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CADERNO C
CORREIOBRAZILIENSE
• Brasília, segunda-feira, 3 de março de 2008 • 3
MPB
O COMPOSITOR MAURO DUARTE, MORTO HÁ QUASE 20 ANOS, GANHA TRIBUTO EM CD DUPLO
GRAVADO POR CRISTINA BUARQUE E O GRUPO SAMBA DE FATO
O BAÚ DO BOLACHA
TERESA ALBUQUERQUE
DA EQUIPE DO CORREIO
“Não sei se vou me acostumar/ Mas, se você quer, podeir/ Chorar eu sei que vou/
Mas de implorar você
sabe que eu não sou.” Batucando na mesa, cantarolando baixinho, Mauro Duarte
gravava em fita cassete o mote de mais um samba, para ser terminado depois.
Tinha essa mania de registrar as novas idéias, no gravador ou no papel. Fazia
isso tarde da noite, ao chegar em casa. Depois, esquecia. Por sorte, os filhos
guardavam alguns esboços, como esse aí de cima, que virou vinheta em O samba
informal de Mauro Duarte, CD duplo que Cristina Buarque e o grupo Samba de Fato
lançam pela Deckdisc, quase 20 anos após a morte do compositor.
Mauro Duarte de Oliveira (1930-1989), o Bolacha, virou nome de praça em
Botafogo, no Rio, mas ainda é muito menos conhecido do que merecia. Autor de
sambas como Canto das três raças e de Portela na
avenida, famosos na voz de Clara Nunes, ganhou homenagem do amigo Walter
Alfaiate em 2005 (o CD Tributo a Mauro Duarte), mas nunca havia sido festejado
como agora, nesse álbum duplo produzido por Alfredo Del-Penho.
Entre as 30 faixas, há inéditas (19), raridades, pedaços de música terminados
por Paulo César Pinheiro, o parceiro mais constante, e outras deixadas como
estavam, nas gravações originais, só com a primeira parte. A maioria é de
sambas tristes, daqueles que Cristina gosta tanto de cantar. O Samba de Fato,
que
se reveza com ela nos vocais, é formado por Del-Penho (violão), Pedro Amorim
(bandolim e cavaquinho), Pedro Miranda e Paulino Dias (percussão). São deles
todos os arranjos e instrumentação do disco.
Nascido em Matias Barbosa (MG), Mauro Duarte se mudou com a família para o Rio
em 1940. Tinha 10 anos e foi parar em Botafogo, bairro onde brincou quase 40
carnavais, em blocoscomo Foliões de Botafogo e
Paraíso das Cabrochas, e na escola de samba São Clemente. Lá, em 1947, Bolacha
(o apelido veio do rosto arredondado) conheceu o compadre Walter Alfaiate,
botafoguense também no futebol, parceiro em músicas
como Cuidado, teu orgulho te mata, Sorri de mim e Arroz e feijão. Foi Alfaiate
quem lembrou as melodias de Jeito de cachimbo e Eu não quero saber, anotadas no
caderno de Mauro e agora devidamente registradas – a primeira cantada por
Paulino e a segunda por Del-Penho.
Quando morreu, em 1989, aos 59 anos, Mauro Duarte deixou cerca de 70 músicas
gravadas e mais de 30 inéditas. Algumas em fitas, como as vinhetas que entraram
no CD – Desde que me abandonou; Malandro não tem medo; Não sou de implorar –
com uns poucos versos cantarolados pelo próprio compositor. Outras ficaram só
na memória de amigos, como Alfaiate, Paulo César Pinheiro e Elton Medeiros, ou
dos filhos, que trataram de passá-las adiante nas rodas do Bip Bip, o simpático
botequim de Copacabana, freqüentado por Cristina e a turma do Samba de Fato.
Dez sambas que estavam incompletos no acervo da família foram terminados por
Paulo César Pinheiro em 2006: Sublime primavera; Acerto de contas; Mineiro pau
(provavelmente a última composição de Mauro, uma homenagem ao pai); Falou
demais (parceria com João Nogueira); Samba de botequim; Compaixão; Engano; O
samba que eu lhe fiz; Começo errado e Lamento negro.
No encarte, Pinheiro lembra a falta que o amigo faz: “Foi um dos meus parceiros
mais inspirados e
férteis, e um dos mais queridos. Não há semana em que eu não pense nele. Não há
mesa de bar
em que não o recorde. Às vezes, de falar dele, engasgo, embargo e choro. Quando
bebo, então, e alguém
o lembra, meu olho mareja e a palavra arranha”.
Entre os sambas cantados por Cristina Buarque – que lançou um LP independente
com Mauro Duarte, em 1985 – estão dois que já tinham sido gravados por Ataulfo
Alves Jr.: À procura da felicidade e Tempo de amigo. Mais consideração,
registrada por Mart’nália em 1987, ganha agora a voz de Pedro Miranda, assim
como Sofro tanto, lançada por Cláudia Savaget em 1979. Paulino Dias defende
Morro, única parceria de Mauro com Dona Ivone Lara, gravada há quase 20 anos
por Elza Soares. Pedro Amorim, por sua vez, canta Não sei, dobradinha com Noca
da Portela, originalmente gravada por Sônia Santos em 1975.
Não, nenhuma das músicas famosas de Mauro Duarte entrou no CD. Nem Lama, nem
Portela na avenida, nem Canto das três raças. A proposta, segundo Del-Penho,
era registrar apenas o repertório menos conhecido de Mauro Duarte, o mestre dos
sambas em tom menor. O popular Bolacha, enfim, ganha homenagem à altura.
O BAÚ DO BOLACHA
O SAMBA INFORMAL DE MAURO DUARTE
CD duplo gravado por Cristina Buarque e o grupo Samba de Fato, produzido por
Alfredo Del-Penho.
Lançamento Deckdisc, 30 faixas, R$ 29,90 (www.deckdisc.com).
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