Dia do Samba em Salvador: Samba no pé e na cabeça - Comemoração baiana do dia
do ritmo amplia sua programação e inclui mesas de debate - Ivan Marques -
27/11/2007 -
http://www.correiodabahia.com.br/folhadabahia/noticia.asp?codigo=142261
Pela primeira vez a roda do Dia do Samba não será apenas feita por artistas. Os
sambistas vão se juntar a professores, pesquisadores e estudiosos do estilo
musical que representa melhor o Brasil para discutir suas origens e futuro. O
Ciclo de Debates Samba - Tradição e Modernidade começa hoje e vai até
sexta-feira, sempre às 17h, no Salão dos Espelhos do Palácio Rio Branco (Praça
Municipal). No fim de semana, o ritmo desce do salão e vai para a calçada em
frente.
Para os shows, estão confirmados nomes de peso nacional como Dona Ivone Lara, o
ministro da Cultura Gilberto Gil, Nei Lopes, Luiz Melodia, Neguinho da
Beija-Flor e Wilson das Neves, entre outros, e representantes baianos de
diferentes gerações: Mariene de Castro, Paulinho Boca de Cantor, Gerônimo,
Roberto Mendes, Vevé Calasans, Clarindo Silva, Bule-Bule, além, claro, dos
bambas Nelson Rufino, Walter Queiroz e Edil Pacheco (leia boxe com
programação). A entrada para os eventos é gratuita.
A discussão acadêmica antecede as festividades musicais. De acordo com Edil
Pacheco, é preciso discutir a origem, a modernidade, o papel no contexto da
música brasileira e dar mais amplitude ao Dia do Samba. Para contar com uma
melhor estrutura, o sambista firmou parceiria com a Ufba, por meio da tevê da
universidade, coordenada pelo diretor teatral e produtor cultural Paulo
Dourado. A gente vai ter uma mesa eclética para discutir com escolas normais,
escolas de samba, afro, do candomblé. É preciso que se mostre também a história
e as perspectivas do samba em um lado acadêmico, afirma Dourado, diretor de
produção do evento.
Uma das mesas-redondas, por exemplo, vai adicionar um ingrediente mais polêmico
ao debate sobre a origem do samba, se carioca ou baiana. O jornalista e
pesquisador gaúcho Fabio Gomes levanta a possibilidade do ritmo ter berço
indígena e afirma seu nascimento com a tribo dos kiriris, que utilizavam uma
configuração de festa em roda, com solista e refrão fixo e instrumentos,
presenteados pelos portugueses, já parecidos com o samba. O primeiro registro
da palavra samba é em uma gramática portuguesa de 1699, como sinônimo de
cágado. O termo vem de sambahó, que era festa onde os kiriris comiam o cágado e
bebiam, enquanto cantavam e dançavam músicas ao som de instrumentos como viola,
pandeiro, flauta, tamborim e maracá, conta o pesquisador por telefone.
O debate O samba indígena acontece logo no primeiro dia do evento e Fabio Gomes
divide a mesa com o professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
Ufba Milton Moura e o sambista carioca Luiz Carlos da Vila. Amanhã, O samba da
Bahia será o tema abordado pelo pesquisador e radialista Perfilino Neto, pelo
cantor e compositor Walmir Lima e pelo historiador e professor Waldir Freitas
de Oliveira. No dia seguinte, O samba no candomblé da Bahia terá como
convidados o antropólogo Ordep Serra, o historiador Jaime Sodré, o músico
Esmeraldo Emetério e a percussionista Mônica Millet, neta de Mãe Menininha do
Gantois. Encerrando o ciclo de debates, na sexta-feira, o professor e
pesquisador da história da MPB Luiz Américo Lisboa Júnior, o compositor José
Carlos Capinan e o músico e produtor cultural Alaor Macedo debatem as
Perspectivas do samba.
A festa do Dia do Samba já acontece desde 1972 e Pacheco organiza pela vigésima
vez consecutiva. Ele destaca que a celebração baiana já virou modelo para o
país. Hoje, temos apoio suficiente para realizar a festa, antigamente o
pessoal vinha pela amizade. A Bahia criou uma festa que já foi exportada para
outros lugares, declara. Os músicos baianos ainda não estão indo participar
dos eventos fora daqui, mas não tenho dúvida que logo logo a gente está tocando
por lá, enfatiza. O importante é que o samba está na moda, Luiz Melodia,
Zélia Duncan e Maria Rita, por exemplo, gravaram disco só com o ritmo.
Com 71 anos de idade e quase 50 de samba, o baterista e compositor Wilson das
Neves discorda de Pacheco. O samba nunca sai de cartaz. Quem sabe fazer, faz.
As pessoas que não sabem, é só prestar atenção. O pessoal tá sempre produzindo,
só falta oportunidade. Todo dia nasce um sambista, salienta. É a primeira vez
que o músico vem a Salvador para a comemoração. Só em ser lembrado, já
agradeço. Na minha idade, não posso me queixar, afirma o músico, que
atualmente faz parte da banda de Chico Buarque. Seo das Neves, como é
conhecido, declara que, mesmo com todo o tempo de carreira, o tesão de tocar
ainda é igual. Toda vez que você faz aquilo que gosta é um prazer, garante o
músico.
Durante a festa, a TV Ufba pretende gravar um documentário sobre o Dia do Samba
na Bahia. A equipe já havia produzido um DVD semelhante em 2005. A intenção é
registrar o samba como história e mostrá-lo como símbolo cultural da identidade
brasileira. Precisamos valorizar os aspectos culturais e antropológicos do
samba. Ele narra a história dos escravos, do país. O samba é testemunha da
diáspora africana para o Brasil, declara Dourado. Depois de pronto, o DVD do
documentário será distribuído gratuitamente para escolas e entidades culturais.
***
Programação
Ciclo de debates
(Salão dos Espelhos do Palácio Rio Branco, Praça Municipal, às 17h)
Hoje: O samba indígena (Fabio Gomes, Luis Carlos da Vila e Milton Moura)
Amanhã: O samba da Bahia (Perfilino Neto, Walmir Lima, Waldir Freitas de
Oliveira)
Quinta-feira: O samba no candomblé da Bahia (Ordep Serra, Jaime Sodré,
Esmeraldo Emetério e Mônica Millet)
Sexta-feira: Perspectivas do samba (Luiz Américo Lisboa Júnior, José Carlos
Capinan e Alaor Macedo)
Shows
(Praça Municipal)
Sábado: Wilson das Neves, Gerônimo, Clarindo Silva, Bule-Blue, Roberto Mendes e
Gêge de Nagô, às 17h
Domingo: Gilberto Gil, Luiz Melodia, Dona Ivone Lara, Neguinho da Beija-Flor,
Wilson das Neves, Nei Lopes, Nelson Rufino, Mariene de Castro, Paulinho Boca de
Cantor, Walter Queiroz, Gerônimo, Edil Pacheco, Vevé, às 16h"
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