Aí está um exemplo, de um músico com m maiúsculo, que acredita naquela idéia
de que "o músico tem que ir aonde o povo está", esse é o verdadeiro espírito
da coisa. Eu encontrei certa vez os dois nas ladeiras de Olinda no meio do
povo curtindo um resto de carnaval de uma quarta-feira de cinzas no encontro
de bois (para mim o melhor do carnaval de Olinda), é mesmo admirável a
simplicidade e o gosto pelas coisas boas do nosso povo. Parabéns aos dois.
Abraços.
Caio Pontual
----- Original Message -----
From: "Sonia Palhares Marinho" <[EMAIL PROTECTED]>
To: <[email protected]>
Sent: Sunday, January 06, 2008 1:52 AM
Subject: [S-C] Samba e forró, uma coisa só (Brazilian Voice)
Fonte:
http://www.brazilianvoice.com/mostracolunas.php?colunista=Aquiles%20Reis&id=1002&cc=
Samba e forró, uma coisa só
Por: Aquiles Reis
O forró bem que estava precisando de quem o levasse novamente ao lugar de
destaque que lhe cabe na música brasileira. Coube a Josildo Sá ser o cara.
Forrozeiro popular no Recife, ele demonstra que ainda há muito para se fazer
e recriar na música, desde o samba até o forró.
Faz tempo não se tem um trabalho tão bom de se ouvir quanto de se dançar,
como este CD Samba de Latada (Rob Digital). Além de contar com uma voz
personalíssima, talhada para o ofício, Josildo compõe bem. São dele duas das
faixas do CD: “Na Água do Bebedouro” e “Quixabinha”, esta em parceria com
Anchieta Dali, que também compôs “Fulosinha” e “Beijú”. O repertório é
perfeito para o que ele se propôs a cantar. Tem bambas do gênero, Gonzagão e
Zé Dantas (“Forró de Mané Vito”), além de Cecéu (“Pra Virar Lobisomem”). E
também conterrâneos seus, pouco conhecidos, mas igualmente competentes:
Caçote do Rojão (“Eu Gosto de Você”), Thiago Duarte (“Pro Paulo”), Oswaldo
Oliveira e Dílson Dória (“Fraguei”) e Apolônio da Quixabinha (“Cumpade Zé de
Bina”). Josildo se destaca em “Quixabinha”, “Fraguei”, “Fulosinha” e “Nega
Buliçosa”.
Além do jeitão irreverente de cantar, Josildo tinha na cabeça o projeto de
cantar samba como se faz nas latadas das casas do sertão nordestino.
(“Latada” é aquele puxadinho que se constrói, no caso com folha de flandres,
para proteger o quintal da casa da chuva e do sol). Ele encasquetou que
tinha porque tinha de dizer ao público que samba e forró têm o mesmo
significado musical e são a fiel tradução da festa armada na latada para se
tocar, dançar e cantar música brasileira. Apenas tudo isso.
Mas para tocar o sonho pra frente, Josildo queria muito mais. Pois não foi
que o cabra deu de convidar ninguém menos do que Paulo Moura para dividir
com ele o seu Samba de Latada. Endoidou o forrozeiro!, imaginaram os
céticos. A esses, mestre Paulo calou com um sonoro sim! Encantado, logo seu
clarinete soprava os sons que misturavam samba e forró; gafieira e
forrobodó; passado e modernidade.
Estava formada a dupla que voltaria se reunir lá mesmo no Recife para muito
ensaiar e criar o disco que agora vem a público graças ao apoio do Governo
de Pernambuco e da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf).
Paulo Moura é desses camaradas que se fazem ainda mais geniais em seu
instrumento graças à imensidão de sua generosidade e de sua vocação para o
risco. Quando pouca gente tinha peito para encarar as madrugadas tocando
numa gafieira pós-moderna (e não foram poucos os craques que gentilmente
recusaram seu convite para uma simples canja), lá estava o maestro Paulo
Moura à frente de uma orquestra, no carioca Circo Voador. Feliz, tocando pra
moçada se esbaldar de tanto suar, de tanto se esfregar dançando, se
divertindo, enquanto ouvia harmonias e arranjos tão modernos quanto a
ousadia do Paulo.
E feliz está novamente o maestro genial. Revigorado pelo Samba de Latada, e
também pela presença marcante de Josildo Sá, o som de seu clarinete
transparente sai ainda mais alegre, ainda mais virtuoso e cheio de síncope e
de improviso, pleno de maciez e de manha.
Paulo Moura sola três músicas do CD: “Pro Paulo” (Chico Chagas), “Baile no
Sertão” (dele e Gennaro) e “Carimbó do Moura” (só dele). Na primeira, seu
clarinete está irresistível: da introdução até a entrada dos músicos, tudo é
modernidade envolta pela mais fiel tradição musical brasileira. Mas é no
diálogo entre o clarinete e a zabumba de Raminho que o bicho pega, num dos
momentos de improviso mais brilhantes já registrados na (pouca) discografia
disponível do forró.
Samba de Latada é um CD que traz em suas 13 faixas a amostragem do quão
diversificada é a música brasileira; do quanto podem ser mais criativos dois
músicos de formação díspar quando se fortalecem no som que vem de suas
genialidades.
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