Fonte de inspiração

Engenheiro pioneiro em Brasília e seresteiro bissexto, Kleber Farias Pinto conta ao 
Correio como Tom Jobim e Vinicius de Moraes compuseram Água de beber em breve 
temporada no Catetinho, a convite de JK

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Irlam Rocha Lima 
Da equipe do Correio 
"A história musical de Brasília, quando for contada, terá que começar por Água de 
beber." A força da afirmação, feita por Kleber Farias Pinto, não vem do fato de ele 
ser um seresteiro bissexto. Engenheiro civil que participou da construção da nova 
capital, estava presente na primeira audição do samba, de autoria de Tom Jobim e 
Vinicius de Moraes, num remoto final de tarde de dezembro de 1959, no bar do extinto 
Brasília Palace Hotel. 

Naquele dia, depois de uma longa jornada à frente da implantação do, para a época, 
revolucionário sistema de iluminação pública da cidade - com rede subterrânea -, 
Kleber, ainda com os trajes de labuta e botas enlameadas, pegou seu jipe e se dirigiu 
para o Brasília Palace. Ocupou uma mesa na qual, logo em seguida, passaria a ter a 
companhia de Ari Cunha (colunista e atual vice-presidente do Correio) para uma 
cervejinha. 

Conversa vai, conversa vem, de repente os dois vêem chegar duas personalidades da 
música brasileira: Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Os dois cumpriam uma missão na 
futura capital, como Kleber e Ari viriam a saber depois. "Quando se sentaram, fui até 
a mesa deles e puxei conversa com o Vinicius, a quem conhecia do Pouso do Chico Rei, 
onde o poeta costumava se hospedar em Ouro Preto (MG). Eu era estudante de Engenharia 
quando fui apresentado a ele pela Lili Correia de Araújo, que era uma das sócias do 
hotel." 

Sorvendo um uisquinho, Vinicius foi interpelado pelo despachado Kleber. "Que diabo 
vocês estão fazendo em Brasília em pleno dezembro, no meio de tanta lama?" Com seu 
jeito tranqüilo, o poeta respondeu. "O Juscelino nos encomendou uma sinfonia para ser 
executada no dia da inauguração de Brasília. Mandou vir um piano de Goiânia e nós 
estamos lá no Catetinho trabalhando. O presidente disse que só voltaremos para o Rio 
depois que a sinfonia ficar pronta." 

Kleber, então, se dirigiu ao pianista do bar do hotel e, com ele, estabeleceu o 
seguinte diálogo: "Meu amigo, estão aqui o Tom Jobim e o Vinicius de Moraes, será que 
eles poderiam dar uma canja?". O pianista, que pelo visto não sabia a quem o 
engenheiro se referia, foi curto e grosso: "Olha, os caras me pagam direitinho para eu 
tocar meu piano e eu não quero bagunça, não". 

Sem se dar por vencido, Kleber aproveitou o momento em que o pianista fez intervalo em 
sua apresentação, voltou à mesa de Tom e Vinicius e insistiu no convite. Os dois 
toparam. "O Tom começou a tocar acordes da sinfonia, enquanto o Vinicius declamava 
trechos de poemas de sua autoria. Aí o Tom parou e, brincando, falou que já estava de 
saco cheio da sinfonia. Foi quando o Vinicius sugeriu a ele tocar o sambinha que 
haviam começado a compor", relata. 

"O Ari, eu e as pessoas que estavam ali no bar do Brasília Palace ouvimos, então, em 
primeira audição, os versos iniciais de Água de beber: 'Água de beber/ Água de beber 
camará/ Água de beber/ Água de beber camará/ Eu nunca fiz coisa tão certa/ Entrei para 
a escola do perdão/ A minha casa vive aberta/ Abri todas as portas do coração'. Depois 
o Vinicius me explicou a origem da música." 

Idéia 


Com todos os detalhes vivos na memória, o pioneiro relatou o que ouvira de Vinicius. 
"Na noite anterior, depois do jantar, os dois saíram para uma caminhada em volta do 
Catetinho e um barulho de queda d'água lhes chamara a atenção. Ao procurarem saber de 
onde vinha o barulho, tiveram a resposta de um vigia: 'Ô camará, isso é água de beber, 
que tem ali, camará'. E os levou até uma fonte de água límpida, próxima ao palácio de 
madeira. Os dois beberam da água e ficaram com aquilo na cabeça. Na mesma noite, 
começaram a compor o samba." A fonte deságua no Country Club, onde os sócios se 
deliciam com banhos de bica. 

Trinta anos depois, Tom Jobim veio a Brasília para apresentar o espetáculo Antônio 
Brasileiro, na Sala Villa-Lobos. Na platéia, emocionado, Kleber observou que Água de 
beber foi uma das músicas mais aplaudidas. "Ao final do show, fui ao camarim e, ao 
conversar com o Tom, voltei no tempo. Aí, pedi a ele uma declaração por escrito, 
confirmando a origem da música." Ele tinha motivo para tomar essa providência. "Quis 
ter a declaração do Tom, porque havia pessoas que não acreditavam quando eu contava a 
história." 

O fato foi relatado, resumidamente, em crônica que Ari Cunha publicou em sua coluna no 
Correio, na edição de 11 de dezembro de 1994, sob o título Tom canta Brasília, numa 
homenagem ao compositor, morto dias antes. Na página 24 do livro Cancioneiro Jobim - 
1959-1965 (editado pela Jobim Music), há também breve registro da história de Água de 
beber. 

Sempre que surge oportunidade, em reuniões musicais, Kleber volta à gênese de Água de 
beber e costuma cantá-la. "Certa vez, eu estava fazendo um cruzeiro entre Estocolmo e 
Leningrado (atual São Petersburgo), quando ouvi a orquestra que tocava no navio 
interpretar o samba de Tom e Vinicius. O crooner cantava a música em inglês. Eu fui 
até ele e expliquei que se tratava de um clássico da Bossa Nova, um estilo musical 
brasileiro. O rapaz, então, me convidou para dar uma canja, em português, claro. 
Acredito que não fiz feio", comenta, orgulhoso. 
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