Fonte:
http://www.culturaemercado.com.br/post/espaco-cultura-do-choro-a-alvorada-brasileira/
Espaço Cultura do Choro - A Alvorada Brasileira
17 de Janeiro de 2009
by Carlos Henrique Machado Freitas
“O período atual do Brasil, especialmente o das artes, é o de nacionalização.
Estamos procurando conformar a produção humana do país com a realidade
nacional. A música popular brasileira é a mais completa, a mais totalmente
nacional, a mais forte criação da nossa raça brasileira. Todo artista
brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira, é um ser eficiente com
valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, se não for um
gênio, é um inútil, um nulo. “E é uma reverendíssima besta”. (Mário de
Andrade).
Há uma coisa muito séria neste país chamada música popular brasileira que a
leviandade institucional, carregada de absoluta ignorância, insiste em
marginalizar, promovendo verdadeira cruzada libertária para o estrangeirismo
barato em detrimento à total independência da sociedade em, pelo menos, dois
séculos da nossa música técnica.
Não posso deixar de dizer da minha emoção, por mais que queira me conter, deste
fato inédito no Brasil, o surgimento do Espaço Cultural do Choro.
Tenho argumentado, de forma crítica e ácida, sobre o absurdo da nossa música,
até hoje, não ter um assento institucional no país. Isso é um assombro!
A não percepção do status produzido pela música brasileira como a verdadeira
identidade deste país, é o tom genérico da universalização inútil, vazia, que
ganha ares de nobreza e abona o seu caráter maldoso e carreirista,
transformando numa sandice o que é considerada hoje como a música oficial neste
país.
O Brasil é, sobretudo, música. A música brasileira é, sobretudo, o choro. O
choro brasileiro é, sobretudo, livre, abrangente, liberto de característica
única. O choro é sim a nossa cara, a nossa pluralidade, o eco de todos os sons
que ouvimos aqui e que vem, há pelo menos duzentos anos, reeditando, através de
novas formas técnicas e de fórmulas conceituais, a sua inesgotável dinâmica.
Ter uma música nacional com tamanha força representativa é algo que poucos
países, ao longo de suas histórias, conseguiram. Ser um mediador científico e,
ao mesmo tempo espontâneo, com tantos sons e linguagens de extrema vivacidade,
é um ineditismo não percebido pelo modernismo barato sustentado pela leviandade
de escolas estéticas que excluem o que é verdadeiramente do Brasil, o que as
torna instituições gélidas e desinteressadas das questões essenciais do país e
do homem brasileiro.
Um monumento como este, assinado por Oscar Niemeyer, erguido em Brasília,
abrangerá, bem mais que a Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello e um palco
à altura da Musica Instrumental brasileira, abrigará toda a singular memória da
nossa música em sua essência através de um arquivo histórico.
O que há de mais monumental em tudo isso, é a compreensão do traçado da
resistência natural do sentimento nacional através da música. O Espaço Cultural
do Choro é o filho bonito e real do Brasil, pois nasce da pluralidade e da
escolha independente do povo brasileiro.
Todas as escolas de música, espanholas, italianas, alemãs, européias de maneira
geral, foram construídas sobre alicerces concretos com bases em suas
realidades. A música brasileira, o Choro, tem bases em sua total liberdade no
chão brasileiro.
Mário de Andrade, a quem tomo como referência, como o principal observador e
conhecedor da nossa história musical, fez observações sobre a nossa necessária
busca pela independência através da música. E diz: “O critério atual da música
brasileira deve ser não filosófico, mas social. Deve ser um critério de
combate. “A força nova que voluntariamente se desperdiça por um motivo que só
pode ser indecoroso (comodidade própria, covardia ou pretensão) é uma força
antinacional e falsificadora. Uma arte nacional não se faz com escolha
discricionária e diletante de elementos: uma arte nacional já está feita na
inconsciência do povo”. (Mário de Andrade).
É por isso que o choro brasileiro sustenta uma incrível vivacidade, de tamanha
envergadura, que ergue no coração do Brasil, ao lado dos três poderes e
ministérios, a força deste sentimento. O Espaço Cultural do Choro é a mais pura
verdade do ambiente artístico brasileiro. O condutor desta nação musical de
tantos sons ancestrais e contemporâneos, o bandolinista e compositor, Henrique
Lima Santos Filho, o Reco do Bandolim, lutou e luta diariamente, de forma
aguerrida, sacrificante e solitária para conquistar este que será,
definitivamente, o assento institucional da nossa música.
Neste novo milênio, o Brasil foi naturalmente jogado às reflexões internas na
observação dos seus ativos e na aquisição de assento no diálogo concreto entre
as nações mais importantes do mundo. E é justamente essa combinação científica
e independência energética e, por conta da sua natureza, é que o Brasil, hoje,
tem voz nas grandes discussões globais. No entanto, sua personalidade como
nação precisa de uma certificação mais contundente em sua linguagem. E é neste
ambiente é que nasce o Espaço Cultural do Choro, na alvorada de um novo país,
para ser, aqui dentro e diante do Estado brasileiro, a instituição com maior
valor representativo, certificando somente o que o choro, na prática já é, um
representante nacional e internacional da mais rica, mais extensa e democrática
linguagem do homem brasileiro. O choro é o povo brasileiro em forma de música.
Espero, sinceramente, que o governo brasileiro, através do Ministério da
Cultura do Brasil, tenha a delicada sensibilidade, percepção e compreensão
capazes de dar a este momento histórico, a importância que este conjunto de
ações refletido no coração das decisões políticas do Brasil, e tenha de fato
assento permanente e apoio irrestrito para o seu fortalecimento e
independência, certificando e incluindo este monumento que é o símbolo da
música brasileira ao seu corpo de ações estratégicas. O Brasil não pode perder
esta oportunidade tão essencial para a sua soberania.
“O critério da música brasileira para a atualidade deve de existir para a
atualidade. A atualidade brasileira se aplica aferradamente a nacionalizar a
nossa manifestação”. (Mário de Andrade).
O que não podemos mais no atual estágio de nação em que se encontra o Brasil, é
repetir erros tão gritantes como no passado, como nos é apresentado em artigo
comovente de Mário de Andrade sobre a luta do nosso maior gênio musical, Villa
Lobos, em artigo publicado no Diário Nacional de São Paulo em 02-07-1930. “Mas
esse artista de uma genialidade que ninguém discute este realmente grande
compositor de uma atividade assombrosa, de quem o Brasil está se beneficiando
imensamente, nós deixamos que debata numa angustiosa vida de aventuras
musicais, virando empresário aqui, virando virtuose de violoncelo noutra parte,
se prendendo à empresas, editoras que o exploram a valer. É certo que todas
essas atrapalhações da vida jamais impedem o verdadeiro artista de produzir
obras geniais. E, de fato, essa desproteção vergonhosa, Villa Lobos responde
nos dando os Choros nº 10, o Amazonas, as Cirandas, as Serestas e outros
monumentos com que o Brasil enriquece a música universal”. (Mário de Andrade).
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