Eduardo, permita-me discordar de você em um ponto. Esse papo de que o povo 
escolhe o que está na grande mídia é muito controverso. Pra mim é culpar a 
chuva pela enchente.
O que existe é falta de acesso a cultura nesse país e de uma forma extremamente 
grave. As grandes gravadoras têm o monopólio da grande mídia e impõe seus 
enlatados com maestria. Se aproveitam de qualquer movimento musical emergente e 
bombardeiam isso na mídia de forma repetitiva e às vezes hipnótica. O povo 
consome não porque é bonito, porque é bom, mas porque está na mídia.
Infelizmente, muitos movimentos legítimos são descaracterizados por esse 
processo. Veja o caso do próprio arrocha, citado aqui na lista. É um movimento 
musical que surgiu no interior da Bahia (até onde eu saiba), uma espécie de 
forró com outras influências. Tive oportunidade de conhecer o arrocha antes de 
estourar na mídia. No começo, o arrocha era um cantor e um teclado. Só isso. 
Logo a coisa explodiu e tome banda de 20 músicos, 35 dançarinas, 80 músicas 
iguais, tocando 24h por dia nas rádios populares... será que o povo escolhe o 
que toca no rádio, no Gugu ou no Faustão?
Coloco Odair José, Fernando Mendes nesse grupo, o dos movimentos musicais 
autênticos. É o que se tornou o Reginaldo Rossi nos tempo de hoje. É o que é, 
independente de influência de mídia e o povo consome porque gosta. Mas 90% do 
que é consumido musicalmente nesse país não se encaixa nesse padrão.
Será que a mocinha corta o cabelo igual a atriz da novela porque é bonito?? Ou 
será que é porque está em todas as revistas, novelas, vídeo-shows... ou seja, 
porque está na moda? O povo é consumidor acima de tudo, e o que se faz é 
manipular os gostos. Gostos são sempre manipulados, o meu, o seu, o do povo.
Como você pode querer que o povo veja Guinga no domingo à tarde se o povo nunca 
teve oportunidade? Se tocasse Guinga 18 vezes por dia em cada emissora de 
rádio, te garanto que ia dar a mesma audiência do Calipso no Faustão.
No filme do Paulinho da Viola tem uma cena muito interessante, quando ele fala 
sobre o Carinhoso. A cena é impressionante, o pessoal na rua cantando 
Pixinguinha e João de Barro. Todo mundo sabe a letra. Porque não toca no rádio 
então? Porque o povo não quer que toque, será?
Não estou aqui fazendo juízo de valor a nenhum estilo ou movimento musical, 
antes que alguém venha me dar lição de moral, estou apenas destacando a 
alienação em massa que norteia a programação de nossos meios de comunicação.


Aquele abraço,
Gabriel Gomes




-----Mensagem original-----
De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de Eduardo S. Martins
Enviada em: segunda-feira, 4 de junho de 2007 20:13
Para: jlvivas
Cc: tribuna
Assunto: Re: [S-C] Sobre o Brega (ainda)

O livro do Paulo Cesar Araújo não é nenhum bagulho, é um livro fundamental na 
história da música brasileira. E você se equivoca, primeiro porque não se trata 
"lixo", segundo porque não é produzido pela "elite", mas artistas saídos das 
camadas populares mesmo, Odair José e Fernando Mendes nunca foram da elite. 
Você continua cometendo o equívoco de achar que detém o monopólio do bom gosto, 
é a velha mania esquerdista da vanguarda, que acha que tem que dizer e apontar 
o que o povo deve ou não deve consumir. Não é o Faustão que determina o que o 
povo quer ver, é o povo que determina o que vai passar no Faustão, pois se o 
Chico Buarque tivesse ido lá lançar seu último disco, a audiência tinha caído 
10 pontos e só voltado a subir depois que a Banda Calipso surgisse. E já que 
você gosta de teorias, a esse respeito leia o livro "Quem manipula quem? - 
Poder e massas na indústria da cultura e da comunicação no Brasil", de Ciro 
Marcondes e Juvenal Rodrigues filho. E a Banda Calipso não é lixo, é apenas uma 
banda paraense que caiu no gosto popular, é um direito do povo curtir isso, 
taxar isso de lixo é preconceito e elitismo. O povo não quer ver o Guinga no 
Gugu, quer ver é o Calcinha Preta mesmo. Mas é aquela velha história, o povo 
não sabe votar, não saber ouvir, etc...Não é só o "Bumba Meu Boi" que é a 
"genuína arte popular".
abs.
Eduardo Martins

JLV escreveu:

> Obrigado pela dica. No entanto eu me referia ao trabalho de Carmen 
> Lucía, o que o Paulo Cesar escreve é bagulho. Agora as elites querem que 
> a gente aplauda o lixo que eles produzem pra embrutecer a população, 
> querem que a gente ache que isso é arte, "arte do povo", como se o povo 
> fosse o criador desse lixo e não consumidor passivo e idiotizado. A 
> elite adora ver o povo consumir esse tipo de detrito, por isso é 
> popularizado pela Globo, Sarney, ACM, os políticos da direita em 
> genral,  e os donos da mídia.  Quando os pobres fazem - e não somente 
> consomem - cultura popular auténtica eles são normalmente perseguidos, 
> não apoiados.


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