais justi�a para o Hemisf�rio Sul". Antes de mais nada, vemo-nos aqui diante de duas maneiras de reivindicar poder mundial, ambas marcadas por pateticismo religioso. Um detalhe significativo � o fato de os terroristas camicases pelo visto n�o serem �rf�os oriundos de um campo de refugiados, mas sim pessoas descendentes de fam�lias bem situadas.
Uma nova "gera��o de Langemark". Nos �ltimos tempos, cada vez mais tem-se confirmado aquela parte da teoria de Marx em que ele atribui o fim do capitalismo n�o � a��o de um sujeito externo, isto � do proletariado, mas sim ao desdobramento das pr�prias for�as produtivas. Talvez aqui estejamos diante de tal fen�meno.
 

N�o foi o Isl� que, enquanto contra-sujeito, descarregou um golpe, mas sim, um personagem alienado das modern�ssimas forcas de produ��o, quase uma ast�cia da irracionalidade. Tudo parece ter sido utilizado pelos organizadores do atentado: computador e internet, para�sos fiscais e simuladores de v�o, telefonia via sat�lite e especula��o nas bolsas. Com a pequena diferen�a de que, ao contr�rio dos f�s da new economy, conhecem bem os limites de efic�cia destes meios, sabendo substituir, no momento certo, a bomba controlada a laser pelo canivetinho e o telefone via sat�lite pelo bilhetinho escrito � m�o.
 
Construir arranha-c�us para neles amontoar 50.000 pessoas como sardinhas em latas e planejar atentados a estes arranha-c�us s�o partes integrantes de uma mesma freq��ncia intelectual. A id�ia de um arranha- c�u totalmente � prova de desabamento (pelo menos foi o que afirmou o seu construtor em uma antiga entrevista retransmitida pelos canais de TV americanos enquanto as torres vinham abaixo) comp�e a ess�ncia do capitalismo industrial da mesma maneira que a vis�o do insubmerg�vel Titanic. Nesse sentido, a ilus�o quantitativa encarnada pelo capital transformado em a�o e vidro vai provocar, de maneira direta, a ilus�o quantitativa daqueles que medem seu sucesso pelo mero n�mero de "inimigos" abatidos. Por sua vez, a distribui��o de videogames est�pidos e filmes de cat�strofes e fic��o cient�fica em escala mundial, talvez a �nica possibilidade de preencher o vazio da sociedade de consumo, logicamente deve ter servido como modelo de gera��o de realidade via simula��o. O suposto culpado pouca semelhan�a apresenta com os califas que criaram o grande imp�rio �rabe, lembrando muito mais os conquistadores globais enlouquecidos presentes nas revistas em quadrinhos baratas, que talvez, ao inv�s do Cor�o, representem sua leitura predileta. Por �ltimo, sem a onipresen�a dos meios de comunica��o talvez n�o houvesse nem mesmo surgido a id�ia desse atentado que, ao que tudo indica, at� mesmo na forma do seu desenrolar, foi concebido para a televis�o.
 

Um dos mentores da era moderna capitalista, Jeremy Bentham, proclamou como objetivo "a maior felicidade poss�vel do maior n�mero poss�vel". Sabe- se atualmente que o governo de Roosevelt estava informado da inten��o japonesa de atacar Pearl Harbour. Deixou que tudo acontecesse para motivar a hesitante opini�o p�blica americana a aceitar a entrada do pa�s na guerra. Mas se agora a �nica pot�ncia do planeta quer se vingar do pa�s mais desgra�ado do mundo, com certeza ela est� se vendo diante de um surpreendente impasse: a inexist�ncia de meios coercitivos. N�o h� mais nada a atacar naquele infeliz pa�s, contra o qual todo o mundo parece ter- se conjurado nos �ltimos vinte anos. N�o se pode mais bombarde�-lo com a inten��o de remet�-lo � Idade da Pedra, pois nela j� se encontra. E tal fato o dota, ou a seus d�spotas, de uma invulnerabilidade �mpar. L� n�o h� alvos de ataque estrat�gico, aeroportos ou ferrovias, n�o h� estradas asfaltadas nem f�bricas, n�o h� usinas hidrel�tricas nem represas. Aonde quer que sejam lan�adas bombas, s� ser�o atingidos barracos miser�veis.
 
 
Ap�s tudo o que j� sofreram, alguns milhares de mortos a mais n�o ter� muita import�ncia. E aconte�a o que acontecer, a popula��o, que j� se encontra ap�tica, dificilmente ir� se levantar contra os novos dominadores. Exatamente por esse motivo � prov�vel que os EE.UU. prefiram apostar em uma "longa guerra" contra o terrorismo "em todas as suas ramifica��es" e contra todos os aliados e c�mplices dos terroristas. Para tanto, em caso de d�vida, ser�o designados todos os opositores da economia de mercado e da democracia ocidental.
 
Talvez em breve a cabe�a de Osama bin Laden seja apresentada a Bush em uma bandeja de prata, e talvez essa ainda fosse a melhor solu��o. Por�m, � mais que duvidoso que com isso a globaliza��o v� parar de produzir novos monstros. E afinal de contas talvez o presidente italiano, o velho Carlo Azeglio Ciampi, infelizmente at� tivesse raz�o quando, em um pronunciamento televisivo feito logo ap�s os atentados, em vez de "tranq�ilizar" os seus concidad�os, simplesmente apresentou, com tristeza, o seguinte questionamento: "Quem sabe que terr�veis carnificinas ainda est�o sendo preparadas em surdina."
 
Anselm Jappe � ensa�sta, integrante do coletivo de autores da revista Krisis da Alemanha e autor de Guy Debord (Vozes).
Tradu��o de Tito L�vio Cruz Rom�o - Tradutor/int�rprete de alem�o, professor de alem�o do Departamento de Letras Estrangeiras da Unversidade Federal do Cear�; especialista em interpreta��o simult�nea pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), mestre em tradu��o pela Universidade de Mainz (Alemanha) e doutorando em tradu��o/interpreta��o pela Universidade de Viena (�ustria).
JORNAL CR�TICA RADICAL - Fortaleza, 08 de outubro de 2001.site: {HYPERLINK "http://www.criticaradical.hpg.com.br"}www.criticaradical.hpg.com.br e-mail: {HYPERLINK "mailto:[EMAIL PROTECTED]"}[EMAIL PROTECTED]
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