Por falar em "Três irmãos de sangue", segue texto sobre este filme
comovente.
From: [EMAIL PROTECTED]
Subject: Quando a saudade alimenta nossas esperanças
Na última segunda-feira tive o privilegio de assistir, numa exibição
discreta para um público incontido em soluços, a pré-estréia do documentário
"Três Irmãos de Sangue". Comovente! Maravilhoso! Há muito tempo não me
emocionava tanto. Nem os outros. O filme, que entrará em cartaz na próxima
sexta-feira em Belo Horizonte, aborda a trajetória de três ilustres
personagens da recente história brasileira: Henfil, Betinho e Chico Mário. O
cartunista (1944-1988), o sociólogo (1935-1997) e o músico (1948-1988). Três
irmãos, mineiros, entrelaçados pela mesma condição (hemofílicos), pelo mesmo
posicionamento político (indignação perante as injustiças sociais) e pelo
mesmo destino (a morte pela Aids contraída numa transfusão de sangue). Com
roteiro e direção de Ângela Patrícia Reininger, o filme pode ser apropriado
ao mesmo tempo como fonte histórica e uma homenagem justa aos três
protagonistas. Destaque para o apanhado de valores humanos imprescindíveis
ao nosso convívio. Não foi por acaso que o documentário saiu vitorioso no 5º
Fest Petrobrás Brasil de Nova York domingo passado.
Inicialmente é preciso ressaltar a maneira como a diretora o produziu.
Dividido em três partes sob a batuta de Wagner Tiso regendo uma linda
"Ressurreição", o filme não foge à regra quando comparado aos melhores do
gênero recentemente lançados: uso de depoimentos atuais mesclados com
imagens de arquivo pessoal e televisivo. Contudo a peculiaridade está no
modo como Ângela Patrícia tratou os dois recursos. Ao longo da narrativa
ambos se alternam com total independência, ora se intercalam ou melhor se
sobrepõem, ora se complementam como ilustrações de um período - caso mais
comum com pouca predominância no filme. As imagens de arquivo ganham
autonomia nas mãos da diretora que imprime uma cadência crescente em emoção
sem cair no pedantismo ou na fabricação de heróis. A opção escolhida para
registro da história desses três irmãos foi, para mim, a mais correta e
coerente com o caminho traçado por eles: humanizá-los acima de tudo. Nisso
resume a competência e o acerto da montagem (vejam o episódio das doações
recebidas por Betinho vindas de bicheiros).
Porém o brilhantismo continua quando cenas da nossa história invadem com
maestria a biografia dos personagens ou vice-versa. Com olhos fixos na tela,
lacrimejantes, ressurge passo a passo o retrato de um país solidário e
esperançoso. Rever a volta do irmão do Henfil ao som da canção consagrada na
voz de nossa maior intérprete foi o ápice. Nesse instante não só o choro de
Marias e Clarisses mas provavelmente o seu lembrará de muitos que partiram
prematuramente de nossas vidas. Quanta saudade impossível de ser contida. Na
seqüência as campanhas pelas "Diretas" e "contra fome pela cidadania".
Não obstante o convívio com a doença, nenhum dos três irmãos de sangue
cansou. Lutaram e viveram intensamente todas os momentos até a hora da
despedida. O risco de morte que sempre os acompanhou não tinha
preponderância no repertório de preocupações da família. Nem precisava,
dignidade e alegria eram o que importava. Nesse sentido, mantiveram-se
firmes em seus propósitos mesmo quando o descaso com a saúde pública do país
os vitimou (inaceitável). Conseqüentemente o ímpeto da expressão "viver a
vida" (Godard) constituiu-se no principal legado que ficará para gerações
vindouras. Viver nos detalhes, nos atos aparentemente tidos como os mais
insignificantes ou desnecessários demonstrados na obra no momento de
reaproximação do filho ou na presença de um deles no sepultamento do irmão.
Como não se encantar com a simplicidade do colo materno de dona Maria?
Motivo daquela interminável disputa entre irmãos, o aconchego da mãe revelou
um trio que depois dela amava profundamente este país. Comparação mais do
que oportuna! Amor incondicional ao outro, à profissão, à liberdade e à
justiça social. Simples gestos que inquietam nossas convicções. Incansáveis
irmãos de sangue! Henfil, Betinho e Chico Mário. Com suas Graúnas e
Fradinhos. Com toda mobilização social empreendida. Com toda genialidade
artística razoavelmente difundida. Incansáveis! Vozes de um Brasil guerreiro
e equilibrista orgulhoso de tê-los como referência.
Portanto, não percam este extraordinário documentário. Àqueles que
inocentemente se dizem "cansados" com o país recomendo uma sessão do filme
logo após os minutos de silêncio programados para o dia 17 de agosto.
Coincidência à parte, a projeção deste magnífico trabalho de Ângela Patrícia
Reininger lhes devolverá o ânimo supostamente perdido com mais nostalgia,
inteligência e esperança.
Abraços
Marcos Rezende
----- Original Message -----
From: "Elmo Lage" <[EMAIL PROTECTED]>
To: <[email protected]>
Sent: Monday, August 20, 2007 8:58 AM
Subject: [S-C] Re: Fabricando Tom Zé
"Fabricando Tom Zé" é ótimo, pessoal. Recomendo, também, "3 irmãos de
sangue". Os dois filmes são imperdíveis! Em alguns cinemas apenas (a
maioria das salas está entupida de enlatados americanos), mas vale a pena
gastar um pouco mais de tempo e gasolina. Para curtir o gênio Tom Zé e
matar as saudades dos irmãos Betinho, Henfil e Chico Mário, vale tudo!
Abs,
Elmo Lage
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta