Fonte: 
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2162805-EI6621,00-Geraldo+Pereira+em+CD+da+Revivendo.html


Quarta, 19 de dezembro de 2007, 08h03 


Geraldo Pereira em CD da Revivendo

 
Geraldo Pereira - Sambista maior, com canções do próprio em gravações originais 


Por: Paquito


Em março deste ano, escrevi aqui na minha coluna sobre Assis Valente, autor de 
Boas festas, Camisa listrada e Brasil pandeiro, ressaltando o fato de que as 
canções citadas acima são bastante conhecidas, mas não se sabe ao certo quem é 
o compositor. Ainda hoje recebo alguns emails perguntando como se faz pra 
conhecer melhor Assis e sua obra, ao que respondo que não há um disco decente 
com as canções do baiano, só gravações esparsas.

Ainda não posso dar a boa notícia a respeito de Assis Valente, mas há um outro 
compositor brasileiro da era de ouro da nossa canção que, ao contrário de Noel 
Rosa e Ari Barroso, por exemplo, sempre citados e reconhecidos, padece da mesma 
situação. Quem não conhece Sem compromisso, feita com Nelson Trigueiro, e Falsa 
baiana, ambas gravadas por João Gilberto, a primeira também por Chico Buarque 
no antológico Sinal Fechado (74) e no seu mais recente Dvd? O samba Deixe a 
menina, de Chico, é, inclusive, uma resposta bem humorada à Sem compromisso. 
Quem, no entanto, identifica o autor deste e de outros sambas igualmente bons, 
a exemplo de Escurinho, cantada por Chico Buarque em shows, e Bolinha de papel, 
também gravada por João Gilberto?

O novo lançamento da Revivendo, Geraldo Pereira - Sambista maior, só com 
canções do próprio em gravações originais, é, portanto, motivo pra se 
comemorar. Este mesmo Geraldo Pereira é o autor das canções citadas, presentes 
em qualquer antologia de música brasileira que se preze. Geraldo, criado em 
Mangueira desde os 10 anos, morreu com 37 anos em 1955, ao levar um soco de 
Madame Satã e bater a cabeça na calçada, segundo reza a lenda. Tinha fama de 
brigão, como diz a letra de Escurinho, samba emblemático, mas também de 
elegante, como bom valente do bairro da Lapa. Não era, no entanto, malandro, 
pois trabalhava na limpeza urbana. Desde 1939, quando estreou como compositor, 
gravado por Roberto Paiva, até a época da sua morte, teve canções gravadas por 
Anjos do Inferno, Moreira da Silva, Isaura Garcia, Déo, Aracy de Almeida e Ciro 
Monteiro, a quem chamava de "padrinho" e que pagou as despesas do seu enterro. 
Ciro foi, principalmente, quem mais gravou suas músicas, e o intérprete ideal 
para seus sambas "quebrados", donos de um balanço especial, devido aos 
deslocamentos rítmicos, que dão até hoje a sensação de que as palavras "dançam" 
nas criações do mineiro. Esta diferença, aliada à maneira sucinta de contar 
histórias, é que tornou Geraldo admirado por João Gilberto, que assim se 
referiu a ele, em entrevista a Tárik de Souza, em 1971: "Geraldo Pereira não 
tinha consciência disso, mas foi um inovador de nossa música".

As gravações originais de suas canções são um primor, e pertencem, em sua 
maioria, à década de 40 e 50, quando se cristalizou um padrão radiofônico 
brasileiro, iniciado na década de 30, com as gravações de Carmem Miranda, Mário 
Reis, Chico Alves etc. Os sambas de Pereira, plenos em balanço, vão encontrar 
um lugar, no tocante à crônica social, ao lado dos de Wilson Batista, com quem 
compôs Acertei no milhar, gravada por Moreira da Silva. Geraldo ainda venderia 
pra Moreira outro samba clássico, Na subida do morro, cuja letra descreve com 
humor e violência a ética da malandragem: "Isso não é direito, bater numa 
mulher que não é sua/ deixou a nega quase crua/ no meio da rua, a nega quase 
que virou presunto/ (...) vou lhe mandar para a cidade de pé junto". Estas duas 
faixas, presentes no Cd da Revivendo, se tornarão, pela qualidade, emblemáticas 
do repertório de Moreira da Silva, mas o melhor de Geraldo está nos sambas 
curtos como Sem compromisso, presente no disco na primeira gravação com os 
Anjos do Inferno, inédita em Cd.

Outros destaques do disco são Falsa baiana, com Ciro, e Pode ser, parceria com 
Marino Pinto, interpretada por Isaura Garcia em sua estréia em disco; além de 
Chegou a bonitona, parceria com José Batista, cantada por Blecaute, e a genial 
Onde está a Florisbela, feita com Ari Monteiro, e cantada por Batista de Souza. 
Mas o disco todo é muito bom, pois comporta a variedade da produção deste 
compositor, incluindo ainda sambas-canções, atípicos quando se trata de 
Geraldo, e uma gravação com o próprio, além de intérpretes que não se repetem 
ao longo do Cd - exceto as duas faixas com Moreira da Silva - como Déo, Roberto 
Silva, 4 Ases e 1 Coringa, Orlando Silva, etc. A maioria das gravações, bom que 
se ressalte, é inédita em Cd. Ótimo presente de Natal, portanto!

Parabéns redobrados a Leon Barg, personificação da Revivendo, que me enviou 
este disco via Robinson Roberto, com quem sempre tenho descoberto o caminho das 
pedras e das pérolas. No final, uma sugestão pra Leon: lançar um Cd só com 
canções de Assis Valente, como pedem os internautas ansiosos por conhecê-lo.


Paquito é músico e produtor. 

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