Medicina e sa�de n�o dependem primeiro de
libera��o de recursos financeiros, SE a medicina
e seus profissionais n�o possu�rem compromisso
com a verdade e capacidade de enfrentar
seus erros com transpar�ncia.
 
 
Constatei nos �ltimos dias que o apelo m�dico da
frase  "A verdade faz bem � sa�de"
n�o � para prescri��o m�dica verdadeira.
� para uso de pol�ticas question�veis
e oportunistas.
 
 
Na quest�o do tr�fico de �rg�os e do erro
declarat�rio de morte, assim como a "placidez"
dos �rg�os institucionais diante de tudo isto
� pat�tico saber que
"eles n�o tiveram tempo para
responder", como noticiado hoje pela
Folha de S�o Paulo  (texto abaixo).
 

Como as pessoas menos esclarecidas,
leigas, poder�o processar informa��es t�o
espec�ficas sobre a quest�o do erro declarat�rio,
sem lev�-las ao plano pessoal do m�dico que
apenas cumpre protocolos?
 
 
Como a popula��o vai reagir a tanto descaso,
a tanta d�vida dos que sabiam com
os que n�o sabiam?
 

Ficar� dif�cil ï¿½ opini�o p�blica
saber distinguir entre o ato injusto volunt�rio
e o ato injusto involunt�rio.
 
 
Ou seja, entre m�dicos que agiram injustamente, 
declarando a morte encef�lica do paciente por meio
do mortal teste da apn�ia, mas voluntariamente,
sabendo dos efeitos letais desse teste,  
e m�dicos que agiram tamb�m injustamente,
mas involuntariamente, apenas seguindo protocolos,
como rob�s que repetem algoritmos, enquanto seus
�rg�os representantes restringem-se a reclamar de falta
de verbas para explicar todo e qualquer problema
de sa�de p�blica.
 
 

E mesmo os que agiram involuntariamente,
n�o poderiam ter questionado o fato de apenas
cumprirem protocolos sem question�-los?
 
 

Tudo isto � muito complexo de explicar �s pessoas,
quanto mais de faz�-las entender.
Muito mais ainda para aquelas que foram
induzidas a erro para doar �rg�os vitais dos
seus parentes que estavam vivos. 
Em um primeiro momento viver�o
um drama de culpa e depois direcionar�o toda
a sua revolta sobre os m�dicos e suas
graves omiss�es em pensar e informar,
pois a omiss�o persiste por op��o consciente
entre eles de forma predominante.
Quem n�o � omisso � alvo de repres�lias
e tamb�m nisto os demais m�dicos se omitem
em assumir uma postura �tica,
cobrando �tica de seus representantes
e respeito � informa��o devida � sociedade.
 
 
Os gestores da medicina n�o est�o percebendo,
mesmo com a s�ndrome de divindade que lhes
� caracter�stica, que o descaso com a vida e
com a sa�de, sempre buscando associar sa�de
� libera��o de recursos, que a responsabilidade
que lhes sobra ï¿½ uma impag�vel d�vida com a verdade
que vai recair sobre  a medicina que optou
pela mentira para "proteger" uma imagem
esfarrapada de algo que sequer como mentira 
� arremedo do que a medicina deve ser? 
 
 

Estamos, de novo, no terreno da velha �tica
aristot�lica (o Livro V da �tica a Nic�macos, que trata
da Justi�a como a �tica mais perfeita entre "as
�ticas"). Por isto que sempre penso que mais
vale aprender a pensar do que a decorar protocolos
e que, no fundo, toda essa quest�o tem em sua raiz
o problema da forma��o do m�dico ou de qualquer
profissional.
 
 
Estamos numa era de racionalidade teleol�gica
suprema, em que fazemos sempre coisas para
um "por vir", sempre pensando num bem futuro,
mas n�o as fazemos para um bem presente.
 
 
Um pensador chamado Emanuele Severino,
em carta para Umberto Eco, contrapondo-se
� f� laica deste �ltimo, escreveu, certa vez, no
Corri�re de La Siera, que as pessoas podem
ter boa-f� e assim mesmo matar porque t�m boa-f�,
e que podem n�o ter boa-f� e agirem de forma �tica,
e que o que importa � a convic��o que se tem
ao agir, e que, por isto, _"a t�cnica �
o ocaso da boa-f�"_, pois a t�cnica sem �tica sempre
visa a algo diferente dela mesma no futuro.
 
 

Assim, a gest�o da sa�de m�dica sempre visa �
racionalidade econ�mica do sistema,
que � um bem futuro ( _ter dinheiro para a sa�de_ )
necess�rio,  mas n�o a uma racionalidade final
em si mesma ( _curar o paciente_ ), o que � pertinente
com n�o censurar, informar,
dizer a verdade.
Nada disso vem sendo feito, apenas apontam
a falta de racionalidade econ�mica.
 
 
 
N�o � de estranhar, portanto, que a declara��o
fict�cia de morte para fins de transplante concebida
em 1968 nos EUA, possu�sse exclusivamente
um conte�do de _"rela��o custo benef�cio"_,
como disse o neurologista paulista Alberto Alan Gabbai
ser a raz�o do "diagn�stico" que ajudou
a redigir para o  Brasil, em 1978. 
 
 
Toda essa "hist�ria" da morte
encef�lica e seus crit�rios declarat�rios, no fundo,
t�m uma base filos�fica e antropol�gica ainda
a ser descortinada, que poderia, resumidamente,
reportar-se ao problema do bem �ltimo a que visa
a medicina, bem como do bem �ltimo a que visa
a informa��o.
 
 
 
Esse epis�dio na medicina foi uma
ruptura epistemol�gica trazida pela for�a da gan�ncia
(e n�o por uma convic��o cient�fica
comprovada) para que a medicina n�o perdesse
_"o trem da hist�ria da evolu��o
tecnol�gica"_  (estava-se no ufanismo norte-americano 
da era da conquista da Lua, outra prov�vel mentira), 
pois foi necess�rio _reinventar a morte_,
conceitu�-la dentro de certos padr�es control�veis,
para que se pudesse mostrar para o mundo que
TAMB�M a medicina poderia controlar pontualmente
nossa anatomia, intercambiando partes do corpo
de um indiv�duo no corpo de outro, assim como
um servi�o de reposi��o de pe�as,
de forma que nossa validade vital, julgada por crit�rios 
econ�micos e n�o pelos biol�gicos, se
prolongasse por mais alguns anos,
assim como a extens�o da Terra estava se
prolongando para a Lua, na tal conquista espacial
que ocorreu sob a mesma falsidade do "esp�rito"
e �poca dessa declara��o.
 
 
Tudo isso � question�vel.
A validade e padroniza��o dessas
"conquistas"  que se colocam acima 
dos valores fundamentais para o
conv�vio social.
Esse conv�vio, -- nas quest�es b�sicas --,
nas quais a medicina perpetua dolosamente 
um d�bito com a verdade e com a informa��o,
que vem somando homic�dios ao longo do tempo, 
� assunto jur�dico.
 
 
Diante de tudo isso, o CFM  "n�o teve tempo
para responder", sequer tendo a percep��o
de que essa j� foi a sua resposta, que vai gerar
a proibi��o do teste da apn�ia.
 
 
Celso Galli Coimbra
OABRS 11352
Porto Alegre

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Folha de S. Paulo, S�o Paulo, sexta-feira,
14 de novembro de 2003, Cotidiano


Acusados de matar pacientes para tirar
�rg�os ser�o julgados

MAUR�CIO TUFFANI
FREE-LANCE PARA A FOLHA
 

Por decis�o da 6� C�mara Criminal do Tribunal
de Justi�a de S�o Paulo, ontem, dever�o ser levados
a j�ri popular quatro m�dicos acusados de
homic�dio doloso (intencional) de quatro pacientes,
com a finalidade deretirar rins para transplantes,
em Taubat� (130 km de SP), em 1986. As penas
m�nimas para cada caso podem variar
de 6 a 20 anos de pris�o.

Pedro Gagliardi foi o �nico dos tr�s desembargadores
que discordou da tese de homic�dio doloso.
O julgamento rejeitou o recurso contra a decis�o de
agosto de 1999 pelo juiz Fl�vio de Oliveira C�sar,
de Taubat�, de levar a j�ri popular os neurologistas
Antonio Aur�lio de Carvalho Monteiro e Mariano
Fiore J�nior e os urologistas Pedro Henrique
Masjuan Torrecillas e Rui Noronha Sacramento.
 


O advogado dos acusados, Jo�o Romeu Correa Goffi,
afirmou que ainda vai analisar o despacho dos
desembargadores, mas que disp�e de v�rios argumentos
para recorrer ao STJ (Superior Tribunal de Justi�a).
"Meus clientes s�o os principais interessados em esclarecer
os fatos na Justi�a, mas n�o podem compactuar com
tantas nulidades desse processo", disse.
Os quatro pacientes declarados mortos no Hospital
Santa Isabel de Cl�nicas eram Jos� Miguel da
Silva, Alex de Lima, Irani Gobo
e Jos� Faria Carneiro.
 


Alegando _falta de tempo_, o CFM
(Conselho Federal de Medicina) pediu ao
Minist�rio P�blico Federal prorroga��o do prazo
de 30 dias para responder a quest�es t�cnicas
sobre a seguran�a de um dos exames usados para
diagnosticar morte cerebral. O teste de apn�ia,
que consiste em desligar por dez minutos os aparelhos
de respira��o de pacientes em coma, � apontado em
pesquisas como capaz de induzir a morte de pacientes
em vez de diagnostic�-la.
 

O procurador da Rep�blica Luiz Carlos Weber,
de Porto Alegre, recusou o pedido do CFM de mais 120 dias
para responder ao question�rio, mas concedeu
prorroga��o de outros 30 dias.
"Reconhe�o que o �rg�o deve ter dificuldades
para reunir os conselheiros.
Mas essas quest�es j� eram de conhecimento
deles antes de meu encaminhamento", disse Weber.


O advogado Celso Galli Coimbra, de Porto Alegre,
autor do of�cio que provocou a a��o, protestou contra
o n�o-cumprimento do prazo, que terminou
no dia 11.


Neste m�s, a C�mara dos Deputados inicia os trabalhos
de uma CPI para apurar den�ncias de tr�fico de �rg�os
para transplantes. "Temos acompanhado que o
com�rcio clandestino de �rg�os humanos � um fato",
afirmou o deputadoNeucimar Fraga (PL-ES),
autor da proposta da CPI.

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