Queridos amigos,
Enfrentar a perda, sem vocês, teria sido impossível. Todos fizeram o que amigos - e só estes - podem fazer pelo outro. Flores, força, vibrações, orações, conselhos, choro, piadas, música, livros, ajuda prática, abraços e beijos. Sem vocês meu mundo seria mais difícil: árido e destruído. Com vocês resgato a poesia e a emoção.
 Beijo a todos
Áurea e familiares do Fernando (abaixo segue meu artigo do Brazilian Press desta semana, que, para variar, não está no sítio.)

 SAGRAÇÃO À INTELIGÊNCIA (para Fernando Toledo)
 Áurea Alves




Poderiam meus braços ser mais longos a ponto de se estender por 420 km e alcançá-lo. Poderia o livro do lado tê-lo prendido por mais alguns minutos. Poderia um amigo tê-lo chamado para discutir literatura russa ou a dicotomia existente no ambíguo mundo das HQs. Talvez um novo invento, a reinvenção do País, talvez algo pudesse mudar. Talvez a força de um super-homem virando o mundo e o tempo, no supra-sumo da imaginação, movido pelo amor piegas e pela ignorância completa da Física. Talvez apenas eu pudesse gritar-lhe o nome avisando que chegara para encontrá-lo.

Poderia apenas contê-lo eufórico diante do microcomputador para escrever um artigo sobre Mahler ou James Joyce. Talvez um chamado, o gritar de alguém, pudesse acordá-lo, ineditamente, como nunca precisara acontecer antes. Talvez o menino que aprendera a ler aos oito anos não pudesse mais retornar. Talvez.

Era certo que andava feliz e trabalhava como louco. Era certo que tinha ao lado a companheira que o respeitava e o enxergava como o homem de sua vida, o grande homem que era. Era certo que sabia ser da mulher o que ela esperava dele - tudo, nem mais um pouco. Sabia beijá-la na hora certa e tomá-la livre, sabendo-se dela.

Era certo que tinha uma inteligência anormal e que - mais que tudo - amava o bom uso desta qualquer que fosse o ambiente em que se encontrasse. Era certo que domesticava a alma lendo desesperadamente. Não temia demonstrar seu conhecimento, compartilhando-o com o mundo: tinha orgulho de saber-se.

 Era certo que pensava em fazer um chek-up e deixar o cigarro.

Era certo que por sua cabeça passavam as grandes piadas, próprias das pessoas que não são amargas. Era certo que seus livros, grandes amigos, eram especiais cúmplices e professores em sua pós-graduação e doutorado fora das amarras, dos calendários e dos programas da Academia.

Era certo que seu ouvido aguçado, a ponto de não incomodar-se com a rotação fora de ordem de um toca-discos, sabia filtrar as diferenças e identificar a voz cristalina de Ella Fitzgerald e os legatos de Louis Armstrong. Era certo que me amava e chorava por mim ouvindo George Gershwin e Pixinguinha.

Fernando Toledo morreu aos 37 anos, atropelado por um ônibus, quando chegava em nossa casa, na Tijuca, Rio de Janeiro. O acidente provocou a fratura de seu crânio e, ironicamente, seu cérebro nunca mais funcionou. O hemorragia, que os médicos não conseguiram conter, poderia traduzir-se como o implorar de seu sangue para recuperar a antiga função dos neurônios, pois Fernando tinha nas veias o desespero de conhecer e amar.

Foi meu grande companheiro de longas conversas, de textos e trabalhos e de uma jornada amorosa de 1127 dias inesquecíveis. Perdi sua voz, perdi seus gestos e sua emoção incessante, mas não perdi sua memória e é a ela que dedicarei minha vida. Isso é certo que eu poderei.




        
        
                
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