November 01, 2001
A Barb�rie Americana no Afeganist�o [2]
A BARB�RIE AMERICANA NO AFEGANIST�O
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Por Miguel Urbano Rodrigues
Correio da Cidadania, 27/10 a 03/11/01
O massacre de desinforma��o comandado dos EUA apresenta o Afeganist�o como
um espa�o de barb�rie. Os talebans (antes armados e acarinhados por
Washington) s�o uma fra��o m�nima da popula��o afeg�. Mas a propaganda
midi�tica confunde esse bando de fan�ticos, que inspira repulsa universal,
com um povo inteiro, a v�tima real da agress�o norte-americana.
Na sua imensa ignor�ncia, o presidente Bush e os seus generais desconhecem
que o territ�rio do atual Afeganist�o foi ber�o de grandes civiliza��es e
terra de implanta��o de outras, como a persa, a grega, a �rabe e a dos
mauryas indianos, que marcaram decisivamente a hist�ria da humanidade.
Os pilotos da US Air Force, agindo ao servi�o de modernos b�rbaros, est�o
a bombardear com orgulho lugares que encerram tesouros arqueol�gicos que
s�o patrim�nio mundial.
Quase diariamente, a televis�o informa que alvos na regi�o de Jalalabad
foram atingidos com �xito. N�o se esclarece onde explodiram os m�sseis e
bombas. Por conhecer aquela prov�ncia, sei que ali se concentra um
conjunto �nico de stupas-monumentos funer�rios budistas - do in�cio da
nossa era. Pela sua quantidade e densidade, � quase imposs�vel que algumas
n�o tenham sido destru�das pela chuva de metralha vinda das m�quinas de
guerra norte-americanas.
Com id�ntica freq��ncia, os porta-vozes do Pent�gono anunciam alegremente
que a pista do aeroporto de Bagram ou algum micro quartel daquela �rea foi
bombardeado com pleno �xito. Omitem que o subsolo de Bagram � um imenso
campo arqueol�gico, de incalcul�vel valor. Ali foi desenterrado, por uma
miss�o de s�bios franceses, o chamado Tesouro de Bagram - j�ias,
estatuetas, pe�as de cer�mica e outras obras de arte -, que permitiu
levantar uma parcela do v�u de mist�rio que continua a envolver a
civiliza��o criada por um povo ariano desaparecido, os Kuchanos, que, nos
s�culos I e II, desempenhou um papel fundamental na hist�ria da
humanidade. A monarquia Kuchana foi o intermedi�rio comercial entre a Roma
dos Ant�nimos e a China dos Han, no per�odo de apogeu de ambas as
civiliza��es. Foi na �poca Kuchana tamb�m que surgiu e se desenvolveu a
arte dita de Gandhara, cuja estatu�ria fundiu em obras bel�ssimas a
t�cnica o rigor formal dos artistas greco- bactrianos das cidades-estados
helen�sticas do nordeste do atual Afeganist�o com a espiritualidade e a
imagina��o dos escultores hindus e budistas.
Os bombardeamentos de Herat foram trombeteados com a mesma leviana euforia
militar. � indiferente a Bush e seus assessores que Herat tenha sido
definida no in�cio do s�culo XVI, pelo pr�ncipe Babur, descendente de
Tamerlao e fundador do Imp�rio do Grao Mogol, como a mais bela e
civilizada cidade do mundo. Os monumentos que restam dessa �poca
constituem ainda uma maravilhosa heran�a da arquitetura do Renascimento
Timurida . Em televis�es estrangeiras, registei duas ou tr�s refer�ncias a
Ghazni. Ter� sido bombardeada? Permanecer�o ainda de p� os seus minaretes
quase milenares?
Ghazni �, estou certo, uma palavra sem significado para os homens que na
Casa Branca enchem a boca com a palavra civiliza��o. Tal ignor�ncia n�o
apaga a hist�ria. Ghazni foi, nos s�culos X e XI, a capital de um
sultanato turco, que deixou mem�ria inapag�vel. Foram os ex�rcitos turcos
de Mahmud - e n�o os �rabes - quem difundiu a religi�o isl�mica na �ndia,
acontecimento que iria pesar decisivamente no rumo da hist�ria.
Sob o mecenato de Mahmud e de seu filho, Ghazni tornou-se um foco de
cultura que irradiou pela �sia. Ali nasceram ou aflu�ram dezenas de
escritores, cientistas, fil�sofos, te�logos, cujas obras, pelo seu
significado, permaneceram pelos s�culos afora como paradigmas do g�nio
criador do Isl�o.
Para exemplificar, citarei quatro. Firdusi escreveu o Xanama (o Livro dos
Reis), epop�ia hoje traduzida em dezenas de pa�ses e que narra a saga dos
antigos iranianos e representa para os povos de l�ngua persa o que os
Lus�adas significam para os portugueses. Sana�, um sufi, escreveu o Sol Ul
Ibad, um poema m�stico, comparado, pela tem�tica e pela beleza liter�ria,
� Divina Com�dia de Dante Alighieri. Al Biruni, que acompanhou Mahmud em
expedi��es � �ndia, foi talvez o mais ecl�tico s�bio da Idade M�dia.
Matem�tico, astr�nomo, fil�sofo, historiador, bot�nico, etn�logo, dominava
seis ou sete idiomas, e deixou obras sobre a �ndia e os seus povos, que se
tornaram de estudo obrigat�rio nos grandes centros de cultura do mundo
mu�ulmano. Finalmente, Ib Sina, o famoso Avicena, o maior m�dico da �poca,
nasceu e cresceu numa �rea da Transoxania, ent�o sob soberania de Ghazni,
embora se tenha fixado posteriormente no Ir�o. Obviamente, George Bush
nunca ouviu falar do Sultanato de Ghazni e dos seus artistas, da
civiliza��o Kuchana, dos Timuridas de Herat. N�o lhe censuro a sua
insuper�vel ignor�ncia, mas ela n�o lhe confere o direito de fazer
explodir m�sseis sobre o que sobrou de grandes culturas que se
desenvolveram no territ�rio do atual Afeganist�o.
Quando, com pompa e orgulho, pronuncia a palavra Kandahar para anunciar
que foi bombardeada com �xito, n�o faz a menor id�ia de que nessa cidade,
fundada por Alexandre da Maced�nia, o povo local falava ainda grego e
aramaico, dois s�culos depois. Foi um edito do rei Maurya Achoka, gravado
numa estela de pedra encontrada por acaso numa ru�na, que nos trouxe h�
poucos anos essa revela��o. � claro que o presidente dos EUA, a cujos
olhos os crimes dos Cruzados aparecem como atos de hero�smo, n�o ouviu
sequer falar, provavelmente, da exist�ncia desse monarca indiano, que
reinou sobre Kandahar e outras terras afeg�s. Admito que nunca o
informar�o de que Achoka se tornou credor do respeito universal ao
proibir, por edito real, a guerra na �rea do seu imp�rio, por considerar
que � um fen�meno b�rbaro, incompat�vel com a voca��o e o destino dos
homens.
A metralha que desce dos c�us sobre terras do Afeganist�o e atinge
diariamente os povos que ali vivem �, segundo o sistema de poder imperial
dos EUA, uma resposta aos atentados terroristas do 11 de Setembro. A
puni��o recai, entretanto, sobre popula��es mis�rrimas, que nunca ouviram
sequer falar de Manhattan, das suas ex-torres e do Pent�gono.
� oportuno perguntar: onde est�o os b�rbaros?
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Miguel Urbano Rodrigues, jornalista portugu�s, � analista pol�tico
internacional.
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