Bom, como quase ninguém (salve Alex) nessa lista se pronuncia a respeito do
falecimento de um dos mais respeitáveis violonistas do país, reproduzo abaixo
um texto de um grande amigo meu, super cantor e jornalista - Roberto Mahn. Na
minha opinião, uma importante lista como esta que discute assuntos muitas vezes
brochantes, deixar passar a morte do Rago quase em branco é inaceitável.
Antonio Rago merece dias respeitosos de luto (tudo bem que no Brasil só Ernesto
Geisel e a corja ganha essas coisas...). Aos que não conhecem a obra e a
história dessa criatura, aqui vai pelo menos um pouquinho dela!
Um abraço a todos.
ADEUS, ANTONIO RAGO
Justamente no dia em que a cidade de São Paulo completou 454 anos, na
sexta-feira passada, um dos maiores artistas paulistanos se aposentou para
sempre. Aos 91 anos de idade, o violonista Antonio Rago faleceu, vítima de uma
pneumonia. Foi a despedida de um dos últimos representantes vivos da era de
ouro da música popular brasileira.
Nascido no tradicional bairro da Bela Vista - mais conhecido como "Bixiga" -,
filho de calabreses, Antonio Rago se apaixonou pelo violão em 1924, quando
tinha apenas oito anos. Na ocasião, a cidade de São Paulo envolvera-se numa
revolução contra as forças do governo federal. Para distrair a família Rago,
que estava escondida no porão da modesta casa em que viviam no Bixiga, um amigo
tocava o violão. O menino, carinhosamente chamado de "Raguinho", assistia o
rapaz com os olhos brilhando. Tomou gosto pelo instrumento e logo passou a
fazer aulas. Aos poucos, começava a tocar entre amigos e em festas, apesar do
preconceito social da época, pois segundo ele mesmo dizia, "antigamente
violonista tinha fama de vagabundo, malandrão".
Para que se quebrasse o preconceito, foi preciso que muitos artistas
demonstrassem a exuberância do instrumento, e um deles foi Antonio Rago, que
persistiu em seu propósito. O primeiro contrato profissional veio somente em
1935, pela Rádio Cultura de São Paulo, atual Rádio Gazeta. No ano seguinte,
quando tinha apenas dezenove anos, ele e o cantor Arnaldo Pescuma foram
convidados a fazer uma temporada na Argentina. A primeira viagem internacional
foi o início de uma carreira gloriosa. Na Rádio Belgrano, de Buenos Aires, Rago
ficou por mais de um ano e atuou junto com grandes artistas da música
argentina, como Libertad Lamarque e Mercedes Simone. Ganhou, por essa época, o
epíteto de "Mago do Violão".
Mas foi a partir dos anos 40, quando foi convidado para comandar o regional da
Rádio Tupi de São Paulo, que o violonista fez história. "Rago e Seu Regional"
foi um dos maiores conjuntos de São Paulo. Apresentava choros, boleros e
acompanhava cantores. O grande diferencial era o violão elétrico de Rago, que
afirmava ter sido o introdutor do instrumento no Brasil. Foi, sem dúvida, o seu
maior divulgador. Além do violão elétrico de Rago, o conjunto possuía uma
excelente formação: Esmeraldino Salles no cavaquinho, Orlando Silveira no
acordeom e Siles na clarineta, entre outros lendários instrumentistas. "Rago e
Seu Regional" conquistou em 1950 o cobiçado troféu Roquete Pinto, que era dado
aos melhores do rádio. Para não se duvidar da competência do conjunto, basta
lembrar que os maiores artistas do Brasil cantaram com "Rago e Seu Regional":
nomes como Orlando Silva, Silvio Caldas, Isaurinha Garcia, Carlos Galhardo e a
dupla Cascatinha e Inhana.
E foi também o regional de Rago que acompanhou o célebre cantor Francisco Alves
na sua última apresentação, realizada no Largo da Concórdia, em São Paulo, na
noite de 26 de setembro de 1952. No dia seguinte, como a história conta, o "Rei
da Voz" partiu rumo ao Rio de Janeiro com seu Buick preto pela Rodovia
Presidente Dutra e foi surpreendido por um caminhão que entrou na contramão,
morrendo tragicamente. Rago contava que tentou convencer o cantor a não viajar
para o Rio, pois havia um novo show marcado em São Paulo dois dias depois. Mas,
de acordo com o violonista, Chico Alves era teimoso, e se foi para nunca mais
voltar.
Ainda nos anos 50, Antonio Rago participou da inauguração da TV Tupi,
tornando-se o primeiro violonista da América Latina a atuar na televisão. Ele
dirigiu o primeiro programa musical da emissora, "Encontro Musical Aliança",
que contava com a então somente cantora Hebe Camargo, além dos convidados que
variavam a cada semana.
Depois que o seu regional se desfez, Rago passou a se apresentar como solista
de violão, onde lançou vários discos interpretando obras de grandes violonistas
como Américo Jacomino, seu maior ídolo, além de composições próprias. Criou e
passou a apresentar então o programa radiofônico "Um cigarro, um violão", que
foi transmitido por várias emissoras do estado de São Paulo. Até pouco tempo
antes de ficar debilitado, continuava se apresentando na Rádio Atlântica de
Santos, onde possuía um programa semanal.
Tive a honra de conhecê-lo e de cantar ao lado de Rago algumas vezes, num
restaurante do Bixiga. O violonista nunca abandonou seu ninho: estava sempre
por lá, no bairro que nasceu e que sempre amou. Era de praxe encontrá-lo, em
qualquer dia de semana à noite, tocando o seu famoso violão em algum
restaurante ou casa noturna do Bixiga. Tinha o hábito de pedir silêncio fazendo
"chiu" com a boca, no que era atendido prontamente. Afinal, era preciso
silêncio para ouvir o "Mago do Violão". Com sua morte, resta aos seus amigos e
admiradores dedicar ao grande Antonio Rago a frase que batizou sua mais famosa
composição: "Jamais te esquecerei".
Roberto Saglietti Mahn seresteiro e jornalista
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