Não é nada fácil analisar esse processo. Quando alguém aponta, defendendo ou
atacando, para as transformações mercadológicas, geralmente, o faz de maneira
impressionista, e estamos falando de algo muito complicado.
Por exemplo, como explicar que a qualidade das canções na época do rádio,
primeira forte introdução no mercado fono brasileiro – iniciando o
condicionamento: processo de produção em série, venda de sambas, pressa de
lançamentos semestrais e anuais, pressão de gravadoras etc – ,tinham qualidade
musical superior aos processos posteriores de massificação?
Você encontrava sambas ruins? Claro que sim, mas a média era infinitamente
menor do que no decorrer dos tempos. Isto é, ainda com a profissionalização da
música, e inserção pesada na indústria fonográfica, tínhamos um resultado
interessante na criação.
Isso significa que aquele tempo era bom e hoje só se faz porcaria, que o que é
velho é sempre melhor que o novo, que o que está morto tem mais valor do que o
que está vivo?
Não, não significa. Voltemos, tudo é muito mais complicado do que se pensa.
Todas as transformações do próprio capitalismo, que tem sobrevivência de
domínio alta e velozmente mutável, explicam alguns acontecimentos.
Emprestemos parte da polêmica corrente na lista. Se compararmos dois momentos
de produção em série, dentre tantos outros exemplos possíveis, observaremos um
fato interessante. Vejamos, época de rádio e os anos oitenta.
Primeiramente, são dois momentos históricos completamente diferentes. Na época
do rádio, e todos aqui já sabem, a febre nacionalista, instrumentalizando o
rádio, principal veículo da época, investiu pesado nos acontecimentos musicais
da época, que tiveram conseqüências aqui exaustivamente discutidas.
O Cacique de Ramos, representação mais expressiva dos anos 80, era um movimento
sem populismo, era a música feita pelo povo, sem manipulação governamental,
ganhando espaço na indústria cultural, momento em que a música internacional
estava avançando seus tentáculos na juventude brasileira.
Chegando lá, mais de quatro décadas separando os acontecimentos. Por que
encontramos qualidade poética e musical em maior quantidade no acontecimento
mais antigo?
Isto é, encontramos coisas boas na indústria fonográfica que envolveu a década
de oitenta? Claro que sim, mas encontramos coisas de baixa qualidade em escala
considerável. E na época do rádio, encontramos coisas ruins? Óbvio, mais se
aproximava muito mais da exceção do que da regra.
Por quê?
Acredito que a música sofreu interferências diversas, o capitalismo se adapta, e sempre quando está um pouco mais distante das origens – e evoluindo ou mudando sobre solo capitalista – tende a se tornar mais plástica.
Isso não valida ou invalida o indivíduo, não imputa responsabilidade nos
movimentos, é apenas reflexo do desenvolvimento da estrutura capitalista.
Escolas? Bora lá, o rato-cupim-capital praticamente roeu as estruturas todas.
Basta olhar a organização dessas agremiações. Antigamente, a maioria dos
diretores eram grandes compositores. E os que não o eram – Chico Porrão, Natal,
Massú – tinham outro tipo de relação com o povo.
Em suma, o gigantismo teve um preço muito alto. É nítido que não se tem
escolha, é um processo.
Grande parte da música brasileira saiu diretamente ou indiretamente das
agremiações, hoje é só frangalhos.
O vínculo com a comunidade, e não adianta dizer q núcleo tal reserva x por cento das fantasias para o povo etc, mudou totalmente. Claro que ainda existe um vínculo, mas nem de longe parece ser o que era.
Musicalmente, acho que não tem nem o que discutir. Samba de Terreiro, nem precisamos falar nada. O documentário que Paulinho visitou algumas agremiações, deve ser de 1990, demonstra bem o que o capitalismo faz com culturas que crescem no quintal da sua privada, isto é, propriedade privada.
Árvore que esqueceu a raiz, de Candeia e Isnard, é um livro imprescindível para
entender o processo de transformação das escolas. Livro contém propostas
interessantes para uma retomada.
A boa fase que o samba vive hoje, se não estiver acompanhada de um início de
descortinamento, e de uma marcha continental, infelizmente, será apenas mais
uma fase.
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