Brasília, terça-feira, 29 de janeiro de 2008
A nova cara dos velhos carnavais
Artistas da cena pop juntam-se a veteranos da MPB em dois CDs com releituras de
antigos frevos e sambas-enredos
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Teresa Albuquerque
Da equipe do Correio
Em Frevo do mundo, boa antologia que chega às lojas nesta semana, a maioria das
14 faixas foi composta na década de 1950. Em Aula de samba – A história do
Brasil através do samba-enredo, CD produzido por Mart’nália, a música mais
recente é de 1973. Parou por quê? Martinho da Vila reclama das chamadas
“firmas”, dos compositores que se juntam a dirigentes de escolas para ganhar
sambas nas quadras, sem as melodias ricas e as imagens poéticas dos velhos
carnavais. Já o frevo, muitas vezes considerado gênero esgotado, pouco afeito a
inovações, ganha frescor no disco idealizado por Marcelo Soares, diretor do
selo recifense Candeeiro, e Pupillo, da banda Nação Zumbi.
“Não tínhamos a pretensão de renovar o gênero, mas o fato de fazer diferente já
traz uma novidade”, diz Soares, que estreou seu Candeeiro em 1999, com Baião de
viramundo – Um tributo a Luiz Gonzaga. “Queríamos homenagear os 100 anos do
frevo com releituras de clássicos feitas por esses artistas. A sacada foi a
liberdade de trazer as músicas para a estética de cada intérprete. Colocamos as
orquestrações dos maestros em cima dos arranjos de base que os convidados
fizeram.”
Além de nomes fortes da cena pernambucana, como mundo livre s/a e Cordel do
Fogo Encantado, foram convidados para o CD a cantora paulista Céu, os cariocas
da Orquestra Imperial e os mestres Edu Lobo e João Donato. “Sugerimos a maior
parte das músicas, mas houve casos, como o de Edu Lobo, de o convidado escolher
o que queria”, conta Soares. A idéia era que Edu interpretasse alguma música do
pai, o pernambucano Fernando Lobo. Mas ele preferiu Recife (Frevo nº 1), de
Antonio Maria. Siba, por sua vez, gravou uma que já era de seu repertório com a
Fuloresta, Os melhores dias de minha vida, de Capiba. E Isaar de França, a
vocalista de DJ Dolores, ficou com um frevo que tinha cantado no carnaval
passado: Paraquedista, de Roberto Bozan. Para o resto, foi novidade, mesmo.
China e o Sunga Trio fazem uma versão esperta de Oh! Bela, de Capiba – de
“roupagem popularesca, mistura de Daftpunk, Kelly Key e Capiba”, como brinca o
vocalista. E enquanto Ortinho (ex-Querosene Jacaré) altera o andamento da
divertida Só presta quente, de Dozinho (“Sopa, café e mulher/ Pra mim, só
presta quente”), o Cordel do Fogo Encantado carrega no peso de Saudade, dos
Irmãos Valença. Já a banda Eddie, de Fábio Trummer, junta-se ao saxofonista e
maestro Spok (da Spok Frevo Orquestra) para dar pitadas de ska ao frevo-canção
É de fazer chorar, de Luiz Bandeira.
A única composição recente é Metendo antraz, de Laércio Guedes: “A guerra
começou, eu quero paz/ Seu terrorista (assim não dá)/ Não meta antraz”. Escrita
depois do atentado ao World Trade Center, é (bem) defendida por Fred Zero
Quatro e seu mundo livre, com arranjos do maestro Ademir Araújo. Mais sóbria,
Céu aparece em Frevo de saudade, de Nelson Ferreira e Ademar Paiva, com
discretas batidas eletrônicas do 3 na Massa, trio formado por Rica Amabis
(Instituto), Pupillo e Dengue (Nação Zumbi). Também cai mansinha a leitura da
Orquestra Imperial, na voz tristonha de Rodrigo Amarante, para outra música de
Nelson Ferreira, O dia vem raiando.
Peixe fora d’água, mas sempre genial, João Donato, só no sapatinho, faz do
frenético Fogão, composto por Sérgio Lisboa em 1953, quase um chachachá. “O
arranjo ficou em banho-maria porque não tenho a fervura do Recife e o meu piano
é lacônico”, justifica. Outro tema instrumental do disco, Isquenta muié (mais
um de Nelson Ferreira), na versão da banda Flor de Cactus, vem com a viola
fazendo o fraseado do sax, e a flauta no lugar dos metais, “numa sonoridade de
bandinha de interior”, como observa Cacá Barreto, baixista do grupo e um dos
produtores do CD.
A flauta também marca a releitura de Papel crepom (de Almira Castilho e Paulo
Gracindo) feita por Erasto Vasconcelos (que também teve disco lançado pelo
Candeeiro, assim como DJ Dolores e China). No fim, Cabelo de fogo, de Maestro
Nunes, aqui nos metais da Orquestra da Bomba do Hemetério, abafa o som de
qualquer bloco que se atrever a concorrente.
Samba-enredo
Outro time eclético foi reunido em Aula de samba – A história do Brasil através
do samba-enredo, projeto de Mart’nália e do irmão Martinho Filho. Bons alunos
de história, os filhos de Martinho da Vila saíam-se bem nas provas da escola
não por serem exatamente estudiosos. Sabiam, isso sim, muitos sambas-enredos.
Aqueles que lembravam os heróis brasileiros – e que, de tão bons, o pai deles
duvida que vencessem qualquer concurso hoje em dia.
Interessada em apresentar esses sambas às novas gerações, Mart’nália selecionou
12 deles e chamou uma turma pop para interpretá-los: Moska, Lenine, Toni
Garrido, Zélia Duncan, Fernanda Abreu, Maria Rita. Acabou sentindo falta de
sambistas e convidou Dona Ivone Lara para dividir Os cinco bailes da história
do Rio (1965) com o vocalista do Cidade Negra. Depois que a veterana entrou na
lista, vieram também Alcione, Leci Brandão, Simone e Emílio Santiago. E Chico
Buarque para abrir o CD com Exaltação a Tiradentes, de 1949. É a composição
mais antiga, entre as 12. A mais recente, Os sertões, de 1973, ganhou a voz de
Fernanda Abreu.
Mart’nália, ela própria, não canta no disco. Só aparece como percussionista. O
critério de escolha foi afetivo e, não por coincidência, a maioria dos
sambas-enredos é da década de 1960. O curioso é que não há nenhum que cite o
nome da escola. Apenas Getúlio Vargas, Ruy Barbosa, Oswaldo Cruz, Santos
Dumont, Joaquim José da Silva Xavier, Dona Beja, D. Pedro I etc.
No encarte, Sérgio Cabral conta que a obrigação de abordar o Brasil no enredo
partiu dos compositores, em 1934, quando foi criada a União das Escolas de
Samba. “Foi a maneira que os sambistas encontraram para diferenciar as escolas
de samba dos ranchos, que abordavam a lua, as estrelas, o perfume das flores
etc.”, escreve o pesquisador. A aula, por fim, é boa.
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Marchinha em alta
Clara Arreguy
Da Equipe do Correio
A marchinha, parece, está de novo em alta – o que, para quem gosta de carnaval
de verdade, representa ótima notícia. Depois do musical Sassaricando, que de
espetáculo cênico gerou CD e DVD, é a vez de sair em disco o resultado do 3º
Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas da Fundição Progresso (Prêmio
Lamartine Babo), inclusive com a participação de alguns dos artistas envolvidos
na peça escrita por Sérgio Cabral e Rosa Magalhães. E, por fim mas não menos
importante, chega ao mercado o CD O melhor carnaval do mundo, que reúne
gravações clássicas do gênero.
Os 10 finalistas do concurso da Fundição Progresso integram o CD As melhores
marchinhas do carnaval 2008, ao lado de uma abertura muito apropriada, o Hino
do carnaval brasileiro, nas vozes de Zélia Duncan e Zé Renato, e de Linda
morena, ambas de Lamartine Babo. Entre as concorrentes, a tradição se faz
marcar nos temas críticos aos problemas políticos, raciais e de comportamento.
No primeiro caso, destaque para Amor não me segura, de Marcus Vinícius Monteiro
e Everton Chierici, com Moyséis Marques, que cita até o escândalo do senador
com a bonitona. No segundo, Índio louro com pinta de negão, de e com Eduardo
Dussek, faz troça com a formação multicultural brasileira.
O terceiro quesito aparece sob vários pontos de vista: de Maria do cabelo bom,
de e com João Cavalcanti a Garota piercingada, de Haroldo Bastos e Eros, com
formado por Alfredo del-Penho, Pedro Paulo Malta (ambos do musical
Sassaricando, como Dussek), Bianca Leão e Lali Maia, a O ET de Copacabana, de
Marília Passos Silveira, com Bianca Leão. Tem ainda a homenagem aos grandes
nomes do gênero em Das Vilas, de Paulo Muniz e Roque, com Del-Penho e Mariana
Bernardes e, na temática alcoólica tão marcante no gênero, Volante com cachaça
não combina, de Mauro Diniz e Cláudio Jorge, na voz dos autores.
Já O melhor carnaval do mundo buscou 20 marchas inesquecíveis dos anos 1930 aos
1970 (na mesma linha de Sassaricando), algumas em pot-pourris. Vai das mais
animadas, como O teu cabelo não nega, Linda morena, Allah-lá-ô, Sassaricando,
Mamãe eu quero e Me dá um dinheiro aí, às mais lentas, como Pierrot apaixonado,
Bandeira branca e Máscara negra. Nas interpretações, nomes igualmente de peso,
como Blecaute, Dalva de Oliveira, Gilberto Alves, Lamartine Babo e Carmen
Costa, entre outros.
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_69.htm
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