CORREIO BRAZILIENSE
CADERNO C

Tempo de cantar Caymmi

Clube do Choro inicia temporada com shows de grandes artistas brasileiros em 
homenagem ao compositor baiano, morto no ano passado




Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio
Poucas foram as homenagens prestadas a Dorival Caymmi, patriarca da música 
baiana e um dos mais importantes nomes da história da MPB, depois da morte, aos 
94 anos, em agosto de 2008. Um tributo improvável ao compositor partiu, 
recentemente, da banda de folk rock cuiabana Vanguart, que gravou no CD e no 
DVD a serem lançados em breve curiosa versão country do clássico O mar.

Em Brasília, o artista vai ser devidamente reverenciado neste ano. O Clube do 
Choro abre hoje o projeto Dorival para Sempre Caymmi, que prosseguirá até a 
primeira quinzena de dezembro, com shows toda semana, de quarta a sexta-feira, 
protagonizados por alguns dos maiores instrumentistas do país. Quem se 
apresenta na abertura é o mestre do clarinete, Paulo Moura.

Para o presidente do Clube do Choro, Henrique Santos Filho, o Reco do Bandolim, 
Dorival Caymmi representa uma matriz na MPB. “A extraordinária simplicidade 
aliada à excelência das 120 canções que compôs ao longo de sete décadas 
desafiam qualquer classificação ou crítica. Tomada em perspectiva, essa obra 
quase minimalista oferece leitura ao mesmo tempo poética e profunda da alma 
brasileira, formando painel capaz de sintetizar as melhores características do 
nosso povo.”

No decorrer do projeto, as belíssimas canções praieiras, as músicas de forte 
conteúdo social, as feitas para as musas inesquecíveis e as que falam do homem 
do povo e das coisas típicas da Bahia ganharão novas luzes com a descoberta de 
ângulos inéditos e com reinterpretações pelos músicos convidados — craques em 
seus instrumentos, como o trombonista Raul de Souza, o gaitista Rildo Hora, o 
saxofonista Nivaldo Ornelas e o guitarrista Ricardo Silveira, entre outros.

Atração da abertura, de hoje a sexta-feira, às 21h45, Paulo Moura terá a 
companhia de Osmar Milito (piano), Sérgio Barros (contrabaixo) e Erivelton 
Silva (bateria). “Vai ser um show especial porque dedicado à obra de Caymmi. As 
músicas que vamos tocar fazem parte do disco Paulo Moura e o Ociladocê – O som 
de Dorival Caymmi, de 1992, relançado no ano passado pela Biscoito Fino”, 
anuncia o clarinetista. Ele destaca pérolas como Acalanto, Dora, Doralice, 
Marina e Só louco.

“Tomei conhecimento de Caymmi na adolescência, em meados da década de 1940, 
quando morava em São José do Rio Preto, ouvindo-o na programação da Rádio 
Nacional. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, ele já era famoso e o acompanhei em 
gravações. Em 1964, criei arranjo para João Valentão numa versão de Elis 
Regina”, recorda-se.

“Só ficamos mais próximos nos anos 1990, como conselheiros do Prêmio Sharp de 
Música”, conta Paulo Moura. O músico revela que não passava de folclore a 
“preguiça” de Caymmi. “Ele era, sim, além de compositor maravilhoso, pessoa de 
grande sabedoria. Tinha seu jeito baiano de ser, mas deixou como legado essa 
obra que se eternizará na história da MPB. Manifestei minha admiração por 
Caymmi no álbum que gravei com o sexteto Ociladocê, formado por Paulo Muylaert 
(guitarra), Alex Meirelles (teclados), Fernando Feijão (baixo elétrico), Marcos 
Suzano (pandeiro), Jovi (agogô, cuíca e tamborim) e Carlos Negreiros 
(percussão).”


DORIVAL PARA SEMPRE CAYMMI
Abertura do projeto com Paulo Moura e banda. De hoje a sexta-feira, às 21h45. 
No Clube do Choro (Eixo Monumental, ao lado do Centro de Convenções Ulysses 
Guimarães). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (estudantes). Informações: 3224-0599. Não 
recomendado para menores de 16 anos.


Próximas atrações

18 a 20 deste mês — Raul de Souza Quarteto
25 a 27 deste mês — Rildo Hora & Grupo Choro Livre
1º a 3 de abril — Nivaldo Ornelas Quarteto
8 a 10 de abril — Ricardo Silveira & Jorge Helder
15 a 17 de abril — Chico Pinheiro & Fábio Torres
22 a 24 de abril — Mauro Senise, Kiko Continentino & Leonardo Amuedo
29 de abril a 1º de maio — Ademir Júnior e convidados



Sede sim, patrocínio não

“Vamos viver um ano de ouro para o Clube do Choro, com a concretização do sonho 
de construção do Espaço Cultural do Choro, a partir de projeto de Oscar 
Niemeyer”, comemora Reco do Bandolim. “O governador José Roberto Arruda teve a 
sensibilidade e compreendeu o significado especial do clube para Brasília, 
respeitado no Brasil e no exterior, ao determinar a edificação da nossa sede”, 
acrescenta.

A previsão inicial era para o Espaço do Choro ser inaugurado em 21 de abril, 
aniversário da cidade, mas houve atraso nas obras, em razão das chuvas. “As 
fundações foram concluídas e as paredes começam a subir. De acordo com a 
construtora, o prédio deve estar pronto em junho”, anuncia com entusiasmo.

Segundo o músico, com o espaço em funcionamento, a Escola Brasileira de Choro 
Raphael Rabello poderá por em prática projeto de inclusão social do governo ao 
ampliar o número de vagas para bolsistas, principalmente os do Entorno. “Vamos 
poder fomentar os novos talentos artísticos”, enfatiza.

Reco destaca ainda a parceria com a Universidade de Brasília para a 
estruturação do centro de referência do Espaço do Choro. “Vamos contar, entre 
outras coisas, com 10 anos de gravações feitas pela TV Senado de shows de 
importantes músicos brasileiros. Traremos cópias do famoso acervo de Jacob do 
Bandolim, nome representativo na história do choro.”

Em pesquisa junto à Biblioteca Nacional, no Rio, foram descobertos livros que 
contam a história da MPB ou sobre o assunto. “Buscaremos deixá-los à disposição 
dos frequentadores do centro de referência e dos mil alunos da Escola de 
Choro”, antecipa.

Num ano em que há muito o que comemorar, o presidente do Clube do Choro se 
preocupa por não ter obtido patrocínio para o projeto Dorival para Sempre 
Caymmi. “Isso põe em risco a programação elaborada, inicialmente, para março e 
abril”, observa. Os shows servem de base para o programa Clube do Choro, 
dirigido pelo cineasta André Luiz de Oliveira e apresentado às sextas-feiras, 
na faixa das 20h, na TV Brasil.


Fonte: http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_57.htm
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