Por diversas vezes manifestei-me no sentido de que, se havia algum pol�tico que n�o poderia deixar saudade alguma para qualquer brasileiro,  esse pol�tico era, sem qualquer d�vida, o pai da tolice chamada Constitui��o-Cidad�, Ulysses Guimar�es.
Por conta disso, levei um monte de  pancada.
Para aqueles que vieram contra mim, dedico essa mat�ria publicada no ESTAD�O  de hoje, antecipando, desde logo,que julgo  desnecess�rio que me dirijam qualquer pedido de desculpas.L� vai:
 
 
Domingo,
15 de agosto de 1999
Projeto de anistia do MDB exclu�a Arraes e Brizola

Proposta de l�deres do partido era mais restritiva e parcial do que a lei sancionada em agosto de 79

MURILO FIUZA DE MELO

RIO - Quase 20 anos depois de assinada a Lei da Anistia, uma revela��o que s� agora vem a p�blico mostra que l�deres do ent�o Movimento Democr�tico Brasileiro (MDB) defenderam uma proposta ainda mais restritiva e parcial que a do projeto de lei sancionado em 28 de agosto de 1979 pelo presidente Jo�o Baptista Figueiredo. Segundo o ex-secret�rio-geral do partido e ex-deputado federal por Pernambuco Thales Ramalho, hoje com 76 anos, a anistia imaginada pela executiva nacional do MDB exclu�a os l�deres oposicionistas Leonel Brizola e Miguel Arraes, que se encontravam no ex�lio.

O MDB, de Ulisses Guimar�es e Tancredo Neves, era o partido que desde o golpe de 1964 aglutinava as lideran�as da oposi��o na legalidade e se contrapunha � governista Alian�a Renovadora Nacional (Arena).

Ramalho lembra que a proposta de anistia do MDB havia sido feita por um jurista - de quem n�o revela o nome - a pedido do pr�prio Ulisses. Era uma id�ia da ala mais moderada do partido que exclu�a a participa��o dos chamados "aut�nticos" do MDB.

Restri��o - O projeto, no entanto, n�o poderia ser levado � vota��o no Legislativo porque, segundo a Lei de Seguran�a Nacional, a anistia de presos pol�ticos era uma decis�o restrita ao presidente da Rep�blica e aos integrantes do Conselho de Seguran�a Nacional. Era necess�rio negoci�-lo diretamente com o presidente, o que o tornava praticamente invi�vel.

"A restri��o a Arraes e, principalmente a Brizola feita pelo MDB mostra que n�o eram s� os militares que ficaram contra a volta deles", afirma Said Farhat, ex-secret�rio de Comunica��o Social do presidente Figueiredo, hoje morando nos EUA.

"O projeto foi um erro jur�dico", reconhece Ramalho. "Mas se ele fosse aprovado, n�s far�amos uma lei complementar estendendo a anistia a Brizola e Arraes." Embora Ramalho n�o confirme, por tr�s do "erro jur�dico" do projeto de anistia emedebista havia uma clara inten��o pol�tica: a volta dos dois l�deres da oposi��o significaria a divis�o de uma s�lida resist�ncia pol�tica ao regime, que vinha sendo constru�da pelo MDB desde a vitoriosa campanha eleitoral para o Congresso, em 1974, que s� n�o se ampliou no pleito de 1978 por causa do ent�o presidente Ernesto Geisel.

Um ano antes, Geisel fecharia o Parlamento e baixaria o "Pacote de Abril", que criava a figura do senador bi�nico - um ter�o da representa��o do Senado passaria a ser indicado pelo governo. A manobra garantiria n�o s� a vit�ria de Figueiredo, candidato de Geisel � sua sucess�o no Col�gio Eleitoral, como tamb�m o controle maior do governo sobre o Congresso.

"O car�ter amplo, geral e irrestrito da lei acabou celebrado como uma grande vit�ria da oposi��o, mas n�o foi do MDB e, sim, uma defini��o do pr�prio governo", afirma o cientista pol�tico Jo�o Trajano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Sem contesta��o - "Hoje, a gente percebe que o car�ter mais amplo e irrestrito tornou vi�vel que os agentes da repress�o n�o fossem processados", aponta Trajano. Um dos l�deres dos "aut�nticos" do MDB, Lys�neas Maciel, hoje vereador do Rio pelo PDT, lembra que, na �poca, havia v�rios projetos parecidos com o da executiva nacional circulando pelo partido. "Todos evitavam a contesta��o", diz. "A posi��o do MDB era a de n�o discutir o que era importante e fundamental para assegurar o direito de, mais tarde, discutir o que era sup�rfluo".

Em maio de 1979, as articula��es da Executiva Nacional do MDB em torno de uma anistia parcial chegariam ao fim. Num encontro com o ent�o ministro da Justi�a, Petr�nio Portella, um velho amigo dos tempos da Uni�o Nacional dos Estudantes (UNE), Ramalho seria o primeiro l�der da oposi��o a ter acesso ao projeto de anistia do governo, antes mesmo de ser enviado ao Congresso, no dia 27 de junho daquele ano.

"Fiquei surpreso quando vi que o projeto deles era mais amplo e inclu�a Brizola e Arraes", afirma o ex-deputado. "Petr�nio me respondeu que mais cedo ou mais tarde os dois teriam de ser anistiados e que, se n�o fosse assim, n�o seria uma anistia." Depois do encontro, Ramalho viajou para os Estados Unidos e, l�, encontrou-se com Brizola, que j� sabia da inten��o do MDB. "Ele estava furioso, mas expliquei que aquilo n�o passava de um erro jur�dico que poderia ser perfeitamente contornado por uma lei complementar." Em 1975, o governo Geisel vivia um momento delicado. O avan�o da oposi��o no campo parlamentar, depois da vit�ria nas elei��es do ano anterior, era evidente. Ao mesmo tempo, as press�es da sociedade em prol da abertura pol�tica vinham crescendo. "No fim daquele ano, o general Golbery (do Couto e Silva, ministro-chefe do Gabinete Civil) procurou a mim e ao doutor Ulisses para discutir problemas pol�ticos do Pa�s", lembra Ramalho.

Era a primeira vez que um militar do primeiro-escal�o do governo buscava a oposi��o para dialogar. O encontro, que demorou quase quatro horas, foi secreto e Golbery fez quest�o de dizer que estava ali em nome do presidente. Ramalho, por�m, afirma que o ministro queria discutir apenas um "projeto de revis�o" das pris�es pol�ticas efetuadas pelo regime at� ent�o.

Impasse - "Eu e Ulisses ponderamos que se esse projeto fosse enviado para o Congresso, certamente abriria-se discuss�o de uma proposta mais ampla, uma proposta de anistia", lembra. A reuni�o, ent�o, chegou a um impasse e Golbery prometeu marcar um novo encontro com os l�deres do MDB. Logo depois, por�m, Ulisses Guimar�es usaria a tribuna da C�mara para atacar Geisel, que cassara dois deputados emedebistas. No discurso, Ulisses comparou o presidente a Hitler e a Idi Amin Dada, ent�o ditador de Uganda.

"O discurso deixou Geisel furioso e, imediatamente, as conversa��es foram interrompidas", conta Ramalho que, preocupado, procurou o ex-presidente Juscelino Kubitschek, na sua fazenda no interior de Goi�s. "Contei a ele o que estava acontecendo e ele ficou indignado", diz. A sa�da encontrada foi reunir toda a c�pula do MDB e Juscelino para discutir o problema.

A reuni�o, por�m, nunca aconteceu: no ano seguinte Juscelino morreria em um misterioso acidente de carro e Ramalho viajaria para os Estados Unidos para submeter-se a uma cirurgia na perna. "Por causa disso, o segundo encontro com Golbery nunca aconteceu", afirma. O resultado foi o endurecimento do regime, com a edi��o do "pacote de abril" e o adiamento das discuss�es sobre a anistia.



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