Revista Carta Capital, Edição 456


Fonte: http://www.cartacapital.com.br/2007/08/456/de-bar-em-bar


De bar em bar


por João Marcello Erthal


A nova onda de investimentos na Lapa reafirma a vocação que fez do tradicional bairro o símbolo do humor, da cultura, da diversidade e da boemia carioca

Opções E no crepúsculo que a Lapa, tal como se conhece em letra e música, começa a acordar. Saem a oficina e a loja de ferragens típicas de bairro comercial. Entram em cena as luzes coloridas a travestir a rua para receber bambas do samba, gringos de passo atravessado e até os que não querem nada com a música, quase sempre boa, que vaza dos sobrados e se mistura ao zumbido da rua. De uma noite para outra, brota um novo balcão, às vezes sofisticado, às vezes arremedo de bar, só com mesas e geladeira. Todos com público garantido. E todo público com a garantia de que, na Lapa, alguma coisa acontece depois que o sol se põe.

“A Lapa dá certo porque não é de ninguém. Não é da zona sul, não é da zona norte, nem do rico nem do pobre. O pit boy respeita o travesti, as patricinhas não implicam com os doidões. É um centro de convivência como raramente se vê no mundo”, resume Perfeito Fortuna, o agitador cultural à frente da Fundição Progresso e que trouxe para os pés dos Arcos da Lapa, em 1982, o Circo Voador, considerado a pedra fundamental da revitalização que há duas décadas transforma a região.


Dizer que a Lapa não pára de crescer, ou que se reinventa permanentemente, não é força de expressão. A região tem, segundo os comerciantes, perto de 400 bares, restaurantes, sebos, antiquários e casas de shows. Só na rua do Lavradio, ligação com a praça Tiradentes, a contagem da Associação Pólo Novo Rio Antigo registra que, de 2003 para este ano, o total de opções saltou de 13 para 24.

E as inaugurações não param. Fortuna cuidou da abertura do Parada da Lapa, choperia com espaço para pequenos shows, colada ao aqueduto-símbolo do bairro. A casa noturna Rio Scenarium, que chega a receber 2 mil clientes em uma noite, inaugurou uma nova área anexa para cerca de 400 pessoas. No novo espaço, será possível assistir a apresentações líricas e de música de câmara.

Principal articulador da revitalização da Lavradio, hoje um dos pólos de música e gastronomia, o mineiro Plínio Fróes, sócio da Rio Scenarium e da cachaçaria Mangue Seco, prepara a inauguração da terceira casa do grupo, o restaurante Santo Scenarium. “Existem prédios comerciais e condomínios sendo construídos ao redor da Lapa. O movimento vai aumentar muito”, prevê Fróes, que não costuma errar quando o assunto é o centro do Rio.


O investimento das construtoras é um bom termômetro do que pode acontecer por ali. De acordo com a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), desde 2005 foram lançadas na Lapa 866 novas unidades de moradia. No mesmo período, o bairro de Botafogo teve lançamento de 623 residências. O valor do metro quadrado na Lapa, entre 1.971 e 2.465 reais, é próximo ao do Méier (entre 1.824 e 3.002 reais). “O esvaziamento econômico e a deterioração das construções tinham afastado os investidores. Mas as construtoras perceberam que esta é uma região com a infra-estrutura toda pronta e preços acessíveis”, analisa David Cardeman, consultor de desenvolvimento urbano da Ademi.

O início da virada que fez a área decadente ganhar a atenção de investidores se deu em 1984, com a criação do Corredor Cultural, por um decreto do então prefeito Marcello Alencar, que determinou áreas de preservação de imóveis no centro histórico do Rio. Deu tão certo que o preço das construções preservadas, desde então, disparou. “Um sobrado de 200 metros quadrados, na rua do Lavradio, que valia 60 mil reais há seis anos, hoje está avaliado em cerca de 500 mil”, compara Fróes.

Ao lado da expansão imobiliária, a antiga boemia resiste, em perfeita sintonia com os novos tempos. Marcos históricos dessa boemia continuam abertos. É o caso do Arco-Íris, o boteco invariavelmente lotado, no burburinho da rua Mem de Sá, onde a medida da valorização do ponto comercial pode ser vista na calçada. As filas de casas noturnas fundem-se com a aglomeração em frente aos bares, camelôs com isopor e todo tipo de gente que desembarca do engarrafamento à sombra dos arcos. “Venho para a Lapa desde quando só havia isso aqui, umas mesas, cerveja de garrafa e um samba lá na frente”, gaba-se o ator Erick Maximiano Oliveira, 28 anos, acompanhado de duas amigas no Arco-Íris. “Ficou meio arrumadinho depois da obra, mas ainda é o nosso ponto de encontro”, brinca.

Como Oliveira, as atrizes Vanessa Azevedo, de 29, e Mariana Maia, de 27, pertencem à geração que, nos últimos dez anos, vive a Lapa intensamente. Descobriram a arte na Fundição Progresso, de onde partiram para criar a companhia experimental Os Escrachados do Teatro. “A Lapa é basicamente um local de reunião. Todo mundo vem, bebe, dança e se diverte. Não importa se você é do samba, do forró, do rock ou se é só um turista”, acredita Vanessa, que faz no Arco-Íris uma escala obrigatória para qualquer outra programação.


Na noite do Carioca da Gema, a menos de 50 metros de onde estava a turma do teatro, as comissárias de bordo inglesas Poppy e Amy, de havaianas, despejavam energéticos na bebida antes de arriscarem o passo na pista de dança. “Se estou gostando? Não sei ainda. Este samba é bom?”, pergunta Poppy. As inglesas não sabiam, mas estavam, como dezenas de outros estrangeiros, na casa freqüentada por bambas. No palco, o grupo Tempero Carioca tinha como convidado Tantinho da Mangueira, intérprete e compositor da geração da verde-e-rosa que aprendeu e conviveu com Cartola.

Simultaneamente ao show no Carioca da Gema, grupos musicais se apresentavam na casa ao lado, o Sacrilégio. Na quadra de trás, no Clube dos Democráticos, a noite era do forró, e em outras seis, à distância de uma curta caminhada, alguma música ao vivo embalava o público. “Essa multiplicação dos palcos tem produzido variedade e qualidade musical. Vejo gente pesquisando Cyro Monteiro, Jackson do Pandeiro. Todos querem conhecer e trazer algo que o público vai gostar de ouvir e dançar”, conta o músico Henrique Cazes, que produziu uma série de projetos como cavaquinista e arranjador. “A Lapa abriu espaço para o músico que está começando e para o que estava esquecido”, afirma.

As redescobertas de que fala Cazes trouxeram para a ativa artistas como Nadinho da Ilha, parceiro do compositor Geraldo Pereira, autor de sambas imortais como Falsa Baiana e Acertei no Milhar. Pode-se também ouvir Orlandivo, o mestre do sambalanço, e Ataulfo Alves Junior. Nadinho, até há pouco tempo esquecido e longe dos palcos, hoje excursiona pelo País divulgando o CD Meu Amigo Geraldo Pereira, depois de uma bem-sucedida temporada na Lapa em que, além de cantar, relembrava histórias do compositor. Entre elas a da morte do sambista, à saída do restaurante Capela, depois de levar um soco de Madame Satã.


Orlandivo é outro que lançou um CD após retornar aos palcos da Lapa. Sambaflex é um trocadilho com as infinitas fontes que renovam o samba. Na última década, entre velhos e novos músicos, mais de cem discos foram lançados a partir da experiência no bairro. Cazes, que assinou a produção musical da Rio Scenarium nos últimos três anos, prepara um projeto ambicioso: transformar em selo o acervo de gravações históricas que a casa produz.

Entre as preciosidades no acervo da casa noturna está a apresentação do trombonista Zé da Velha e do trompetista Silvério Pontes na noite de 30 de maio de 2002. A música animada é interrompida para um aviso ao público: o falecimento do ator e compositor Mário Lago. “À comoção do público, captada pelos microfones do palco, segue-se uma versão arrastada, lamuriosa, de Amélia. O trombone do Zé da Velha parece chorar, numa espécie de réquiem”, lembra Fróes.

Parte das muitas histórias da região, antigas e atuais, integra o livro Rua do Lavradio, em fase de finalização, organizado pelo arquiteto e atual secretário Municipal de Urbanismo, Augusto Ivan, e pela mulher, a também arquiteta Eliane Canedo. Com textos da escritora Rachel Jardim, da arquiteta Nina Rabha, do próprio Ivan e do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, a publicação é um passeio que começa na fundação da rua, pelo Marquês de Lavradio, em 1771, explora momentos marcantes, como o desmonte do Morro de Santo Antônio, que levou junto o casario do lado ímpar da rua, atravessa o período de decadência e chega aos dias de hoje, com a retomada da vida noturna e cultural. “É a história de um lugar que se reconstrói, um exemplo de reabilitação inigualável”, aposta Augusto Ivan.


Redescobrir e reeditar o passado entranhado nos sobrados revelou-se, além de saudável para a memória da cultura brasileira, um mercado promissor. Um exemplo é o musical Dancing Eldorado, em cartaz no Centro Cultural Carioca, na praça Tiradentes. No sobrado do centro funcionava o Dancing dos anos 50, freqüentado por Pixinguinha, Mário Lago, Elizeth Cardoso e Braguinha. Era também o ponto onde dançarinas de aluguel (nada a ver com prostituição) faturavam alguns trocados e esperavam por um bom casamento. Participam do espetáculo músicos que trabalharam no Eldorado, entre eles a cantora Áurea Martins, “afilhada” de Elizeth Cardoso.

Desvendar o passado da Lapa tem sido parte da vida do historiador Milton Teixeira desde que se fala na revitalização do Rio Antigo. Desfazer antigos equívocos tem, para Teixeira, sabor especial. Entre as muitas lendas urbanas que ele desfez está a cantada em prosa e verso no samba História da Lapa, de Wilson Batista e Jorge de Castro: “Falta uma torre na igreja,/ vou lhe contar meu irmão,/ foi na briga do Floriano,/ foi um tiro de canhão”.

A torre que falta, explica Teixeira, nunca chegou a ser construída. “Havia o projeto de elevar a igreja do Carmo da Lapa a Matriz, o que nunca ocorreu, e, por isso, a construção ficou pela metade”, desvenda o historiador. O tiro de canhão é, porém, verdadeiro. Disparado pelo encouraçado Aquidabã na Revolta da Armada de unidades da Marinha Brasileira contra o presidente Floriano Peixoto, em 1893, o projétil atingiu, na verdade, uma estátua no alto de outra igreja, a Lapa dos Mercadores, na rua do Ouvidor, 35. O Aquidabã teve destino trágico: naufragou duas vezes, a derradeira em 1906, em Angra dos Reis, com uma explosão misteriosa que matou 112 militares. A estátua, que não se quebrou, e a primeira bala perdida da história do Rio estão expostas na igreja, bem longe da Lapa

“Nós normalmente conhecemos a Lapa pelas mulheres da vida, as paixões no bas-fond. Mas essa região colada ao centro oficial era o local onde o carioca podia tecer seus comentários em liberdade. Podia discutir as revoluções prováveis, os golpes possíveis, os próximos atos do governo. Jornalistas e intelectuais encontravam-se e havia a troca de informações. Quando vem o golpe de Getulio, em 1937, a Lapa fica praticamente cercada. Ao redor, estavam o quartel da Polícia Especial, a Polícia Central na rua da Relação, a delegacia do Catete”, explica Teixeira.

Praticamente expulsos de seus templos de debate, intelectuais e artistas migraram para a zona sul. “A Lapa então mergulha numa era de abandono que perdura até 40 anos depois, quando o governo Chagas Freitas começa a pôr tudo abaixo, destrói o quarteirão do Ferro de Engomar, assim chamado por ter o formato triangular. A população reagiu e conseguiu interromper a derrubada do que restou do casario. O ponto de virada dessa história é a manifestação popular para evitar o desmonte do prédio da Fundição Progresso, convertida em espaço cultural. Foi a mola mestra do movimento que ressuscitou a região”, afirma o historiador.

A ocupação da velha fábrica de fogões pela turma que acabara de montar o Circo Voador, trazido do Arpoador, na zona sul, valeu a pena. “Na época, achei um absurdo colocar o circo para fora. Mas hoje entendo que aquela zoeira toda, um bando de malucos tocando rock, não tinha nada a ver com uma região das mais caras da cidade. Isso tinha é que vir mesmo para a Lapa”, diverte-se Fortuna. “Para o próximo carnaval, vamos levar desfiles de marchinhas de carnaval para percorrer o entorno da Fundição. Será o primeiro Marchódromo do Brasil”, planeja. E a Lapa não pára de se reinventar.

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