A música é algo fantástico, mas ao mesmo tempo, é uma das coisas mais
banalizadas pela humanidade. Todo mundo fala de música, todo mundo critica,
todo mundo sabe tudo, protegendo seus gostos pessoais e descendo o pau naqueles
de quem não gostam.
Tenho visto na agenda muita gente criticar o cantor Marcelo Pires Vieira, o
Belo, dizendo ser ele um pagodeiro, e outras coisas mais. Deixando de lado a
vida pessoal do cantor, qualquer um que entenda um mínimo da arte de cantar e
interpretar, reconhece nele qualidades que poucos cantores e intérpretes têm.
Quanto à discriminação, estou me lembrando de uma entrevista feita pelo Aldir
Blanc com o Zéca Pagodinho, onde o Zéca narra que os antigos sambistas do
Cacique de Ramos, não aceitavam os modernismos dele, Zéca, da rapaziada do
Fundo de Quintal, do Luiz Carlos da Vila, e de outros, hoje respeitadíssimos
bambas. Nelson Sargento, Tantinho da Mangueira, e outros dessa safra
maravilhosa, passaram pelo crivo do Angenor de Oliveira, o Cartola, que era
considerado um terrível julgador.Se o julgamento é por gosto pessoal ou humano,
que cada um, do alto dos seus conhecimentos e da sua imunidade diante da vida,
faça o seu. Mas chamar o Belo de pagodeiro, pejorativamente, é desmerecer o
próprio samba.
Lá pelos idos de 1916 e até antes, Francisco Guimarães, o Vagalume, dominava a
crônica carnavalesca. Publicou "Na roda do samba" (Rio de Janeiro: Tipografia
São Benedito) em 1933, no qual contou a história do samba, de seus criadores e
intérpretes mais importantes. O livro foi reeditado várias vezes pela Funarte.
O que alguns chamam hoje pejorativamente de pagodeiros, ele chamava de
sambestros. Dentre os sambestros que ele não gostava estava Francisco Alves,
uma das nossas maiores expressões musicais em todos os tempos. O vagalume dizia
em alto e bom som que Ary Barroso e Lamartine Babo, tinham algum valor, mas não
eram sambistas. Quanto ao Lamartine, agente pode dizer que ele viveu mais as
marchas e os hinos dos times de futebol. Mas o Ary Barroso compôs o samba
brasileiro mais conhecido em todo o mundo: Aquarela do Brasil, composto para o
carnaval de 1939.
Jorge Aragão, Beth Carvalho, Alcione, Zéca Padodinho, Leci Brandão, e outros
dessa linhagem cantam e dançam com os que estão chegando agora, sem o menor
constrangimento. Pena que os que se consideram doutores no samba, às vezes,
por pura discriminação, ignorem qualidades que essas feras citadas tanto
respeitam.
Mestre Affonso BH-MG.
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta