Ainda sobre o discurso acadêmico do brega:

Antes de mais nada, sugiro que tenhamos mais coragem de utilizar a tão temida 
palavra "BREGA".

Odair José, que é maravilhoso DENTRO DE SEU ESTILO e me faz ouvir com atenção, 
continua porém sendo brega, dentro do um conceito liberal de brega, que não tem 
nada de preconceituoso se entendido em sua essência:

letras com rimas pobres e conteúdo sentimantalóide, pobreza de arranjos, 
sentimentalismo infantil, apelo populista, etc etc etc...

se essa visão é fruto de uma elite dominante, ok, concordo plenamente, mas isso 
é uma análise antropológica, não musical. Caso contrário, tudo é válido e 
poderemos nivelar os melhores trabalhos de Chico Buarque aos melhores de 
Chitãozinho & Xororó, pois afinal qualquer disposição em contrário seria puro 
preconceito da elite que ouve Chico contra os coitadinhos que se divertem ao 
som dos sertanejos. 

Claro que brega é um rótulo pré-definido, assim como "samba de raiz" também é, 
embora até hoje ninguém tenha explicado como algo pode ser "de raiz" de é, por 
definição, uma mistura. Mas também é inegável que esse rótulo cai como uma luva 
para alguns artistas e ouvintes... Me considero uma pessoa bastante aberta a 
relativizações e talvez tenha pouquíssimos preconceitos, o que não me impede de 
avaliar friamente uma música e encontrar sintomas de breguice.

Dentro desse conceito, vale lembrar que o gênio Tim Maia também enveredou pelo 
brega com fins comerciais nos anos 80, e como ele tantos outros. Essa mesma 
visão não impede que conceitos OBJETIVOS definam Agepê e Benito de Paula como 
bregas, assim como Roberto Carlos. O excesso de relativização é ótimo do 
ponto-de-vista humanitário, mas musicalmente falando acaba gerando certa 
condescendência que eterniza a tolerância com a má qualidade. Na verdade são 
muitos os critérios, menos os de gosto e emoção. Ou tem alguém nesa tribuna tem 
dúvida de que a "Ave Maria" instrumental do Jorge Aragão, tecnicamente bem 
executada, não é um pérola da cafonice? Ou alguém aqui teria coragem e 
argumentos suficientes para sustentar que NELSON NED tem algum valor musical ? 

Odair José e Peninha, por exemplo, que ascenderam da terceira para a segunda 
divisão da MPB, só o conseguiram quando valorizados por artistas da primeira 
divisão como Caetano Veloso, cuja mente aberta deveria ser uma eterna fonte de 
inspiração para a MAIORIA dos tribuneiros. E tem aqueles bregas que nem só têm 
valor enquanto curiosidade antropológica, como Agnaldo Rayol, de boa voz para 
os padrões antigos, mas insuportavelmente cafona... Por outro lado, reconheço 
que alguns cafoníssimos conseguiram deixar sua marca e importância, como o 
operístico Vicente Celestino, que preenche quase todos os requisitos para 
classificação como música brega.

E há que se lembrar, ainda, a importância das capas. Em 99% das capas, a 
breguice já serve de alerta. Beth Carvalho é um exemplo. Aprecio seu trabalho, 
tenho alguns discos do começo (embora fuja como diabo da cruz do gênero 
fundo-de-quintal), mas seus piores discos têm capas que fazem jus à má 
qualidade do conteúdo.


MARCELLO CAMPOS
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