Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_125.htm
LIVRO
Trajetória de uma guerreira
Biografia de Clara Nunes, escrita pelo jornalista Vagner Fernandes, recupera
a história da cantora que se tornou um mito da música popular brasileira
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Sérgio Rodrigo Reis
Do Estado de Minas
Wilton Montenegro/Divulgação
Figura forte, bela e ecumênica, Clara Nunes levou uma vida difícil e morreu
aos 40 anos
O comentário à boca pequena na cidade de Caetanópolis era geral. Adilson,
até então amigo do peito de Zé Chilau e namorado de Clara, irmã dele, teve a
coragem de espalhar pela cidade as supostas intimidades com a jovem de 15
anos. A história correu e não se falava em outra coisa. Revoltado, Zé Chilau
resolveu passar o assunto a limpo e, na medida que o disse-me-disse crescia,
aumentava sua revolta. É verdade?, perguntou Zé Chilau, irritado,
aproximando-se do ofensor. Com sorriso cínico, Adilson, tirado a
conquistador, nada respondeu. Furioso, Zé Chilau pegou uma faquinha de
pescaria e, com três lances certeiros, matou o jovem, que ainda teve tempo
de dizer à polícia: Foi Chilau. Como o agressor fugiu, todos se voltaram
para a extrovertida Clara, órfã de pai e mãe, que não conseguiu suportar a
pressão e os insultos. Partiu para Belo Horizonte em busca de apoio de
familiares, dando início a uma das trajetórias mais ricas da MPB, agora
recuperada em detalhes pelo jornalista e pesquisador Vagner Fernandes no
livro Clara Nunes Guerreira da utopia.
Na obra, ricamente ilustrada com preciosas fotos de época, o autor refaz a
vida e a obra da intérprete a partir de extensa pesquisa feita nos últimos
quatro anos e meio em Minas (Belo Horizonte, Caetanópolis e Paraopeba),
Bahia (Salvador), Pernambuco (Olinda) e no Rio de Janeiro, cidade que a
abraçou e a projetou nacionalmente. Como não havia fonte bibliográfica
confiável, a biografia da cantora só veio à tona graças à disposição dos
protagonistas em relatá-la. Se não fossem essas pessoas, a história não
teria sido contada, explica o autor, que, sem apoio ou patrocínio, bancou
todo o projeto. No princípio, sem saber ao certo onde iria chegar e o que
faria com o material, mas com fortes lembranças na cabeça.
A primeira vez que Vagner Fernandes foi a uma quadra de escola de samba, a
da Portela, ao chegar lá deparou com Clara Nunes no palco. No final do show,
ela passou a mão em sua cabeça e disse: Tudo bem, criança?. Nunca mais a
imagem saiu da mente do jornalista. A biografia começou a ser escrita com a
emoção dessa memória.
Antes de iniciar a pesquisa, a figura da cantora vestida de branco, numa
evocação do candomblé, era a maior referência. Logo no início do trabalho,
um universo de revelações, escândalos, decepções e dramas foi aparecendo e
alimentando de fatos curiosos e intrigantes.
Logo no início, o terceiro lugar no concurso A Voz de Ouro ABC a levou ao
Rio para gravar um compacto. Ao voltar, a capital mineira ficou pequena para
seus anseios e foi tentar a sorte no Rio. O cantor Eduardo Araújo dividia
apartamento com Carlos Imperial. Clara e o namorado, irmão de Eduardo, foram
morar com eles em 1965.
Espaço para o samba
Fracassam as tentativas de fazer sucesso como artista romântica e em
festivais universitários. A partir de 1971, com o reconhecimento pela
interpretação dos sambas Você passa, eu acho graça e De esquina em esquina,
ela se volta para o samba e a afro-brasilidade. Coube a Carlos Imperial
indicar o responsável pela mudança em seu estilo: o radialista Adelzon Alves
convidou Geraldo Sobreira para mudar o visual da cantora mineira. Não é bem
verdade que criaram o mito. Clara tinha convicção de que havia tentado tudo
e que adorava os batuques afros, defende o escritor.
O que me surpreendeu foi o fato de essa personagem ser uma mulher com a
vida pontuada por dissabores. Quando João Nogueira e Paulo César Pinheiro
escreveram Guerreira, não foi à toa. A vida dela não foi fácil, atesta o
biógrafo. Órfã de pai aos 2 anos e de mãe aos 6, ela sofreu um baque quando
o irmão cometeu o homicídio. Não conseguia engravidar. Em 1979, fez
histerectomia, quando tomou anestesia geral. Como não teve problema, em
1983, durante a fatídica cirurgia de varizes, convenceu os médicos a repetir
o procedimento. Entrou em coma.
Depois de 28 dias de agonia, morreu, aos 40 anos, e provocou comoção
nacional no velório na quadra da Portela, em Madureira, no Rio. Erro médico?
Fatalidade? Até hoje a pergunta permanece sem resposta conclusiva. A
biografia lança luz sobre a misteriosa causa da morte. Depois de 25 anos, o
desarquivamento de sindicância aberta pelo Conselho Regional de Medicina
carioca levanta hipóteses para o choque anafilático, mas não esclarece em
definitivo qual substância teria causado a alergia que levou Clara Nunes à
morte.
CLARA NUNES GUERREIRA DA UTOPIA
De Vagner Fernandes. Editora Ediouro, 312 páginas, R$ 39,90.
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Emoção e política
Além de retratar a estrela do canto popular, Clara Nunes Guerreira da
utopia lança um olhar sobre o Brasil. Clara Nunes concentrou em sua vida
muitas contradições. Gravou disco com hino para as Olimpíadas do Exército,
em plena ditadura militar, e tornou Apesar de você, de Chico Buarque,
símbolo da resistência (algo semelhante ao que aconteceria com Elis Regina,
sua grande amiga). De família católica do interior de Minas, foi uma das
maiores divulgadoras da cultura religiosa afro-brasileira, além de se
entregar a experiências como o espiritismo. Nascida na era do rádio, evoluiu
para o império da tevê, marcou presença em programas de auditório. Gravou os
grandes sambistas do passado, sem perder o empenho em revelar a nova
geração. Pobre e operária, não teve medo de criar um teatro com seu nome.
Foi a intérprete do canto das três raças. Plural e utópica, como resgata com
competência Vagner Fernandes.
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