Folha de São Paulo de 27.11.2007

Livro desmistifica imagem inocente de Clara Nunes

Fartamente ilustrado, "Guerreira da Utopia", do jornalista Vagner Rodrigues,
mostra personalidade "sagaz e observadora"

Quase 25 anos depois, biografia reexamina polêmica morte da cantora, durante
cirurgia de varizes, que gerou "circo" midiático


MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DA REPORTAGEM LOCAL


Foi de vestido branco, sorrindo, gingando com sua cabeleira e cantando sambas,
que a mineira Clara Nunes se eternizou na música brasileira.

Mas essa personagem, talhada sob medida por sua gravadora, é apenas a mais
bem-sucedida das que Clara Francisca Gonçalves se dispôs a viver, como mostra
o jornalista Vagner Fernandes na biografia "Clara Nunes - Guerreira da Utopia".


"A Clara tal qual a conhecemos, a imagem que ficou no inconsciente coletivo,
foi pré-concebida. Até gravar o disco que marcaria sua virada [para o samba],
em 1971, ela era uma cantora de bolero, de músicas de gosto duvidoso", diz
Fernandes à Folha, por telefone.

O livro, lançado agora, quando se aproximam os 25 anos da morte da artista
(em 2/4/83, aos 40 anos), também desmistifica a imagem mais comum que se
tem da cantora pré-sucesso. "A visão da Clara como uma menina inocente,
interiorana, com roupa de chita e uma sacola na mão, não condiz com as 
narrativas
que escutei de pessoas que conviveram com ela. Até pelas circunstâncias
em que viveu, ela foi sagaz e observadora desde cedo."

Os diversos percalços de Clara são narrados em detalhes -ela perdeu o pai
aos dois anos, a mãe aos seis e teve de se mudar para Belo Horizonte aos
15, após seu irmão matar um rapaz para defender sua honra.

Fartamente ilustrada, a obra acompanha toda a trajetória musical da cantora,
desde os tempos de caloura do rádio até o estouro na década de 70, com uma
série de discos cheios de sucessos como "Ê Baiana", "Conto de Areia" e "Na
Linha do Mar".

Morte polêmica

"Guerreira da Utopia" também reexamina a polêmica morte da cantora, durante
uma cirurgia de varizes. Fernandes entrevistou Antonio Vieira de Mello,
cirurgião-chefe da equipe que operou Clara, e este solicitou o desarquivamento
da sindicância aberta pelo Conselho Regional de Medicina do Rio na época.


"Ele queria mostrar sua inocência. Falou: "Está tudo aqui, eu não matei
a Clara"." Durante os 28 dias em que agonizou, a cantora foi vítima justamente
do que mais queria evitar, o "circo" midiático de especulações que ela já
tinha visto na morte de Elis Regina, no ano anterior. As versões para sua
internação "eram as mais esdrúxulas possíveis", diz Fernandes. "Inseminação
artificial, aborto, tentativa de suicídio, surra de seu marido, Paulo César
Pinheiro, foram várias as hipóteses aventadas."

Do mesmo modo, as causas de sua morte também causaram suspeitas por longo
tempo, mas Fernandes é categórico em sua conclusão. "Ela teve uma reação
alérgica a um componente do anestésico, algo imprevisível. Foi uma 
infelicidade."


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CLARA NUNES - GUERREIRA DA UTOPIA
Autor: Vagner Fernandes
Editora: Ediouro
Quanto: R$ 50, em média (320 págs.)


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2710200719.htm






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