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Cartola 100 Anos vai desvendar a identidade do poeta e ex-pedreiro


Projeto envolve vários setores artísticos para lembrar centenário do sambista, em outubro de 2008

Roberta Pennafort

No próximo carnaval, a Mangueira não levará à avenida um enredo-tributo a Cartola, que faria 100 anos no dia 11 de outubro de 2008. No entanto, se a escola pôs de lado seu símbolo maior - ele não só foi um de seus fundadores, como deu à agremiação suas cores e seus primeiros sambas-enredo -, a família de Angenor de Oliveira já prepara uma série de homenagens por ocasião do centenário. A programação inclui livro, exposição, show, caixa de CDs, peça de teatro, seminário e até concursos de músicas e de monografias sobre o compositor.

O projeto 'Cartola 100 anos' nasceu no Centro Cultural Cartola, um interessante espaço de sete mil metros próximo à quadra verde-e-rosa, dirigido por seus netos, Pedro Paulo e Nilcemar Nogueira, e que o apresenta às novas gerações. Um dos pontos altos é uma publicação que resgatará as histórias por trás dos sambas do mestre. Deverá sair pela editora Euterpe e terá como base a dissertação de mestrado de Nilcemar, que, desde adolescente, quando passou a morar com ele e dona Zica, dedica-se a ser guardiã de seu legado.

'Já existem duas biografias e dois livros infantis sobre Cartola, mas este vai abordar o processo de criação. Os parceiros vão contando que ele construía tudo junto ao violão, letra e música', ela explica.

A idéia é revelar a identidade de Cartola como poeta do samba e como pessoa. Recuperar a trajetória do homem que estudou até a quarta série e trabalhou como pedreiro e vigia. Do compositor que se chateava quando compunha com parceiros mais letrados e os críticos acreditavam que a parte que lhe coubera fora a mais simples, por ser ele menos escolarizado. Do artista que gravou o primeiro LP aos 65 anos - e que pararia no quarto, doente, a um ano da morte.

O livro também tem a intenção de desmentir falsas verdades que se perpetuaram desde então. Como a que diz que O Mundo É um Moinho foi feita por Cartola para a filha, Glória Regina. 'Na verdade, ele escreveu a partir de uma história de um amigo do trabalho (na época, era contínuo do Ministério da Indústria e Comércio) sobre sua filha', Nilcemar esclarece.

Outra lenda que circula: de que As Rosas não Falam foi escrita no cenário romântico do Morro da Mangueira dos anos 70. A composição só surgiu quando o casal já tinha se mudado para a casa de Jacarepaguá, bem longe dali, onde dona Zica cultivava um jardim - o casal saiu da favela por causa do assédio excessivo a Cartola, vindo quando ele finalmente teve seu gênio reconhecido.

A caixa comemorativa de CDs terá uma reedição de seus quatro discos e um quinto só com inéditas. Entre elas, as letras musicadas, após sua morte, por Francis Hime e Vander Lee, que aceitaram as restrições impostas por Nilcemar. Sempre cuidadosa com a obra do avô, ela guarda em casa pastas com manuscritos e músicas inacabadas. Relíquias como o poema sem título e sem data (talvez seja da década de 60, ela diz) que o Estado publica hoje. Em duas estrofes, o poeta desdenha de quem o critica: 'Não me sinto preocupado/sei que são uns despeitados.'

Ainda como parte da festa, um show será realizado em março, no Teatro Oscar Niemeyer, em Niterói. Reunirá nomes que sempre cantaram Cartola, como Alcione, Beth Carvalho e Emílio Santiago, e ainda Maria Rita e Mart'nália, além da Velha Guarda da Mangueira. A partir dele, deverão surgir um CD e um DVD. Niterói sediará também uma exposição com textos, fotos, filmes e documentos - nos moldes da que está em cartaz permanentemente no Centro Cultural Cartola.

A mostra vai recuperar a vida do compositor, desde os anos de menino, entre os bairros do Catete e Laranjeiras, na zona sul do Rio, à chegada, em 1919, à Mangueira (então com cerca de 50 barracos); a fundação da escola (a segunda surgida no Rio de Janeiro), a qual amaria profundamente; o ostracismo; o encontro e o casamento com Zica; a abertura do lendário Zicartola; a consagração tardia; o câncer e o fim, aos 72 anos, a 30 de novembro de 1980.

Tem mais: o projeto prevê a organização de um seminário, com a participação de estudiosos do samba e do autor de Acontece e Alvorada. O sambista vai virar ainda tema de cartoon (Lan já foi convidado para criar uma logomarca). E, se a Mangueira não o homenagear, a Mangueira do Amanhã, sua escola mirim, vai reeditar o tema da irmã mais velha de 1983: Verde Que te Quero Rosa, título de uma música de Cartola. Duas escolas menores, a Paraísos do Tuiuti e Mocidade Unida de Jacarepaguá, também desfilarão sua vida. No grupo especial, a Viradouro vai incluí-lo no enredo É de Arrepiar!.

Finalmente, estão previstos também um concurso de monografias que correrá faculdades de Letras Brasil afora (o Ministério da Educação foi procurado para ajudar) e um musical - profissionais e amadores poderão inscrever músicas em homenagem a Cartola. O prêmio é uma reprodução de um anel que ele não tirava do dedo: um anel de ouro em formato de lira com duas pedras coloridas. As cores? Verde e rosa.

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  • [S-C] Projeto Cartola 100 Anos, no Est... Sonia Palhares Marinho

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