Direito_Sa�de e Bio�tica -- 11.10.2001
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FUNDAMENTALISMO OCIDENTAL
X FUNDAMENTALISMO MU�ULMANO

Rud� Ricci

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Soci�logo, Professor da PUC-Minas,
Diretor da CPP (Consultoria em Pol�ticas P�blicas)
e Consultor da Secretaria Estadual
de Educa��o de Minas Gerais.
E-mail: [EMAIL PROTECTED] Web Site: www.cpp.inf.br



Come�ou a guerra brit�nica e norte-americana
contra o Taleban.


As provas apresentadas pelos EUA que indicam
o comando de Bin Laden no ataque ao World Trade Center
e Pent�gono foram questionadas por grande parte
da imprensa internacional.


A revista �poca denominou as provas
de "pol�micas" e "pobres".



The Guardian afirmou em editorial que Bin Laden
seria absolvido em tribunal internacional.



Mas, ent�o, qual motivo leva duas pot�ncias
internacionais a atacar um pa�s onde 79%
da popula��o reside no meio rural, onde a
expectativa de vida n�o ultrapassa 49 anos
e onde 64% s�o analfabetos?


E o que faz um pa�s t�o pobre cair numa
armadilha internacional t�o evidente?



Tentemos encontrar algumas explica��es
a partir de uma leitura geopol�tica do conflito:




a.. O retorno ao Oriente M�dio:

EUA e Europa foram alijados do territ�rio
que � palco da guerra, em especial,
no final do s�culo XX, quando v�rios Estados
Mu�ulmanos fundamentalistas promoveram
um ataque frontal ao mundo ocidental,
tendo o Ir� e o Iraque como lideran�as
desse bloco pol�tico.


Esta regi�o � estrat�gica para o ocidente.
A linha que une Afeganist�o ao Mar C�spio
compreende reservas petrol�feras e de g�s
natural essenciais para diminuir a crise energ�tica
que se esbo�a em v�rios pa�ses ocidentais.
A explora��o comercial dessa riqueza exige altos
investimentos que somente empresas
norte-americanas e europ�ias podem custear.
Mas o mundo mu�ulmano impede
veementemente tal possibilidade.




b.. A disputa entre pot�ncias:

Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra,
aproveitou-se da fragilidade do governo Bush
e assumiu a lideran�a diplom�tica e militar que
envolve os bastidores da guerra.


Em poucos dias, encontrou-se com v�rios
dirigentes da Europa, da �ndia e Paquist�o.
Forjou uma frente militar e geopol�tica,
al�m de reconstruir a alian�a EUA/Inglaterra
em desuso desde a II Guerra Mundial
e inimagin�vel logo ap�s a vit�ria eleitoral
de Bush, em virtude de Blair ter apoiado
abertamente Bill Clinton e seu candidato.
O primeiro-ministro ingl�s � h�bil e �gil
e n�o tem evitado demonstrar quem est�
na dire��o dos movimentos pol�ticos
e na defesa dos interesses
ocidentais nesta guerra.




c.. A guerra santa:

As disputas regionais envolvendo Paquist�o
e �ndia definem os contornos da atual guerra
e o futuro das pretens�es ocidentais.
� um cen�rio de jogo de xadrez dos mais
complexos.

Comecemos pela disputa da Caxemira,
regi�o que se localiza ao norte da �ndia,
Paquist�o e Afeganist�o.

� um territ�rio disputado desde a cria��o
dos Estados do Paquist�o (mu�ulmano)
e da �ndia (hindu), em 1947.


Ap�s dois anos de conflito, este territ�rio
foi dividido entre os dois pa�ses.
Nos anos 80, inicia-se um movimento guerrilheiro
de unifica��o territorial, denunciado pelo governo
indiano como financiado pelos paquistaneses.
Em 98 e 99, os dois pa�ses realizam testes
nucleares e, em seguida, iniciam um conflito militar.


O Servi�o de Intelig�ncia do Paquist�o,
desde ent�o, vem utilizando o Afeganist�o
como uma base territorial para o conflito
com a �ndia. Da� seu apoio ao Taleban.
O Afeganist�o que, desde 1973, era um pa�s
vinculado ao bloco sovi�tico, em 1979 forja
uma organiza��o guerrilheira mu�ulmana
de oposi��o ao governo central.


O conflito interno foi promovido pelo Paquist�o,
apoiando a ascens�o da mil�cia Taleban ao poder,
o que ocorre em 1995. Entretanto, outros conflitos
�tnicos e religiosos permanecem e nos pr�ximos
dias poder�o aflorar no cen�rio de guerra.
O primeiro deles diz respeito ao posicionamento
dos pashtuns. A etnia pashtun ou patane envolve
38% da popula��o afeg� e 13% da paquistan�s.
Organiza-se em estruturas tribais que se localizam
numa faixa territorial que desenha um semi-c�rculo
no territ�rio afeg�o, iniciando na fronteira leste com
o Paquist�o, descendo ao sul do pa�s e cobrindo
parte da fronteira oeste, com o Ir�.
Os pashtuns possuem um c�digo moral muito r�gido
apoiado no bin�mio vingan�a e hospitalidade.
Mesmo sendo muito pobres, as tribos pashtuns
recebem os visitantes com excesso de amabilidade.
Muitas lideran�as afirmam que esta tradi��o orienta
sua rela��o com Bin Laden, seu h�spede mais famoso.
Os pashtuns consideram-se uma na��o espec�fica
e a localiza��o de suas tribos perpassa o Afeganist�o
e Paquist�o, o que pode levar sua popula��o � guerra
contra o ataque ocidental, desestabilizando
o governo paquistan�s.


Um segundo conflito territorial � o religioso.
O mundo mu�ulmano se divide em sunitas e xiitas.
Paquist�o e Afeganist�o possuem maioria sunita
e o vizinho Ir� possui maioria xiita.
Os xiitas acreditam que todas revela��es divinas
foram recebidas por Maom� e est�o contidas
no Cor�o, o livro sagrado.
Por este motivo, lideran�as religiosas altamente
preparadas, os im�s, s�o necess�rias para interpretarem
com rigor o Cor�o.
J� os sunitas desenvolveram um c�digo legal,
a Sharia, que deriva do Cor�o, da tradi��o isl�mica
e do consenso entre suas comunidades.
Os sunitas procuram recriar e fortalecer estruturas
comunit�rias, enquanto que os xiitas apoiam-se
em leituras mais esot�ricas do Cor�o.
Contudo, h� uma segunda divis�o, entre os sunitas,
envolvendo aqueles que s�o mais culturalmente
flex�veis e os fundamentalistas, que exigem a aplica��o
rigorosa da Sharia, suspendendo os direitos
das popula��es n�o mu�ulmanas.
Este � o caso do governo do Taleban.



Como se percebe, a guerra que se inicia
cria um palco de m�ltiplos interesses.
Nele, emergem rancores e �dios latentes,
muitos deles dificilmente compreendidos
exclusivamente pela raz�o.
Uma guerra entre culturas.





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