Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/




Com a bênção da rainha


Primeira-dama do samba, Dona Ivone Lara acolhe com afeto a estreante Renata 
Jambeiro, na gravação do primeiro DVD da cantora brasiliense 

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Sérgio Maggio 
Da equipe do Correio 



Renata Jambeiro seguiu intuitivamente um conselho-mestre de Dona Ivone Lara. 
Quase ao fim do show de gravação do primeiro DVD, ela rodopiou no palco, 
encarou a platéia nos olhos e cantou com convicção: “Sou guerreira, filha de 
Ogum com Iansã”. Horas antes do começo do espetáculo, as duas se encontraram no 
foyer do Espaço Brasil Telecom para trocar idéias sobre o samba e suas 
majestosas intérpretes. Diante da primeira-dama, a aprendiz ouviu: 

– Para nós, das antigas, é uma grande coisa abençoar quem dá continuidade ao 
samba. Digo para você: seja uma guerreira, como eu fui. Devagar, observando 
muito, dando corda. Não se acovarde. Se precisar defender o samba, brigue. 
Pinte os canecos – disse Dona Ivone, às gargalhadas. 

– Para mim, que sou frenética e ansiosa, essa é uma aula de sabedoria – 
observou Renata. 

Dona Ivone Lara é mesmo a senhora da razão. Nasceu e cresceu com o samba. 
Compositora, meteu-se no meio masculino dos malandros para reinar com poesia. 
Não lembra de histórias de preconceitos, mas de coleção de vitórias. 

– Eu saía na Império Serrano, no meio das alas das baianas, puxando o samba e 
cuidando da harmonia. Comandava aquelas vozes que pareciam clarins. Depois, 
passei a cantar os meus sambas e de meus amigos. Silas de Oliveira me chamou 
para compor e defender Os cinco bailes da corte ou Os cinco bailes da história 
do Rio. Fiquei surpresa porque o povo de outras escolas vinha torcer por mim. 
Não parei mais. Aí, se seguiram tantas outras intérpretes, como Leci Brandão, 
guerreira, mas ela se acovardou ao aceitar até fazer estágio com a Velha Guarda 
da Mangueira. Estágio de quê? Prova para quê? Eles não fizeram estágio para 
chegar ali – ensina. 

Atrás de Dona Ivone Lara, vem linhagem histórica de mulheres sambistas, que 
desemboca nesta atual geração de meninas, como Renata Jambeiro, que renova as 
rodas Brasil afora. 

– Tem muita gente hoje que põe o chapéu na cabeça e diz que é sambista. O samba 
sempre esteve na minha casa. Meu pai, Luiz Jambeiro, recebia o povo do samba em 
minha casa – orgulha-se Renata. 

– O samba sempre esteve em moda. A diferença é que agora as pessoas que são 
contra o samba não podem fazer nada. Naquela época, a gente cantava e vinha 
muito camarada crente que era príncipe, cheio de gogó para cima. Mas as 
mulheres queriam mesmo era tomar a passarela e enchê-la de samba – confessa a 
veterana. 

Orgulhosa com a carreira que traçou, Dona Ivone Lara gosta que a tratem com 
respeito. Não precisa chamá-la de rainha nem primeira-dama, mas é importante 
saber que se está diante de mulher que ajudou a dimensionar o samba como 
patrimônio imaterial da cultura brasileira. No show do Espaço Brasil Telecom, a 
platéia ficou de pé no momento que ela pisou no palco. Ao sentar-se para 
interpretar pérolas do repertório, Renata Jambeiro surpreendeu Dona Ivone Lara. 

– Na cultura oriental, quando se está diante de um mestre, você tem que ficar 
num patamar abaixo. Se a senhora senta, eu agacho. 

– E se eu deitar? – brinca Dona Ivone Lara. 

– Aí eu desço do palco – brinca Renata. 

Apreciadora do bom samba, Dona Ivone ficou satisfeita com a gravação da canção 
Investida fatal, parceria dela com Bruno Castro e o neto André Lara, no disco 
de Renata Jambeiro. 

– Gostei porque ela pôs um coro bacana. 

Exigente, ela, que foi rainha de bateria num tempo em que o desfile das escolas 
não tinha nada a ver com o império da publicidade, Dona Ivone Lara é crítica 
com as modelos, atrizes e congêneres que fazem de tudo para aparecer à frente 
das câmeras. 

- Tem umas que nem sabem sambar. Bota o pé para cá, outro para lá. A mulher 
dança é jongo. Pelo amor de Deus! 
 

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De malas prontas

Com produção esmerada, Renata Jambeiro terminou a gravação do primeiro DVD com 
um material precioso em mãos. Além da participação de Dona Ivone Lara, que, 
generosa, cantou seis músicas, Renata dividiu os vocais com Tantinho da 
Mangueira, Nilze Carvalho e Leandro Fregonesi. Montou também um repertório 
raro, com ênfase em sambas de terreiro. Com ritmo e domínio corporal (ela 
também é atriz), tomou conta do palco e fez platéia que não conhecia seu 
trabalho exaltar as suas qualidades. 

Com participação de especial coro feminino (Silvana Moura, Cris Pereira e Ana 
Aune) e atores-bailarinos (destaque para o casal Marcelo Amorim e Rachel 
Cardoso, que riscou o palco com gafieira), Renata conduziu, com segurança, show 
com a banda Samba Valente, na especial participação do pai, Luiz Jambeiro. 

Acertou ao emendar sambas ligeiros e de terreiro, escorregando ao eletrizar a 
harmonia do clássico Vatapá, de Dorival Caymmi, e estilizar Feitio de oração, 
de Noel Rosa. Ao final da gravação, fica um pressentimento: Renata Jambeiro tem 
estofo e material para ganhar o Brasil.  
 

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