REVISTA MUSICA BRASILEIRA
Especial
Samba: a perpétua renovação
Daniel Brazil
O samba não se renova. Quantas vezes não ouvimos esta frase, proferida em
botecos e salas acadêmicas, geralmente por supostos arautos da modernidade?
Os argumentos podem ser frouxos ou fundamentados, variando conforme a
circunstância e o interlocutor. Mas uma avaliação correta desta afirmação só
pode ser feita após refletirmos sobre a permanência dos gêneros musicais
predominantes no século XX nos dias de hoje. E isso não se refere só ao
Brasil, certamente.
Desde os anos 1950, com o crescimento exponencial dos meios de comunicação,
principalmente a televisão, a permeabilidade entre culturas distintas foi
fortemente ampliada. O impacto destas transformações, no campo musical, se
deu em escala mundial. O rock influenciou o reggae, o blues se misturou com
o folk inglês, a canção de protesto se tornou poliglota, e o jazz se cruzou
com o samba, gerando a bossa nova. Foi a primeira grande renovação
estrutural do samba, desde que este se afastou do maxixe, passou pelas
escolas e orquestras, se dividiu em sub-gêneros, como samba-enredo,
samba-canção, samba-de-roda, pagode, etc.
Surge aí a primeira dificuldade. Qual samba não se modernizou? O samba não é
um só. Dizer que o samba-canção não evoluiu é uma coisa (discutível, se
levarmos em conta a amplitude temática, o alargamento do horizonte poético,
a incorporação timbrística de novos instrumentos). Afirmar que o
samba-enredo não se modernizou é coisa bem diferente. Evoluiu tecnica e
formalmente (sem entrar em juízos de valor). Ninguém confunde um
samba-enredo atual com um dos anos 60.
É certo que algumas correntes mantêm fidelidade às origens, enquanto outras
desapareceram. Existem sambas de diferente sotaque em regiões diferentes do
país. As primeiras gravações dos caipiras paulistas, como Raul Torres, João
Pacífico, Capitão Furtado, Alvarenga e Ranchinho, revelaram um tipo de samba
sacudido e bem humorado, puxado pela viola. Esta ramificação do samba parece
extinta, mas os sambas nordestinos da mesma época, puxados pelas emboladas
de Manezinho Araújo, vingaram na voz de Jackson do Pandeiro na forma de
rojão, e influenciam até hoje muita gente boa, sendo reinventado nos anos 70
pelos Novos Baianos, nos 80 pelo pessoal do Mangue Beat e no século XXI
pelos grupos nordestinos contemporâneos, que produzem um samba estilizado
com forte acento percussivo e eletrificado.
Claro que Jorge Ben, antes de virar Benjor, já havia indicado este caminho,
lá nos anos 60. Um samba "esquema novo", que flertava com o soul e o funk, e
que abriu uma trilha própria na música brasileira, com vários seguidores.
Num estilo que se convencionou chamar de sambalanço, e posteriormente,
samba-rock, uma série de artistas arriscou um gingado. Grupos vocais como os
Incríveis, Mutantes e Fevers, intérpretes como Simonal, Luiz Vagner, Bebeto
e Tim Maia, arranjadores como Erlon Chaves, José Briamonte e Amilton Godoy
(Zimbo Trio). No exterior, com diferentes pegadas, Baden Powell, Moacyr
Santos e Sérgio Mendes lapidaram ainda mais a cara do samba, revelando novos
brilhos.
Os grandes festivais de música dos anos 60 e 70 foram férteis em
experimentações vinculadas ao samba. A influência da imagem televisiva sobre
o gênero foi marcante, determinando o caráter cênico de algumas
apresentações. Só Quero Mocotó, de Erlon Chaves, ou a performance de Maria
Alcina (Fio Maravilha) foram marcos na história musical do Maracanãzinho. A
televisão colorida, a partir dos anos 70, vai influir de forma contundente
os desfiles de escolas de samba, causando alterações essenciais na estrutura
dos sambas-enredo.
Longe das quadras, autores do porte de um Paulinho da Viola também cruzaram
limites. Cantar um samba acompanhado de caixa de fósforos e cravo em 1971
(Para Ver as Meninas) pode ser visto como um ato de ousadia frente à
tradição. Em outras obras do período Paulinho utiliza tensões harmônicas
incomuns, distendendo os nervos da tradição. Tom Zé, muito antes de bulir
nas ancas da velha senhora, já fazia da parceria com Elton Medeiros - pilar
do samba tradicional - um trampolim para criativas evoluções no disco
Estudando o Samba, de 1975. Nesta década, as rádios mandavam ver os sucessos
de Marcos Valle e Ivan Lins, calcados na batida primordial do samba, mas
buscando nos teclados uma sonoridade mais pop. E mesmo um cultor do samba
clássico, como Chico Buarque, contribuiu pontualmente com pinceladas que
elevaram o patamar de qualidade para os aspirantes ao título de sambista.
É também nos anos 70 que surge uma grande dupla de renovadores: João Bosco e
Aldir Blanc. O violão do mineiro Bosco explorava com maestria todas as
modalidades conhecidas de samba, apoiados nas ardilosas crônicas em verso do
carioca Aldir. Posteriormente, Bosco se aprofunda na matriz afro-rítmica,
criando complexas texturas onde a voz também soa como instrumento
percussivo. Pouco depois, com influência bem mais restrita, os paulistas do
grupo Rumo investigaram as possibilidades do samba, principalmente através
de Luiz Tatit. Na dita vanguarda paulistana, o eclético Itamar Assumpção se
destacou como fino criador de neo-sambas, ainda não totalmente assimilados.
O alagoano Djavan também surgiu nos festivais. Sua reinvenção do samba é
notável, nos primeiros discos, tendo conquistado inúmeros seguidores (e
diluidores). Quase-sambistas, como Luiz Melodia, fizeram a ponte entre o
morro do Estácio e os tropicalistas, que revisitavam o samba de forma
periódica, introduzindo pequenas alterações na sintaxe. Principalmente
Gilberto Gil, que grava em 1978 uma curiosa Antologia do Samba Choro,
dividindo faixas com o paulista Germano Mathias. Da Bahia também, refinado
cultor e reinventor da chula e do samba do Recôncavo, Roberto Mendes é um
grande criador, violonista exímio e inventivo. Em alguns momentos evidencia
a ligação musical Cuba-Brasil, que até um defensor do samba tradicional como
Nei Lopes reconhece e alardeia, abrindo a porta para as sonoridades
caribenhas.
As mulheres exercem papel fundamental na definição de novas formas de samba.
Joyce, que começou na praia da bossa nova, delineia um jeito feminino de
fazer samba, e marcou posição como compositora. Grandes intérpretes, como
Elza Soares e Elis Regina, expandiram os limites expressivos e criaram um
jeito moderno de cantar, diferente das rodas de samba. Outras cantoras, como
Leny Andrade, tiveram referências jazzísticas, e se tornaram o lado vocal da
turma braba que incendiava as boates cariocas nos anos 60: Tamba Trio, Luiz
Carlos Vinhas, Edson Machado, Meirelles e Copa 5, Dom Um Romão, João Donato,
Eumir Deodato e mais um punhado de craques. Estes instrumentistas
representam, para o samba, o que o bebop representa para o jazz tradicional:
invenção acelerada e enérgica, distanciando-se do formato canção.
E toda essa invenção permanece viva, nas novas gerações? Não do mesmo jeito,
é claro, mas o leque continua aberto. As correntes tradicionais do samba,
depois de um certo refluxo, se acomodaram aos novos nichos da indústria
fonográfica, e mantêm produção constante. A grande novidade dos anos 80 foi
o estabelecimento do pagode como fórmula comercial bem sucedida, calcado em
nomes como Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Sombrinha e Arlindo
Cruz, egressos do grupo Fundo de Quintal. Não se trata propriamente de
invenção, mas nova encadernação de uma modalidade de samba.
A invenção está, como na década de 60, nas mãos de gente que absorve outras
linguagens musicais, promovendo misturas e decantações de diferentes
matrizes. A aproximação com rap e do hip hop evidencia o trabalho do carioca
Marcelo D2 e o paulista Rappin' Hood. Os pernambucanos continuam
provocativos, seja na continuação no discurso alucinado de homem-caranguejo,
com o Mundo Livre S/A, seja na dicção macia de um Junio Barreto. Filhos de
sambistas famosos, Jairzinho Oliveira, Max de Castro e Simoninha arriscam
misturas com a tecno-modernidade, nem sempre bem digeridos. Enquanto em São
Paulo a herança de Benjor é trabalhada por Paulo Padilha, Mattoli e o Clube
do Balanço, no Rio grupos como Pedro Luis e a Parede se esforçam pra
bagunçar as fronteiras do ritmo. E surgem novas (porta)vozes femininas, com
um pé no samba, como a quase-carioca Roberta Sá e a maranhense Rita Ribeiro,
e outro no mundo, como Fernanda Porto e seu tecno-samba, e Bebel Gilberto,
com sua bossa-lounge, todas atentas às sutilezas do estilo.
Enfim, experimentações em torno do samba continuam rolando. Quem afirma que
"o samba não se renova" apenas repete um chavão desatualizado. Para o bem e
para o mal, as mutações (naturais ou transgênicas) continuam em movimento.
Muito do que se convencionou chamar de MPB é, na verdade, variação,
adaptação e tradução do caudaloso samba. Um roqueiro empedernido pode fazer
coro com um sambista da velha guarda e dizer que tudo isso é firula e não
leva a nada. É natural. Em qualquer época da história da música, as
inovações foram vistas primeiro com desconfiança. E, convenhamos, um velho
roqueiro e um velho sambista são muito parecidos em uma coisa: no
conservadorismo estético.
Tem gente boa que continua gostando do samba "tradicional", cantados nas
rodas, quadras e botecos. Assim com outros preferem o Traditional Jazz de
Nova Orleans, as óperas de Verdi, Rossini e Donizetti ou o rock dos anos 70.
O bom de vivermos no século XXI é podermos espalhar nossas preferências não
apenas geograficamente, mas também no tempo. Só não podemos negar a
evidência de que todos estes gêneros estão em perpétua renovação
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