Escrevo sobre um maravilhoso CD que eu ganhei - uma das melhores coisas que 
apareceu em musica brasileira nos ultimos tempos, super vale a pena ouvir. Tem 
choro, tem samba, mas tem uma combinação de estilos bem mais abrangente tambem. 
Em tempo: não conheço ninguem do CD pessoalmente e não tenho qualquer interesse 
direto.

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Álbum do maestro e compositor brasileiro radicado nos EUA funde popular e 
erudito, com a participação de Joyce, em lançamento Biscoito Fino  

A mistura de clássico com o popular ocorre como uma etapa natural na biografia 
de Flávio Chamis. Até os 19 anos, sua vida musical era tocar ao violão músicas 
que ouvia no dia-a-dia. Insatisfeito com o curso de Engenharia, resolveu 
estudar música seriamente, dando ouvidos a um talento natural até então 
relegado a um segundo plano. O acaso foi o ponto de partida de uma carreira que 
começou em São Paulo, passou pela Academia Rubin, em Israel, e foi parar na 
Escola Superior de Música de Detmold, na Alemanha, onde Chamis formou-se em 
Regência Orquestral. A partir daí, decidido a descobrir as nuances do trabalho 
de uma grande orquestra, resolveu ir até aquela que considerava a melhor do 
mundo. Não só conheceu a Filarmônica de Viena, como se tornou assistente do 
maestro Leonardo Bernstein. 

Com uma carreira consolidada e reconhecida no meio erudito, Chamis resolveu 
unir o virtuosismo do músico clássico com a informalidade da música popular 
brasileira. Assim, em 2003, gravou Especiaria, que carrega em si algumas das 
mais flagrantes referências do maestro: “Apesar de ter regido inúmeras 
orquestras, tanto no Brasil quanto no exterior, eu sempre tive intensa 
admiração e até mesmo uma certa inveja dos músicos populares e de jazz, sempre 
capazes de se expressar de modo tão instintivo e espontâneo.

Especiaria é uma compilação das composições mais representativas de Chamis na 
seara popular. Ou melhor, popular na temática, mas clássica na forma e 
complexidade melódica. O produtor americano Jay Ashby, ganhador de dois 
Grammys, foi escolhido para produzir o disco. O currículo de Ashby é respaldado 
por trabalhos com artistas de renome internacional, tais como Nancy Wilson, 
Paquito D’Rivera, The New York Voices, Slide Hampton, Ivan Lins e Astrud 
Gilberto, entre muitos outros. Por se tratar de um disco no qual uma faixa 
vocal é intercalada com uma faixa instrumental, faltava ainda alguém para 
interpretar as canções, de preferência uma grande voz feminina. A escolha 
recaiu em Joyce, que, em grande forma, está presente nas seis faixas vocais do 
álbum. 
 
Gravado e mixado nos ultra modernos estúdios do Manchester Craftmen´s Guild, em 
Pittsburgh, a parte vocal começa com o prelúdio Estrela, com participação do 
violinista cubano Andrés Cárdenes, em uma espécie de introdução que carrega em 
si todo o caráter autoral do álbum: “Erro sem medo, por saber que erro em minha 
busca em ser apenas o que sou”. Especiaria, a faixa título, é uma brincadeira 
com Pedro Álvares Cabral, (note-se a bateria personalíssima de Tutty Moreno) 
exceção num repertório de letras notadamente densas; O Intrínseco da Vida, 
canção de viés filosófico e confessional, transita no limite do clássico com o 
popular (um lied moderno, incluindo um emocionante acompanhamento de piano por 
Alon Yavnai); Two Note Samba, inspirada em Samba de uma Nota Só, com alusões à 
obra de Tom Jobim; Modinha Fora do Tempo, em compasso assimétrico de 5/4 (e por 
isso “fora do tempo”) e Deuses do Céu (com delicado solo de violão por Marty 
Ashby) são as outras faixas cantadas. 

Entre as composições instrumentais estão Samba Pra Quem Sabe, de estrutura 
harmônica sofisticada, com  destaque para o clarinete de Anat Cohen, E Daí?, 
canção na qual algumas regras de composição são ignoradas, funcionando como 
metalinguagem ao ironizar a própria “imperfeição” da forma. Soroco´s Song e 
Tristan´s Blues (com solo de gaita por Hendrik Meurkens), são outras duas 
composições referenciais, inspiradas respectivamente no conto “Sorôco, Sua Mãe, 
Sua Filha”, de Guimarães Rosa, e no Acorde de Tristão (primeiro acorde da ópera 
Tristão e Isolda, de Wagner). Qual o Que, samba bossa-pop de harmonias ágeis e, 
segundo o próprio Chamis, “reflexo da vida de um brasileiro na América”, 
ratifica o tom confessional de Especiaria. Fechando o álbum, novamente o 
prelúdio Estrela, agora poslúdio em versão instrumental, trazendo um solo de 
alta sensibilidade pelo trompete de Cláudio Roditi. 

Especiaria é um disco que versa com as possibilidades: A possibilidade de um 
músico clássico como Chamis lançar um novo olhar sobre o popular, resultando 
numa leitura híbrida que, ao mesmo tempo, preserva os meandros e 
particularidades de ambos os universos. Ou ainda, a possibilidade de se retomar 
as origens, de acenar para uma trajetória que começou a partir do contato 
informal com o violão. Agora, porém, Chamis utiliza sua experiência como 
maestro e “rege” praticamente todo o processo de criação do CD. Deste modo, ele 
não apenas compôs todas as músicas, escreveu as letras e fez os arranjos, mas 
também encontramos sua mão segura na edição, mixagem, e até mesmo na concepção 
da capa, na qual especiarias brasileiras aparecem como que jogadas num mapa da 
época do descobrimento. A capa remete ao início do processo, revelando o mapa 
no qual Chamis foi em busca de suas “especiarias musicais”.

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