Valeu Wellington. Informações preciosas. Penso que eles devem ter tido grande influência no choro, por um simples motivo: as músicas importadas serviam, creio, às elites. Em algum momento ela desceu às ruas. Como você disse, eles liam música, além de trazerem toda a bagagem africana que tanto influenciou o choro. Enfim, é uma possibilidade.

From: "Wellington Diniz" <[EMAIL PROTECTED]>
To: [EMAIL PROTECTED], [email protected]
Subject: RE: [S-C] quem veio primeiro
Date: Thu, 12 Jan 2006 14:43:19 +0000





Caríssimo Hélio e demais tribuneiros, podemos dizer que os barbeiros formavam um grupo singular. Desde o período colonial que os alegres músicos barbeiros compareciam nos festejos e à entrada das igrejas, pois as irmandades os contratavam para atrair fiés. Um relato muito bom é o do capítulo 19 (Domingo do Espírito Santo) da primeira parte do livro Memórias de um Sargento de Milícias onde Manuel Antonio de Almeida nos informa sobre este grupo. Diz lá: "Caminhavam formando um quadrado, no meio do qual ia o chamado imperador do Divino, acompanhados por uma música de barbeiros, e precedidos e cercados por uma chusma de irmãos de opa levando bandeiras encarnadas e outros emblemas, os quais tiravam esmolas enquanto eles cantavam e tocavam". Mais adiante deixa escapar um certo desprezo por esta música geralamente executada por negros, segundo Martha Abreu era difícil saber se eram livres ou escravos. Já Mello Moraes Filho no capítulo dedicado à festa da Glória afirma que se tratava de negros escravos: "Antes das dez horas da manhã a música de barbeiros marchava, indo postar-se na baixada da igreja. Dessa banda, a principal, era diretor um certo Dutra, mestre de barbeiros à Rua da Alfândega, que a ensaiava e fardava para as mais ruidosas funções. Todas as figuras eram negros escravos"; e aí começa a discorrer sobre o uniforme dos mesmo. Tinhorão vai mais além ao afirmar que senhores de escravos barbeiros, além das funções domésticas, colocavam seus negros músicos para ganhar um troco e ajudar nas despesas da casa. Parece ser consensual que estes negros exerciam três profissões. Além de músicos remunerados ainda eram profissionais de barbearia, daí a alcunha de músicos barbeiros, e sangradores. Creio ser difícil afirmar que foram eles que introduziram os sopros no choro. Contudo, é possível dizer com certeza que eles tocavam com instrumentos de sopro, dobrados, quadrilhas e fandangos, segundo Mello Moraes. Um aspecto interessante é que estes músicos sabiam ler partituras, pois como nos informa Mello Moraes: "os que não sabiam de cor a sua parte, liam-na pregada a alfinetes nas costas do companheiro da frente, que servia de estante". Para terminar cabe um pequeno comentário sobre os gêneros executados. Os dobrados se assemelhavam ao rufar dos tambores, um tipo de marcha militar. O fandango era de uma imprecisão grande, servia para designar vários tipos de dança, talvez até uma espécie de lundu, mas sempre se referindo a um tipo de dança. Por fim, as quadrilhas parecem ser uma apropriação das classes populares de danças európeias de salão do século XIX. Enfim, para um esclarecimento maior indico como bibliografia básica: Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antonio de Almeida, Festas e Tradições Populares do Brasil de Mello Moraes Filho, O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900 de Martha de Abreu e Música Popular: um tema em debate de José Ramos Tinhorão. Como escrevi isto ao sabor da memória, fora as citações, espero em futuro próximo escrever algo com mais rigor e com maiores detalhes. Abraços para todos esperando ter ajudado um pouquinho.



>From: "Helio Amaral"
>To: [EMAIL PROTECTED], [email protected]
>Subject: RE: [S-C] quem veio primeiro
>Date: Thu, 12 Jan 2006 13:03:29 +0000
>
>Maravilha de textos. Como disse o Estevão, guardarei todos eles para
>refletir com calma. Se todos os queridos amigos me derem a honra de
>acessarem o www.blogdochoro.zip.net e puderem dar uma ajuda, tanto
>em textos como em possíveis correções, eu agradeceria muito.
>Um abraço.
>P.S. - Ah, sim, Wellington, ainda sobre este debate, se possível
>diga o que sabe sobre a "música dos barbeiros" pois pouca
>informações há sobre eles. Negros libertos, introduziram os
>instrumentos de sopro no choro, segundo o mestre Ary Vasconcelos.
>
>
>>From: "Wellington Diniz"
>>To: [email protected]
>>Subject: [S-C] quem veio primeiro
>>Date: Mon, 09 Jan 2006 09:21:42 -0500
>>
>>Caríssimos, tentarei ser o mais breve possível, já sabedor da
>>dificuldade de ser conciso. O assunto é espinhoso e carece de
>>espaço.Em minha modesta opinião a Música Popular Brasileira têm
>>suas origens nos índios pré-cabralinos. Contudo, a pesquisa
>>historiográfica é praticamente impossível, pois não há documentação
>>para tanto. Já na carta de Pero Vaz de Caminha há referências de
>>festejos entre a tripulação das naus de Cabral com os indígenas
>>brasileiros, festejos regados à música e dança. Com a chegada dos
>>primeiros lotes de negros, por volta de 1532, começa esta louca
>>mistura entre elementos indígenas, que para alguns não é relevante,
>>negros e europeus. Ao que parece o batuque dos negros das senzalas,
>>e é o que defende Ricardo Cravo Albin, associados às palmas do
>>indígena inicia esse lento processo de amálgama. Em 1549 começa a
>>aportar em terras tupiniquins os jesuítas que irão introduzir novos
>>elementos:o instrumental europeu, o cantochão adaptado e os autos
>>teatrais. Estes
>>  elementos serão importantíssimos na formação da Música
>>Brasileira. Com relação ao batuque é de extrema dificuldade, senão
>>impossível, determinar suas características enquanto genêro. Uma
>>coisa, no entanto, parece líquida e certa: sua associação com
>>dança, música, comida, bebida, dádivas e deuses. Havia uma confusão
>>entre batuque e lundu, que é grafado de várias maneiras, na
>>mentalidade branca. Todos os tambores negros são ditos batuque ou
>>lundu. Os tambores são emblemáticos na formação da Música
>>Brasileira, pois eles são os instrumentos musicais da celebração
>>afro, criando uma ligação inelutável com a África. Com esta zona
>>enevoada entre o batuque e o lundu, normalmente o lundu era tido
>>como uma outra dança negra. Contudo, há a questão do lundu dança e
>>lundu canção. Em várias obras de Rugendas podemos ver brancos
>>tocando violão enquanto os negros dançam uma espécie de "fandango".
>>E alguns historiadores dizem que esta dança representada é o lundu.
>>Após isto nos vem a famosa m
>>  odinha e suas polêmicas. Seria ela brasileira ou portuguesa?
>>Erudita ou popular? Para citar as duas mais famosas. O fato é que
>>parece que a modinha foi o primeiro genêro urbano,
>>independentemente de ser erudito ou popular, luso ou brasileiro. No
>>início do século XIX, com a vinda da corte portuguesa para o Brasil
>>dois, fatores impulsionaram e difundiram as modinhas e lunduns,
>>gêneros, que vindos do século XVIII, aparecem incontestes na
>>primeira metade do século XIX. Estes dois fatores foram: o piano
>>trazido na bagagem real e o surgimento entre nós das primeiras
>>editoras de partituras. Vale ressaltar, ao lado destes dois
>>fatores, o teatro de revista, nas três últimas décadas do século
>>XIX, como um terceiro fator para a entronização de nossa Música
>>Popular. Mário de Andrade chega mesmo a dizer que o caso do piano é
>>dos mais curiosos, pois a introdução deste instrumento com sua
>>capacidade completa de solar e acompanhar seria mesmo lógica e
>>necessária, pois sua função primordial
>>  foi profanar nossa música e produzir nossos primeiros virtuoses,
>>criando, com isto, uma pianolatria nascida de interesses
>>financeiros. Evidentemente os arroubos pueris de nosso bardo da
>>paulicéia desvairada devem ser lidos dentro de um contexto cultural
>>onde a busca de uma suposta nacionalidade estava calcada em
>>pressupostos que hoje já não encontram eco. Por volta de 1844 nos
>>chegam as danças européias - polca, valsa, schottisch, mazurca e a
>>habanera. Aqui começa de fato a gestação do choro, do maxixe e do
>>tango brasileiro. O Choro, em seus primórdios, não era um gênero.
>>Era antes uma forma brejeira de interpretar aludidos ritmos que
>>aqui chegaram. Os músicos populares do Rio de Janeiro por volta de
>>1870 imprimiam um caráter bastante peculiar aos ritmos europeus,
>>sobretudo a polca, que aportaram nas plagas tupiniquins desde 1844,
>>introduzindo elementos mais dolentes, que mais tarde seriam
>>catalogados como síncopes. Tal interpretação estava assentada na
>>flauta, nos cavaquinh
>>  os e nos violões. Tinhorão (1997) em seu livro Música Popular: Um
>>Tema em Debate nos fornece detalhes preciosos de como se deu a
>>origem e o desenvolvimento deste que seria um gênero fundamental
>>dentro da Música Popular Brasileira. O autor afirma
>>peremptoriamente que “originalmente o choro não constituía um
>>gênero caracterizado de música popular, mas uma maneira de tocar,
>>estendendo-se o nome às festas em que se reuniam os pequenos
>>conjuntos de flauta, violão e cavaquinho” (p. 111).
>> A história do choro se confunde com as camadas populares. Segundo
>>o estudioso Tinhorão os chorões saíram da baixa classe média.
>>Citando o livro de Alexandre Gonçalves Pinto, chorão e boêmio, O
>>Choro: reminiscência dos chorões antigos, Tinhorão cita a
>>existência de mais de 280 biografias e notícias sobre velhos
>>chorões. Define, ainda, já que não eram profissionais da música, as
>>respectivas profissões de 128 deles. Salienta o autor que a grande
>>maioria, 122, eram funcionários públicos dos mais variados órgãos.
>>Sendo os Correios e Telégrafos o maior fornecedor com 44
>>representantes, vindo logo em seguida as bandas das corporações
>>militares, tendo cedido inclusive o célebre Anacleto de Medeiros.
>>Um aspecto interessante de se sublinhar é a gama variada de
>>convites para que os chorões animassem festas, onde os mesmos se
>>fartavam à mesa. Em uma época em que a música era veiculada apenas
>>ao vivo, já que não havia gravações nem rádio e muito menos
>>televisão, este grupos se tornavam i
>>  ndispensáveis para um bom “rega bofe”.
>>A principal característica do choro em sua gênese, era o improviso.
>>O conjunto de choro, como dito anteriormente, era formado pela
>>flauta, que cuidava do solo, pelo cavaquinho, responsável pela
>>harmonia, e pelo violão que fazia a “baixaria” em um contraponto
>>sistematicamente modulatório. Sendo assim, depois de exposto o
>>tema, cada instrumentista saia improvisando, em verdadeiros duelos
>>testando a musicalidade dos componentes. Neste período o maior nome
>>do choro foi sem dúvida Joaquim Antônio Calado, cuja virtuosidade
>>na flauta rompeu fronteiras e ajudou a semear o que viria a ser o
>>gênero Choro. Desta fase de fixação participou também a maestrina
>>Chiquinha Gonzaga tendo, inclusive, composto um tango
>>característico nomeado Só no Choro. A partir de 1880 o choro se
>>torna cada vez mais popular e se espalha de maneira frenética e
>>consistente. Além de começar, a partir desta data, a se delinear
>>enquanto gênero malicioso e formalmente começar a tomar o aspecto
>>definitivo do rondó. S
>>  e em seu princípio a forma do “choro” era basicamente a da canção
>>(A-B-A), como por exemplo Flor Amorosa de Callado, em seu
>>desenvolvimento vai se tornando um pouco mais complexo com a adoção
>>do trio com um Da Capo, para em seguida adotar a terceira seção com
>>uma coda ao fim, já se assemelhando ao nosso A-B-A-C-A, cuja forma
>>é hoje a mais conhecida e utilizada, tendo esta forma Rondó se
>>bronzeado com a malemolência da ginga brasileira  caracterizando o
>>choro formalmente.
>>No aspecto harmônico vale ressaltar a imensa facilidade que o choro
>>vai modulando em uma infindável passagem para tons homônimos,
>>vizinhos, afastados, pelos círculo das quintas para sempre voltar,
>>de maneira orgânica, ao tom de origem. No tocante ao ritmo é
>>impecável a riqueza gerada pela variação de figuras a princípio
>>simples. Há um uso sistemático de todas as síncopes, seja a
>>característica, a entre tempos, a entre compassos, a anacrústica,
>>enfim, uma caudalosa sucessão de síncopes que geram um efeito de
>>“rubato” quase que impossível de se grafar na tradicional notação
>>ocidental, sendo, portanto, salutar tentar apreender a noção
>>rítmica oralmente, já que ainda temos uma rica tradição oral das
>>raízes do choro. Bem fico por aqui, senão isto acaba se tornando um
>>artigo. Muito há para ser dito. Espero que este breve histórico,
>>que findo no choro para não alongar muito, sirva para que esta
>>tribuna seja realmente um palco para discussões e não mero
>>divulgador de shows, lançament
>>  os etc. Abraços para todos. Wellington Diniz.
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