Fonte: 
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=301&Artigo_ID=4699&IDCategoria=5362&reftype=2
 
 
 
Eu Sou da Lira. Não Posso Negar 
 
 
Movida a paixões 
 
 
Chiquinha Gonzaga rompeu padrões em nome de suas paixões: pela música, por 
desejar mais de sua condição do que a sociedade esperava de uma mulher, por 
seus amores proibidos. Foi renegada pela família, mas viveu intensamente a 
vida. O próprio nascimento, em 17 de outubro de 1847, significou a quebra de um 
tabu. A mãe, Rosa, pobre e mulata, casou-se grávida com o militar José Basileu 
Neves Gonzaga, que, contrariando as determinações de sua família, assumiu a 
menina como filha. 
 
A partir daí, Francisca Edwiges Neves Gonzaga foi criada de acordo com os 
costumes do Rio de Janeiro imperial. "Chiquinha foi educada em um lar 
tradicional e a ascendência humilde de sua mãe foi excluída de seu registro de 
nascimento por seu pai, para garantir-lhe um bom casamento", explica a 
socióloga Edinha Diniz, autora da biografia Chiquinha Gonzaga: uma História de 
Vida (Rosa dos Tempos, 1999). 
 
No meio da sala havia um piano
 
Assim como em toda casa de família proeminente do século 19, no lar dos Gonzaga 
havia um piano - símbolo de refinamento e status. A menina aprendeu a tocá-lo 
cedo, antes dos 10 anos de idade. Aos 11, apresentou sua primeira composição, 
Canção dos Pastores, em uma festa de Natal, acompanhada pelo irmão Juca e pelo 
tio e padrinho, Antônio Eliseu, flautista e músico popular. 
 
Cumprindo a determinação de arranjar-lhe um casamento nobre, José Basileu 
uniu-a ao jovem e promissor Jacintho Ribeiro do Amaral quando ela tinha 16 
anos, mas "a aproximação com a música logo lhe causou problemas conjugais", 
revela Edinha. Em entrevista ao documentário Chiquinha Gonzaga: A Primeira 
Maestrina do Brasil, dirigido por Guilherme Fontes - e disponível no endereço 
eletrônico www.chiquinhagonzaga.com -, o musicólogo Ary Vasconcelos conta que o 
marido de Chiquinha tentou afastá-la da música, chegando a levá-la junto com 
ele para a Guerra do Paraguai. 
 
"Mas isso não deteve Chiquinha. Uma vez distante do piano, ela tratou de 
arrumar um violão para tocar a bordo", diz. O tumultuado casamento não foi 
muito longe - ao menos para os padrões da época, que previam enlaces 
matrimoniais até a morte. "Após cinco anos de casamento e três filhos, ela 
decidiu sair de casa, para o desgosto da família, que a deu como morta", afirma 
Edinha. "Separação naquele tempo era sinônimo de marginalização."
 
O preço da fama
 
Aos 22 anos, Chiquinha começa a viver do próprio trabalho, compondo e dando 
aulas de piano - algo impensável para uma mulher de seu nível social. É quando 
decide morar com o bon vivant João Batista de Carvalho, conhecido como 
Carvalhinho, com quem teve uma filha, Alice. Desnecessário dizer que a união 
provocou escândalo geral. O casal mudou-se, então, do Rio de Janeiro para o 
interior de Minas Gerais, em busca de sossego.
 
Porém, pouco tempo depois, Chiquinha volta para o Rio, desiludida com 
Carvalhinho e convicta de que não nascera para o casamento. "Ela passa a tocar 
em bailes e salões", explica a pianista e intérprete das músicas de Chiquinha, 
Clara Sverner. "Mas sua música, fortemente influenciada pelos ritmos europeus, 
começa já nessa época a se misturar com o som que vinha das ruas." 
 
Em 1887, veio o primeiro sucesso, a polca Atraente, vendida em edição luxuosa e 
com direito a retrato da artista na capa. Atraente foi exaustivamente assoviada 
pelas ruas do Rio de Janeiro, principal forma de popularização da música na 
época. Chiquinha Gonzaga se torna conhecida, provocando a ira da família, que 
destrói suas partituras postas à venda e a proíbe de ver a filha Maria.
 
O feminino de maestro 
 
Quando o teatro de revista chegou ao Brasil, ela percebeu que podia fazer 
música para aquele tipo de espetáculo. No entanto, ao compor para a peça Viagem 
ao Parnaso, de Arthur Azevedo, no início dos anos 1880, teve seu trabalho 
recusado por preconceito. "O empresário do espetáculo pediu que ela usasse um 
pseudônimo masculino, mas Chiquinha apenas pegou suas partituras e foi embora", 
explica Edinha Diniz. 
 
Acostumada a contornar as dificuldades, dois anos depois, em 1885, fez sua 
estréia com a peça A Corte na Roça, de Palhares Ribeiro. Em sua segunda peça, A 
Filha do Guedes, uma surpresa: além de compor, ainda se atreveu a reger. Mais 
uma celeuma era criada em torno dela - a começar pelo fato de que, até então, 
ninguém conhecia o feminino da palavra maestro. "A imprensa chegou a chamá-la 
de 'maestra', até encontrar a palavra correta, maestrina", ressalta Edinha. 
 
Em 1899, aos 52 anos, Chiquinha compôs aquela que, até hoje, é sua obra mais 
conhecida, a marcha carnavalesca Ó Abre Alas, dedicada ao cordão Rosa de Ouro. 
A canção é considerada por estudiosos como um dos grandes exemplos de sua 
postura vanguardista. "Ela antecipou em 18 anos o estabelecimento da marcha 
como ritmo oficial do Carnaval", explica o musicólogo Jair Severino. 
 
Naquele mesmo ano, Chiquinha conheceu o português João Batista Fernandes Lage, 
um jovem de 16 anos, e começou a viver com ele. Para evitar uma reação violenta 
da sociedade, a compositora passou uma temporada em Portugal e voltou 
apresentando o companheiro como filho. A relação durou até a morte da artista.
 
Elo perdido
 
O pioneirismo de Chiquinha Gonzaga extrapolou o âmbito musical e pessoal e 
rendeu muitas histórias. "Ela se envolveu em todas as causas sociais de seu 
tempo, como a abolição da escravatura e a proclamação da República", declara 
Edinha. O compositor e ator Mario Lago, em entrevista ao documentário de 
Guilherme Fontes, conta que chegou a conhecer Chiquinha e ressalta seu lado 
participativo. 
 
"Ela foi pioneira em estimular a participação do artista na política", afirma. 
Em 1911, a compositora se envolveu em uma nova causa, a defesa dos direitos 
autorais. Ela foi despertada para o tema depois de encontrar partituras suas 
sendo vendidas sem crédito em Berlim e perceber que quem realmente lucrava com 
os espetáculos eram os empresários e não os artistas. 
 
Em 1917, é então fundada a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat). 
"Chiquinha foi sua idealizadora e primeira associada", garante a biógrafa. O 
episódio envolvendo o maxixe Corta Jaca também ilustra o tipo de reação que a 
figura e a música de Chiquinha eram capazes de provocar. Segundo Edinha, em 
1914, a então primeira-dama da República, Nair de Tefé, esposa do marechal 
Hermes da Fonseca, resolveu incluir a composição na programação de uma recepção 
no Palácio do Catete, sede do governo federal. 
 
A própria primeira-dama, numa tentativa de inserir a música popular em 
ambientes mais formais, executou a peça ao violão - instrumento que não era 
bem-visto pela sociedade no início do século 20. O então senador Rui Barbosa 
reagiu com virulência ao "atrevimento", defendendo que aquele tipo de música 
jamais seria adequado a ambientes ditos "de respeito".
 
Para a socióloga, embora Chiquinha Gonzaga tenha criado 77 peças de teatro e 
mais de 2 mil composições, a amplitude de seu legado permanece desconhecida 
para o grande público. "Uma das razões de sua música não ter ficado marcada - 
como aconteceu com o samba, por exemplo - se deve às características dela, de 
ser uma transição entre ritmos europeus e brasileiros", explica. 
 
"A marcha Ó Abre Alas nunca foi esquecida, mas muitos acham que se trata de uma 
composição de domínio público. Sua obra é como um 'elo perdido' entre a música 
européia e o samba, e deve ser estudada a partir dessa perspectiva."
 
Para o musicólogo Jairo Severino, Chiquinha e seus parceiros, Ernesto Nazaré e 
Anacleto de Medeiros, são responsáveis pelo 'abrasileiramento' da música tocada 
nos salões no fim do século 19. "Chiquinha compôs muitas polcas que, tocadas à 
moda brasileira, viraram choros", revela. A primeira maestrina brasileira 
morreu em 28 de fevereiro de 1935, durante o Carnaval, no Rio de Janeiro. 
 
 
 
Mulheres modernas 
 
 
Uma rápida revisão da condição das mulheres da época de Chiquinha Gonzaga ajuda 
a entender quão pioneira, inovadora e ousada foi a compositora. Durante o 
período conhecido como Brasil Colônia, de 1500 a 1822, era praticamente 
impossível uma mulher conseguir fugir do padrão "esposa e mãe". Afinal, a única 
instrução que recebia era sobre tarefas domésticas. 
 
Maria Amélia de Almeida Teles, autora do livro Breve História do Feminismo no 
Brasil (Brasiliense, 1993), conta que as mulheres que se "rebelavam" eram 
mandadas para conventos, destino comum também àquelas que não conseguiam 
arranjar casamento. Depois da declaração da Independência, em 1822, algumas 
mulheres começaram, timidamente, a reivindicar o direito à educação. 
 
"Permissão" concedida, mas com restrições. As alunas só estudavam até o 1º grau 
e, em matemática, só aprendiam as quatro operações. Na obra, Maria Amélia 
informa que na metade do século 19 havia no Rio de Janeiro 17 escolas primárias 
para meninos e apenas nove para meninas. A partir de 1850, campanhas pela 
abolição da escravatura e pela proclamação da República começaram a eclodir e 
algumas mulheres, incluindo Chiquinha Gonzaga, passaram a participar dos 
movimentos. 
 
Segundo Edinha Diniz, autora da biografia Chiquinha Gonzaga: uma História de 
Vida (Rosa dos Tempos, 1999), a maestrina chegou a alforriar pessoalmente um 
escravo com o dinheiro que juntou com a venda de suas partituras. Chiquinha 
Gonzaga fez parte de um grupo diminuto, mas formado por mulheres poderosas, 
entre elas a feminista Nísia Floresta, a romancista Maria Firmina dos Reis, a 
jornalista Narcisa Amália e a bailarina Maria Baderna (aquela mesma que deu 
origem ao termo que hoje significa "bagunça"). 
 
Por outro lado, a maioria das "senhoras de família" achava Chiquinha uma 
aberração. "Chegavam a vaiá-la na rua quando a viam usando um lenço amarrado 
nos cabelos em vez do tradicional chapéu", afirma a atriz Rosamaria Murtinho, 
que interpretou a musicista na peça Ó Abre Alas, em 1998, no documentário 
Chiquinha Gonzaga: A Primeira Maestrina do Brasil, dirigido por Guilherme 
Fontes - disponível no endereço eletrônico www.chiquinhagonzaga.com.
 
Apesar de ter dado um passo importante em direção à emancipação feminina, 
Chiquinha escandalizou mais do que serviu de exemplo imediato, na opinião de 
Edinha. "Tanto que demoramos para ter outra compositora no país, que foi 
Dolores Duran."
 
 
 
Arrasta-pé
 
 
Na época em que foi escrito, em 1912, o musical Forrobodó (foto) - com música 
de Chiquinha Gonzaga e texto de Carlos Bettencourt e Luiz Peixoto - não recebeu 
muito crédito por parte dos produtores. Depois de a própria Chiquinha Gonzaga 
muito insistir, concordaram em colocá-lo em cartaz, mas por apenas uma semana. 
A peça, no entanto, foi sucesso absoluto de público e somou 1.500 
apresentações, tornando-se o maior sucesso teatral da compositora. 
 
Com o objetivo de lembrar o episódio e trazer a público a música de Chiquinha 
Gonzaga, o Sesc Vila Mariana remontou Forrobodó, com alunos do seu centro de 
música e também do Centro Universitário Belas Artes - uma parceria que já dura 
três anos. 
 
O espetáculo, apresentado nos dias 5 e 6 de dezembro, é uma comédia musical em 
três atos que revela os costumes cariocas do início do século 20, abordando o 
comportamento das camadas mais baixas da sociedade da então capital federal sob 
o ponto de vista das elites da época. Toda a trama acontece em torno de dois 
grandes eventos, um roubo de galinhas e um grande baile, em que serão 
apresentados todos os personagens e é desenvolvido o enredo. 
 
A montagem teve coordenação vocal de Gisele Cruz e Eduardo Gonçalves, concepção 
coreográfica de Juçara Amaral e direção cênica do ator e diretor André Garolli.
 


_________________________________________________________________
Veja mapas e encontre as melhores rotas para fugir do trânsito com o Live 
Search Maps!
http://www.livemaps.com.br/index.aspx?tr=true
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia  as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta

Responder a