Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1765022-EI6621,00.html

Noel Rosa no cinema

Quarta, 18 de julho de 2007, 08h04

Por:  Paquito


No último sábado, assisti em Salvador à primeira exibição na Bahia do longa Noel Rosa, Poeta da Vila, que tenta aproximar o mito de nós, que não tivemos o privilégio de ter vivido no seu tempo, que era também o tempo de Carmem Miranda, Ismael Silva, Mario Reis e tantos outros que tornaram justo e preciso chamar àquele período de "os anos dourados da música popular brasileira". Por isso Noel é grande, e um dos maiores entre seus pares, contemporâneos ou não.

Nosso primeiro compositor popular chamado de poeta, sua obra confirma o que diz o também poeta Augusto de Campos sobre ser a música popular quase sempre "poesia musicada". E nesse sentido, Noel antecipa Caetano e Chico Buarque, poetas-músicos, este último, não à toa, mas erroneamente chamado de "novo Noel" no início da carreira.

Ainda mais, Noel Rosa, junto a Assis Valente, Lamartine Babo e Braguinha, forjaram a canção brasileira à maneira dos ideais modernistas de 22, de forma mais orgânica, e trilhando um caminho independente de cânones literários. "Tudo aquilo que o malandro pronuncia/ com voz macia, é brasileiro/ já passou de português", trecho de Não tem tradução, bastou para que Orestes Barbosa, seu contemporâneo, o considerasse o "maior poeta popular do Brasil".

Noel também se diferenciou de seu antecessor Sinhô, ao fazer samba à maneira do Estácio (bairro de onde era seu parceiro mais constante, Ismael Silva), que desde então veio a ser entendido como símbolo maior da nossa identidade. E, finalmente, sozinho ou com parceiros, em apenas 26 anos de vida, compôs quase 300 canções, muitas antológicas, a exemplo de Último desejo, O orvalho vem caindo, Com que roupa? , Quem dá mais, Feitio de oração, As pastorinhas, Pierrô apaixonado e Cem mil réis, só pra citar algumas.

Por isso, fazer um filme sobre Noel é um ato corajoso e, de alguma maneira, pretende dar conta da grandeza do cinebiografado. E, no caso deste filme, a responsabilidade aumenta, pois o mesmo se baseia no livro Noel Rosa, uma biografia, de João Máximo e Carlos Didier, obra grande em extensão, e tão apaixonada (pro bem e pro mal), quanto detalhada na apuração dos fatos.

Nesse sentido, Noel Rosa, Poeta da Vila, é irregular, pois os personagens são muitos, e muitos historicamente importantes. Da maneira que são colocados no filme, não se tem a medida da sua importância e da importância destes pra trajetória de Noel, além da influência do próprio Noel sobre suas vidas. Francisco Alves, o Roberto Carlos daquele período, por exemplo, parece apenas um sujeito pernóstico que tira proveito do talento de Noel e Ismael. As cenas que tratam da polêmica com Wilson Batista soam sem naturalidade, como, aliás, as conversas de mesa de bar que acontecem no filme, um tanto empoladas pra instantes, a princípio, prosaicos; ou seja, exatamente o oposto desse tipo de situação ligeira e coloquial, muito bem descrita, aliás, pelo próprio Noel em Conversa de botequim, parceria com Vadico.

O filme, porém, tem no ator que faz o protagonista, Rafael Raposo, o seu melhor. Além de parecer fisicamente com o Poeta da Vila, Rafael não exagera nos gestos e nada fica a dever à imagem que se construiu a respeito de compositor, charmoso e carismático apesar da tão propalada feiúra. Camila Pitanga faz uma Ceci, musa de Último desejo, bastante crível, assim como Lidiane Borges, que faz a esposa, Lindaura, a anti-musa de Noel. Tem destaque a participação de Wilson das Neves, ótimo como Papagaio, e melhor cantor em atuação na película. Enquanto entram os créditos, uma grata surpresa: a gravação de Mais um samba popular, canção pouco conhecida de Noel, na voz de Arto Lindsay, numa interpretação doce e andrógina.

Noel Rosa, poeta da Vila, enfim, funciona bem como uma ilustração pra quem leu o livro em que o filme se baseia, pois a reconstituição histórica - cenário e figurinos - é caprichosa. E dá vontade de ouvir as gravações originais e primorosas de suas canções na própria voz e de seus intérpretes Mário Reis, Chico Alves, Orlando Silva, Aracy de Almeida, Almirante e Marília Batista, entre outros, todas lançadas em cd na caixa Noel pela primeira vez. Essa, sim, uma viagem, como diria Almirante, no tempo de Noel Rosa.


Paquito é músico e produtor.

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