Extraído do Boletim AGÊNCIA CARTA MAIOR de 04.01.2006 (4ª feira).

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               MELHORES DE 2005 - Variações pixinguinhanas

  Dois novos discos ilustram a categoria de um dos fundadores da música
popular brasileira. CDs resgatam as músicas orquestrais e passagens inéditas
              do autor de Carinhoso pela música nordestina.

                                                               Edson Wander
  Não há data especial, nem evento comemorativo, mas celebrar Pixinguinha
 nunca é demais. E o mestre maior da música popular brasileira volta a ser
     revisitado em dois bons e distintos discos. Do lado orquestral e
    carnavalesco do mestre Alfredo da Rocha Vianna (1897-1973), vem o
  relançamento de Orquestra Pixinguinha (Biscoito Fino), produzido pelo
 cavaquinista Henrique Cazes em 1996; noutra ponta, em interpretação mais
 livre, leve e solta, aparecem Mário Séve e David Ganc cruzando sopros na
         coletânea Pixinguinha + Benedito (Núcleo Contemporâneo).


Esse segundo CD registra duas músicas inéditas de Pixinguinha em estilos que
  a genialidade dele pouco visitou: o baião Acorda Garota e o frevo Água
Morna. São 14 faixas produzidas pela dupla SéveGanc em companhia de um time
   de músicos que deixou os arranjos modernos, apesar de fiéis a choros
baseados em polca, maxixe e valsa. Ambos saxofonistas e flautistas escolados
 no choro, Séve (do grupo Nó em Pingo D´água, que em 2002 lançou outras 13
  músicas inéditas de Pixinguinha) e Ganc (do grupo A Barca do Sol, entre
            outros) revezaram-se nas famílias da flauta e sax.


        O disco recupera características fundamentais da parceria
  PixinguinhaBenedito, que explorava com destreza as melodias de cortar o
coração (como no choro-canção Sedutor e a valsinha Gloria) e contrapontos de
 tirar o fôlego (caso do samba-choro Cochichando ou do choro puro Ainda me
  Recordo). E o disco também imprime novas possibilidades categóricas ao
  choro. O choro puro vira choro-forró (Descendo a Serra) ou choro-lundu
    (Cheguei) com levada de samba de roda ou uma bossa-choro (Os Cinco
 Companheiros, uma das últimas músicas em cujo original Pixinguinha atuou
  como flautista). A maioria é da parceria PixinguinhaBenedito, menos as
 nordestinidades de Pixinguinha-solo, mantidas no original por Mário Séve.

Pepitas orquestrais Próximo da família (o neto de Pixinguinha, Marcelo Vianna, é cantor e ator
próximo dos chorões cariocas), Mário Séve teve acesso ao baú dos herdeiros e
 escolheu as duas novidades do álbum. O baião Acorda Garota foi registrado
 com toda a família da flauta, incluindo a flauta baixo e o pife que dão o
colorido típico do gênero. Na gravação, Séve ainda fez citações a Canção do
   Caicó e Canto da Nossa Terra, tema da Bachiana nº 2, de Villa-Lobos.


 A outra inédita, o frevo Água Morna, também é peça rara na obra do velho
mestre. No arranjo, Ganc resolveu usar uma orquestra de frevo, com a família
do sax e o auxílio do trio trompete-trombone-tuba. Ficou como se a coisa se
 passasse em Olinda. Esse flerte com a música nordestina não caiu do céu,
 claro. No histórico grupo Os Oito Batutas (formado por ele), Pixinguinha
conviveu com músicos oriundos do Nordeste (como o magistral violonista João
 Pernambuco 1883-1947) e que traziam para o grupo toda a carga cultural de
suas regiões, ainda que essa influência não se espelhasse plenamente no som
                               dos Batutas.


Não satisfeitos, Mário Séve e David Ganc resolveram incluir um registro das
  próprias sumidades finalizando a execução ao vivo de Urubu Malandro, de
Louro e João de Barro (o Braguinha). Na música, há um trecho de uma gravação
original caseira com Pixinguinha & Benedito solando a marchinha, extraída de
        um disco nunca lançado comercialmente. Pepitas, pepitas..

  . E tem mais pepitas de Pixinguinha com Henrique Cazes. O disco já fora
    lançado em 1996 de forma independente com pequena distribuição. O
relançamento ganha então ares de novidade do velho Pixinga. A ligá-lo ao CD
 de Séve & Ganc, há a presença de Benedito Lacerda (1903-1958), flautista,
   parceiro dos mais memoráveis choros de Pixinguinha que aparece aqui,
co-assinando com o velho mestre 9 das 12 músicas escolhidas por Cazes. Para
  montar essa Orquestra Pixinguinha, Henrique Cazes reuniu (em 1988) 12
    músicos de diferentes gerações entre sopristas, percussionistas e
 instrumentistas de corda. Duas músicas são cantadas por Wilson Moreira (o
             jongo Bengelê e o samba-de-roda Festa de Nana).


 Cazes diz que a principal preocupação do projeto é ser fiel ao estilo e à
  escrita de Pixinguinha (o grupo ainda faz shows), seja nas bases, nos
   complementos de percussão ou no fraseado dos sopros. Dez das músicas
 gravadas são arranjos originais, cujas partituras Pixinguinha fazia para
cada instrumento em separado da grade orquestral. Cazes explica no encarte:
 Como trabalhava com violonistas, cavaquinistas e percussionistas que não
liam música, não escrevia a base, o que se constitui numa dificuldade extra
na reconstrução de sua sonoridade característica. No fim da seleção, Cazes
promoveu um encontro hipotético de Pixinguinha com Scott Joplin mostrando a
    proximidade do ragtime norte-americano com o maxixe no medley The
 Entertainer/Ainda me Recordo. Encontro imaginário de duas culturas que na
          realidade representam muito na música popular mundial.


  Pixinguinha foi, é e sempre será a referência maior da música popular
  brasileira por vários motivos. Afora o músico excepcional e compositor
 privilegiado, Alfredo da Rocha Vianna era um estudioso da cultura popular
  brasileira. Basta citar uma das várias passagens da influência dele na
cultura nacional (e não só musical). Em 1926, durante uma temporada de shows
  em São Paulo, Pixinguinha conheceu, apresentado por Lamartine Babo, o
musicólogo e escritor Mário de Andrade. O resultado dessa aproximação pode
  ser conferida no capítulo sete do livro Macunaíma, o Herói sem Nenhum
  Caráter, quando Andrade aborda a macumba. Num meio dominado por músicos
diletantes e analfabetos, tornou-se culto, aprendeu a ler e escrever música.
Pixinguinha (o apelido familiar começou como Pizindin, passou à escola como
  Bexiguinha até fundir-se no que ficou) está na gênese do choro, gênero
conseguido da fusão da música européia tocada nos salões da elite brasileira
 com os ritmos afro-brasileiros do populacho, e posteriormente com o jazz,
que ele conheceu na Europa na década de 20, quando o gênero norte-americano
firmava-se com uma trajetória sociocultural muito parecida com a do choro.
  Filho de uma prole numerosa (teve 13 irmãos), aprendeu a tocar flauta e
 cavaquinho aos 12 anos, influenciado pelo pai e pelos irmãos músicos. Com
 18, fez um dos clássicos dele, Rosa. Compôs mais 2 mil músicas e os novos
        discos citados nesta página recuperam um momento de enorme
representatividade do compositor. Pixinguinha já havia trocado a flauta pelo
  saxofone e passou a incutir outra inovação ao ritmo: o contraponto. Foi
quando gravou os melhores discos da história do choro (entre 1940 e 1951),
  valendo-se ainda do que havia estabelecido no passado e projetando um
   horizonte de beleza sonora até hoje impossível de vislumbrar limite.
 Pixinguinha morreu vítima de um segundo infarto no domingo de carnaval de
                                  1973.

                          Orquestra Pixinguinha
                         Gravadora Biscoito Fino
                          Preço médio: R$ 25,00

                          Pixinguinha + Benedito
                           Núcleo contemporâneo
                                                     Preço médio: R$ 21,00

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