Cacique de Ramos: ainda doce refúgio

POR THALES RAMOS E THIAGO DIAS(do blog "O Samba é Meu Dom" -
http://osamba.wordpress.com/)

Lá, onde as tamarineiras são da poesia guardiãs, o samba ainda existe.
Continua perto de tudo, ali no subúrbio do Rio. A quadra da rua Uranus
segue revelando talentos, mas se tornou difícil concorrer com o
sambanejo e as regravações de bambas do passado. Aos Partideiros do
Cacique de Ramos, resta manter as tradições daquele doce refúgio. Eles
sabem que a fonte não secou.

"Todo feijão tem que ter um bom tempero. O importante é não deixar
aquilo ali morrer", diz Banana, um dos líderes dessa não tão nova
geração de sambistas do Cacique de Ramos, bloco carnavalesco que
revelou nomes como Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Jorge Aragão,
Almir Guineto, Arlindo Cruz e qualquer outro sambista que você lembrar
que fez sucesso nos anos 80.

A madrinha da rapaziada da zona da Leopoldina continua sendo Beth
Carvalho, que convidou os partideiros para abrir seu show no Circo
Voador, na última semana, pelo programa Samba Social Clube da MPB FM.
"É uma casa maravilhosa, com gente de todas as tribos. A idéia de
fazer uma roda, fora do palco, foi ótima. A galera toda cantou com a
gente. O povo está carente disso, né?", indaga o partideiro.

Banana é uma figura responsa. Pode até intimidar pelo tamanho, mas lá
de cima sai um papo maneiro. Do amor pelo batuque, criou a marca de
camisas Coisa de Samba, com estampas como São Jorge, pandeiros e o
símbolo do Cacique. Batizado Henrique Hatischvili, ele é de família de
bambas e honra a tradição: neto de João da Baiana e filho de Neoci,
fundador do Fundo de Quintal e um dos maiores partideiros da história.

"Eu tenho 38 anos, o Fundo tem 28. Vi muita gente passar pela minha
casa. Meu pai levava todo mundo. Mussum, Zeca, Almir Guineto, Jorge
Aragão, que era meu vizinho. A Beth vivia lá, adorava o feijão da
minha mãe. O Sombrinha já morou na minha casa, quando meu pai o trouxe
de São Vicente para tocar no grupo", lembra. Com uma história dessas,
coisa ruim não poderia sair de uma banda formada por ele.

Os Partideiros do Cacique contam com Banana, Carlinhos Tchatchatcha,
Marcinho do Pandeiro, Márcio Vanderlei e Renatinho Partideiro. Eles
dão conta do recado e puxam sambas dos seus ídolos da rua Uranus. Mas
também arriscam inéditas. "Todo compositor é bem-vindo. Lá sempre foi
assim. Havia a tradição de toda quarta-feira ter roda para apresentar
sambas novos", diz Banana.

Para quem quiser se arriscar a versar, o pagode rola das 17h às 22h no
tradicional endereço do bloco. "Mudamos o dia para domingo. Mas tem
que ser samba bom, não adianta pisar na grama sem chuteira", afirma
Banana, lembrando que para participar da roda também precisa ter gogó.
"O Cacique de Ramos é o único pagode que rola há quase 30 anos sem o
uso de microfone."

Dos anos 80 para cá, muita coisa mudou no samba. A geração do Cacique
deu origem ao pagode meio mauriçola, que dominou as rádios na década
seguinte. Banjo, tantan e repique de mão viraram peças presentes em
todos os grupos. Vale lembrar que a maioria dos líderes daquelas
bandas cresceu ouvindo a galera do Cacique e muitos passaram a
infância freqüentando a quadra.

Banana até defende esses grupos. "Eles abriram caminho para muita
gente. Kiloucura, Molejo, Exaltasamba. Muitos acabaram, mas havia
qualidade", diz o partideiro. Não há como negar, contudo, que o
mercado fonográfico ficou saturado do estilo deles. E a galera que
havia começado o movimento nos anos 80 voltou a ser procurada. Zeca,
com seu disco ao vivo de 1997, bateu recordes e tornou-se ídolo
nacional.

Nessa linha, Arlindo Cruz é referência e cedeu cinco músicas para
Maria Rita gravar, no álbum recém-lançado. Mas quem está começando
agora, como é que fica? Está difícil encontrar compositores jovens
sendo gravados pelos bambas. Dudu Nobre surgiu como novidade, mas
depois dele poucos apareceram e se firmaram. Banana garante que a
história está mudando:

"Caetano, Moisés, Renatinho Partideiro, Fred Camachoe e Márcio
Vanderlei, da nova geração, estão sendo gravados. Muitos grupos que
surgiram na trilha do Fundo acabaram, mas tem muita gente boa. O Xande
de Pilares, do Revelação, vivia com a gente lá na quadra", afirma
Banana. "Tomara que apareça alguém para substituir a gente."

Para uns, o Cacique é uma cachaça. Para outros, religião. Continua
assim, com o samba em alta bandeira. Vai aparecer, para cantar com os
passarinhos na manhã.
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