Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u445959.shtml

 

 

 

AS CANÇÕES PRAIEIRAS: A CERTEZA DO SER 

 

 

A série das canções praieiras perfaz o conjunto mais impressionante, não apenas 
em relação ao todo da obra de Caymmi, como, talvez, no sentido de sua espantosa 
originalidade, em relação a toda a tradição da canção brasileira. Com efeito, o 
folclorista Câmara Cascudo lembrava que o compositor baiano inventou um gênero, 
pois não havia então na canção brasileira nada que se assemelhasse às praieiras 
- e, deve-se acrescentar, não viria a haver depois.44 Sondar os segredos dessa 
originalidade, o mistério encerrado na simplicidade aberta dessas canções, é a 
tarefa a que se propõe este capítulo. Comecemos, então, a juntar as pistas. 

 

O crítico Luís Antônio Giron observa que "Caymmi pode ser designado como 
artista figurativo no sentido mais profundo do termo".45 Qual é esse "sentido 
mais profundo"? Ora, o sentido mais habitual e óbvio seria aquele de uma obra 
que retrata o cotidiano, que pinta musicalmente a realidade como fazem os 
pintores figurativos. Assim, por exemplo, nos sambas sacudidos, em que somos 
apresentados ao traje da baiana, à gamela da preta do acarajé, ao requebrado da 
vizinha, à receita do vatapá, às igrejas de Salvador. Mas, nesses casos, é a 
letra da canção que descreve as cenas, embora, é claro, a música acompanhe os 
quadros descritos: o ritmo é buliçoso quando sublinha a nega que sabe mexer, o 
canto é dengoso quando recusa - por charme - o chamado da baiana para dançar, e 
assim por diante. O "sentido profundo" do figurativo, de que fala Giron, vamos 
encontrá-lo, entretanto, exclusivamente nas praieiras. Aqui já não é apenas a 
letra que descreve as cenas, mas também a música - essencialmente o violão - 
que é capaz de pintar a realidade. 

 

Não foi por acaso que Caymmi exigiu gravar a série das praieiras em seu 
primeiro long-play, de 1954, chamado justamente Canções Praieiras, em formato 
voz e violão (procedimento quase inusitado na época). É que o violão de Caymmi, 
nas praieiras, não é um violão de acompanhamento, mas antes um recurso como que 
cinematográfico: ele cria um setting, compõe uma paisagem, estabelece um 
cenário. 

 

Como seu violão consegue isso? Não exatamente imitando, mas se transformando 
nas coisas que quer mostrar: em "A Lenda do Abaeté", o violão é obssessivo e 
sinistro como o mistério que envolve a lagoa escura arrodeada de areia branca; 
em "O Vento" (canção praieira que entretanto não consta desse primeiro LP), o 
violão dissolve-se, como se fosse o próprio fenômeno da natureza; em 
"Canoeiro", o violão vira um remo que bate na água, um braço que puxa a corda, 
um corpo que colhe a rede; em "O Mar", o violão, primeiramente, espraia-se, 
tornando-se o movimento mesmo da maré, depois se torna dramático, para contar a 
história da morte de Pedro e do enlouquecimento de Rosinha. Esse violão 
mimético, proteico, transformando-se nas coisas consegue apresentá-las; daí o 
"sentido profundo" - e paradoxal - desse figurativo: trata-se de uma figuração 
abstrata, uma figuração que se dá ao nível da música, linguagem abstrata por 
excelência (as palavras "representam" as coisas; os sons, em princípio, não). 

 

Não parece coisa feita por gente 

 

O violão transforma-se nas coisas, apaga as fronteiras entre a música e o que 
ela "descreve". Essa indistinção entre dentro e fora coloca-nos diante da 
primeira característica espantosa das praieiras: são canções que nos apresentam 
um mundo onde homens e mulheres parecem estar de tal forma integrados à 
realidade, adequados a ela, que não se fazem perguntas, apenas vivem as 
respostas; não conhecem a interioridade, precisamente porque não se julgam 
apartados da exterioridade, nunca se dilaceram psicologicamente, antes acatam a 
dor e o sofrimento como uma determinação inquestionável. A saúde transbordante 
das praieiras reside aí, nessa perfeita adequação entre o homem e o real, 
envolvidos ambos pelo encantamento da divindade do mar, Iemanjá, que a tudo 
justifica e dá sentido. 

 

É por isso que Tom Jobim imaginava "Dorival sair do mar, de pé, sobre as águas, 
apanhado (vestido) pela rede, coberto de peixes prateados, de conchas, siris, 
caranguejos, sargaços, pedaços de madeira, de caixote, algas".46 Esse universo 
da indistinção, onde o homem se mistura aos peixes, ao sargaço, à matéria, é em 
certo sentido o universo das praieiras, que o maestro soberano aqui intui e 
projeta na pessoa de Caymmi. A mesma intuição teve o letrista Paulo César 
Pinheiro, que, em um poema em homenagem ao velho baiano, diz que "seu violão 
tem cordas de sargaço/ e foi cortado de um pedaço/ de uma velha embarcação/ 
[...]/ a voz é de arrebentação/ [...]/ Caymmi tem espumas no cabelo".47 O 
compositor e sua música transformando-se na natureza, o sujeito Caymmi 
anulando-se para dar voz aos próprios fenômenos naturais: as cordas do violão 
são o sargaço, a madeira é um pedaço de navio, a voz é a do rumor da 
arrebentação, os cabelos são a espuma das ondas que quebram na praia. 

 

Esse estado de anulação do sujeito, do autor, essa capacidade mimética das 
canções praieiras é o que definiu precisamente Arnaldo Antunes: "não parece 
coisa feita por gente: parece o canto das coisas em si". Com efeito, as 
praieiras parecem sempre ter existido, parecem ter a idade da natureza, não do 
homem. Não parecem ter sido feitas pelo homem. Parecem mesmo o canto das coisas 
em si, as coisas cantando: o vento assoviando, o mar rumorejando, o casco 
estalando, o coqueiro, a areia, a morena, o remo, a rede, o peixe, a vela. É 
como se cada elemento da natureza cantasse sua própria música. "Se é possível 
qualquer identidade de manifestação entre os fenômenos naturais e as criações 
do homem, um lugar onde isso se faz mais evidente é a música de Caymmi", 
complementa Arnaldo Antunes. 

 

Na recente exposição "A Imagem do Som de Dorival Caymmi", para a qual 80 
artistas plásticos foram convidados a interpretar visualmente o cancioneiro do 
baiano, há uma foto, para a canção praieira "O Vento", em que uma cadeira vazia 
é colocada sobre pedras invadidas pelas ondas do mar. É sem dúvida essa 
impressão de não haver autoria, não haver sujeito que a fotografia pretendeu 
captar: não há ninguém lá, só o vento, as pedras, o mar.50 

 

Assim, embora imaginemos Caymmi misturado à natureza, com seus cabelos de 
espuma, é importante discernir bem as coisas: o mundo das praieiras está longe 
de ser um mundo à Alice no País das Maravilhas, onde os objetos vão se 
transformando em outros, os seres vão mudando de figura. Não; nas praieiras as 
formas são bem definidas, seus contornos são nítidos, tudo é claro e distinto, 
mesmo quando é noite, como em "Noite de Temporal". É, de fato, um mundo de 
formas, um mundo do privilégio absoluto do ver. Não há, como se disse, 
interioridade; não há reflexão, psicologia, profundidade, alma. É um mundo 
essencialmente físico. Mundo da ação e do olhar. Mundo solar, apolíneo. É 
irresistível dizer que, de certo modo, o Caymmi das praieiras é o nosso Homero. 
É claro que a experiência histórica da Grécia pré-clássica nada tem a ver com a 
experiência histórica da Bahia moderna, mas, justamente, a relação de Caymmi 
com a história é complexa e contraditória. Com cautela, é possível e pertinente 
aproximar o mundo das praieiras ao mundo das epopéias homéricas. 

 

* 
Francisco Bosco é ensaísta, letrista e escritor. É autor de "Da Amizade" (Rio 
de Janeiro: 7Letras, 2003), entre outros, doutorando em teoria literária pela 
Universidade Federal do Rio de Janeiro, e colunista das revistas "Argumento" e 
"Cult". 

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