Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_68.htm


Primeira grandeza

Das reuniões de talentosos músicos em um apartamento na Asa Sul, nasceu um dos ícones culturais da cidade: o Clube do Choro, cujos 30 anos serão celebrados em show hoje

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Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio



O tradicional Concerto Cabeças não era a única manifestação cultural que movimentava a 311 Sul há três décadas. Entre 1975 e 1977, uma roda de choro em um apartamento do Bloco E (Edifício Flávia Hilca) daquela quadra reunia músicos consagrados que deixaram o Rio de Janeiro para se radicarem em Brasília e jovens instrumentistas apreciadores do gênero.

As reuniões tinham como anfitriã Odette Ernest Dias, uma flautista francesa que havia deixado a Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, para vir morar na capital, onde passou a integrar o quadro de professores da Universidade de Brasília (UnB). O mais ilustre participante dos hoje históricos encontros de chorões era ninguém menos que Waldir Azevedo, o “rei do cavaquinho”, criador de clássicos como Brasileirinho, Delicado e Pedacinhos do céu.

Havia, ainda, outros nomes importantes, como Bide da Flauta, Pernambuco do Pandeiro, Avena de Castro, Hamilton Costa, Tio João, Miudinho, Eli do Cavaco e Manoel Vasconcelos – a maioria deles, originários de conjuntos que se apresentavam em programas de rádios cariocas. A eles, se juntavam músicos em início de carreira, como Nivaldo de Souza, Alencar Sete Cordas, Antônio Lício, Valdeci e Reco do Bandolim.

Durante dois anos, aos sábados, do apartamento de Odette (que pertencia à UnB), o som se espalhava por todo o prédio e pela quadra. A tocata iniciava às 14h e entrava pela noite. Isso, porém, não parecia incomodar ninguém. “Os vizinhos também apareciam para ouvir. E nunca houve reclamação quanto ao barulho”, lembra a flautista. “O meu marido, Geraldo (Waldomiro Dias), já falecido, cuidava da organização e abastecia a geladeira com cerveja.”

Em 1977, vendo que o apartamento se tornara pequeno para tanta gente, Odette e seus companheiros passaram a buscar outras opções para a roda de choro. Foi então que shows começaram a ser promovidos no Teatro da Escola Parque e no Teatro Galpão, prestigiados por expressivas platéias. Naquele ano, surgiu, então, a idéia de se criar o Clube do Choro.

Para que isso ocorresse, era preciso um local para as reuniões, uma sede para a entidade. Foi então que Antônio Lício procurou Paulo Romano, secretário geral do Ministério da Agricultura, apreciador do chorinho, que era amigo do então governador, Elmo Serejo Farias. “O Paulo conseguiu uma audiência com o governador e fomos ao Palácio do Buriti em comitiva para fazer a solicitação. Ele nos recebeu e mostrou numa maquete o local que poderia ser destinado, ao lado do Centro de Convenções. Mas explicou que, para o governo fazer a cessão do espaço, o clube precisaria estar constituído formalmente, com ordenação jurídica”, conta.

Feijoada com batida
A ata para a constituição do Clube do Choro foi elaborada por Geraldo Dias. Ele próprio passou a colher as assinaturas de quem viria a se tornar sócio fundador. O registro em cartório da ata se deu no dia 25 de setembro de 1977. Para presidir a instituição, foi escolhido o citarista Avena de Castro. A partir daí, começou a parte mais complicada: ocupar a sede com apresentações regulares.

Depois de uma limpeza no local (um vestiário abandonado do Centro de Convenções), houve a primeira reunião. Os associados contaram com o apoio de Arthur do Chorão (dono de um bar que existiu na 302 Norte). Ele ofereceu a estrutura do seu estabelecimento; Walci Barbosa (outro fundador) cedeu mesas e cadeiras do Clube dos Previdenciários, do qual era diretor. Walci, servidor público que trabalhava no gabinete de Elmo Serejo, assumiu a presidência do clube depois da morte de Avena de Castro.

Eram muitas as dificuldades para manter uma programação constante. Aí, entraram em ação Pernambuco do Pandeiro, Bide da Flauta e Tio Nilo, que começaram a promover rodas de choro aos sábados, a partir das 16h. “No clube, não havia móveis. Conseguimos mesas e cadeiras junto à AABB e ao Walci, que era ligado ao Clube dos Previdenciários. A geladeira e o fogão que instalamos foram conseguidos por meio de troca por um bicudo e um curió bons de bico que eu tinha”, recorda-se Pernambuco.

“As rodas de choro eram regadas a batidas de limão e maracujá, sarapatel e feijoada, preparados no local. Pedíamos uma pequena taxa para quem ia para assistir e se servia”, relata o veterano percussionista, que fez história ao dividir com o saudoso Bide da Flauta a interpretação do clássico Urubu malandro, de Pixinguinha. Pernambuco, depois de radicar-se em Uberaba por vários anos, recentemente voltou a morar na capital, onde se juntou a jovens músicos no grupo Choro & Cia.

Pixinguinha e Jacob
Não falta quem fale com saudade dos “tempos heróicos” do choro na cidade. O pandeirista Manoel Vasconcelos, por exemplo, se orgulha de ter acompanhado Waldir Azevedo. “Até hoje não sei por que ele não participou da fundação do Clube do Choro.” Vasconcelos também tocou com Jacob do Bandolim e Abel Ferreira, “na roda que havia na casa do jornalista Raimundo de Brito, anterior à do apartamento de Odette”.

Alencar Sete Cordas, que hoje tem uma escola de violão, revela que, ao ser convidado para participar das reuniões promovidas pela flautista, se preparou bastante. “Busquei saber quais os choros mais difíceis de tocar. Me disseram que Ingênuo, de Pixinguinha, era um deles. Ensaiei muito e o pessoal ficou sabendo. Aí o Reco do Bandolim chegou e, para me provocar, falou que queria ouvir a música. Sem perder a pose, respondi com uma pergunta: você quer em qual a versão? A do Pixinguinha ou a do Jacob do Bandolim, registrada no LP Vibrações? Já quis começar por cima”, brinca.

Octogenário, o saxofonista Tio Nilo volta ao tempo e comenta: “Passei a participar das reuniões de chorões no apartamento de Odette por sugestão do cavaquinista Valério Xavier (pai de Valerinho, vocalista e cavaquinista do grupo Samba & Choro). Meu sax não era de boa qualidade, mas mesmo assim meu sopro impressionou o mestre saudoso Abel Ferreira, de quem, depois, ganhei um sax que ele costumava usar”. Outra signatária da ata de fundação do Clube do Choro, a pianista Neusa França fez um choro para Odette, intitulado Sofisticado. “Era assim que assim que eu via o jeito dela usar seu instrumento”, elogia. Justa homenagem à musicista que pode ser considerada a mãe do Clube do Choro de Brasília.


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Show comemorativo

A sala onde hoje alguns fundadores remanescentes vão tocar para comemorar os 30 anos do Clube do Choro passou por algumas reformas desde que, há 12 anos, Reco do Bandolim assumiu a presidência. Quando subirem ao palco, Odette Ernest Dias (que vem se apresentando desde quarta-feira), Neusa França, Alencar Sete Cordas, Tio Nilo, Nivaldo da Flauta e Antônio Lício terão condições técnicas para fazerem um belo show. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia). Como vai ser homenageado em Uberaba (MG), Pernambuco do Pandeiro estará ausente.

Com o decisivo apoio de Raphael Rabello e Armandinho Macedo, que fizeram um show na Sala Villa-Lobos, com renda destinada ao clube, a primeira reforma foi efetuada. Depois, vieram outras. E, junto com elas, os projetos realizados já há 10 anos, em homenagem a mestres do gênero, como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Radamés Gnattali, entre outros. Isso foi possível em função cos patrocínios obtidos, o que determinou, também, a criação da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello. A próxima meta do clube é a construção da nova sede, a partir de projeto da equipe de Oscar Niemeyer. (IRL)

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