Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_119.htm


Luiz Melodia na era do rádio

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Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio
Marcelo Corrêa/Divulgação

Em Estação Melodia, Luiz faz homenagem ao pai, Oswaldo


Entre a infância e adolescência, Luiz Melodia ouvia no rádio a transmissão de jogos do Vasco da Gama e o programa Hoje é dia de rock, apresentado por Jair de Taumaturgo. E mostrava-se atento aos 78 rotações com gravações de Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, Jamelão, Dolores Duran e Elza Soares, que o pai Oswaldo Melodia costumava escutar.

“O rádio fazia parte do cotidiano do morro. No Estácio, televisão era artigo de luxo e poucos tinham acesso a ela”, lembra o cantor e compositor carioca. Não foi por acaso, portanto, que ele deu o título de Estação Melodia ao álbum no qual interpreta sambas criados por mestres do gênero entre as décadas de 1930 e 1950. “Era para ser Rádio Melodia, mas, como existe uma emissora aqui no Rio com esse nome, optamos por Estação.” Há cinco anos sem gravar em estúdio, Melodia tinha um desejo antigo de reverenciar velhos sambistas. Coincidentemente, em meados do ano passado recebeu convite para fazer um show em comemoração aos 70 anos do Teatro Rival, em que cantou sambas de várias épocas. Aí, a idéia do disco ficou mais reforçada. Até que, em fevereiro, deixando o carnaval de lado, ele se concentrou para definir o repertório.

“Embora tenha ouvido muitas maravilhas, a escolha não foi difícil. Alguns sambas eu já havia definido antes de fazer a seleção. Eu agora sou feliz (Jamelão e Mestre Gato), O neguinho e a senhorita (Noel Rosa e Abelardo da Silva) e Tive sim (Cartola), por exemplo, eu já sabia que iria gravar”, conta Melodia. “Para a escolha das outras músicas, a opinião da minha mulher, Jane Reis, pesou no processo”, acrescenta. Os dois fazem duo na faixa Choro de passarinho (Renato Piau, Euclides Amaral e Rubens Cardoso).

Memória afetiva
Junte-se a isso a memória afetiva do cantor. Desse baú de recordações, ele garimpou, entre outras, Cabritada mal sucedida (Geraldo Pereira), Dama ideal (Alcebíades Nogueira e Arnaldo Passos), Recado que Maria mandou (Haroldo Lobo e Wilson Batista) e Contrastes (Ismael Silva). “O Ismael foi contemporâneo de Seu Oswaldo, meu pai, e eu tenho grande admiração pelos dois”, afirma.

De Oswaldo Melodia (morto há 15 anos), Luiz gravou Não me quebro à toa e Linda Tereza, mas poderia ter feito um disco todo de composições só dele. “Seu Oswaldo foi uma figura fundamental na minha vida. A princípio, não queria me ver envolvido com a música, pois sonhava ter um filho médico, mas depois virou meu maior fã. Por pura vacilação não fiz um disco com ele. Mas, como guardei muitos sambas de sua autoria, aos poucos vou gravando”, confessa, saudoso.

Wally Salomão é outro homenageado em Estação Melodia. “O Wally foi um grande amigo (o poeta e agitador baiano apresentou o compositor ao grande público, quando incluiu Pérola negra no repertório do show e, posteriormente, do álbum Fa-tal, de Gal Costa, em 1970). Por sugestão dele, gravei A voz do morro, de Zé Kéti, no CD Mico de circo. Ele sempre quis que eu fizesse um disco como esse.” No Estação, a única música com a assinatura de Luiz Melodia é Nós dois, feita com o guitarrista Renato Piau, velho companheiro de palcos e estrada.

No próximo dia 30, o cantor lança o disco oficialmente com show no Canecão, no Rio de Janeiro. Em seguida, de 7 a 9 de setembro, se apresenta em São Paulo, iniciando turnê nacional. “Antes do final do ano chegarei a Brasília com esse novo trabalho. Gosto de cantar aí, lugar onde sempre fui muito bem recebido”, anuncia Melodia. A empatia vem desde que esteve aqui pela primeira vez, no final da década de 1970, participando do Projeto Pixinguinha, juntamente com Zezé Motta e Marina.


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crítica - estação melodia
Enfim, uma novidade
Sarapui Produçães Artisticas/Reprodução

Estação Melodia
CD do cantor e compositor Luiz Melodia com 14 faixas, produzido por Humberto Araújo. Lançamento Biscoito Fino. Preço médio: R$ 33. ****



De nomes consagrados como Luiz Melodia, o público de fãs pode ficar esperando, nos novos trabalhos, “mais do mesmo”. Mas com ele não é assim. Dado a se renovar a cada investida, desta vez o artista mira o passado para se lançar ao futuro. E nada como uma boa homenagem aos grandes mestres do samba para alcançar a verdadeira novidade, num disco delicioso, em que a bela voz do cantor se casa à perfeição com as canções escolhidas.

Do repertório de seu Estação Melodia, os sambinhas antigos, em releituras ao mesmo tempo tradicionais e atuais, possuem dois tons: o do romantismo ingênuo e o do humor escancarado. Na primeira linha, situa-se o belíssimo Tive sim, de Cartola, que abre o disco; Papelão (Geraldo das Neves); Nós dois (Luiz Melodia e Renato Piau); Choro de passarinho (Renato Piau, Euclides Amaral e Rubens Cardoso), que homenageia choros antológicos; Eu agora sou feliz (Jamelão e Mestre Galo); e Linda Tereza (de Oswaldo Melodia).

Entre os sambas bem-humorados, há clássicos, como O neguinho e a senhorita (Noel Rosa e Abelardo da Silva) e Cabritada mal sucedida (Geraldo Pereira), além de Dama ideal (Alcebíades Nogueira e Arnaldo Passos), Chegou a bonitona (Geraldo Pereira e José Batista) e Recado que Maria mandou (Haroldo Lobo e Wilson Batista). Para finalizar, há um tipo que não fala de amor nem faz piada, mas reflete sobre as pequenas e grandes coisas da vida, do morro, dos homens. Nesse último caso, enquadram-se Não me quebro à toa (Oswaldo Melodia), O rei do samba (Miguel Lima e Arino Nunes) e Contrastes, do grande Ismael Silva. (CA)

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