Extraído do Jornal BRASIL de FATO
Fonte:
http://www3.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/simonal-a-reabilitacao
Simonal, a reabilitação
por cristiano última modificação 19/05/2009 12:18
Colaboradores: Urariano Mota
Autor lembra que no processo em que foi julgado por mandar torturar seu
contador, as testemunhas de defesa do cantor foram um detetive do Dops e um
oficial do Exército
19/05/2009
por Urariano Mota,
Do site Direto da Redação
Com o filme "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei", começou a reabilitação de
Wilson Simonal. Não se conclui outra coisa, quando se lêem os artigos
publicados em todo o Brasil. Em todos os jornais, os críticos mais parecem uma
orquestra afinada para uma só composição, para um só samba de uma nota só. Em
toda a mídia se repetem as saudações ao documentário, à sua imparcialidade,
etc. etc.
Na Folha de São Paulo, no texto com o título épico "Simonal refaz saga do
cantor", entre outras coisas se escreve:
"Aconteceu no final de 1971. Por suspeitar que estivesse sendo roubado, o
cantor teria mandado bater no contador de sua empresa. Só que o homem vai parar
no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é
torturado. Não demora até que os jornais liguem as pontas - não necessariamente
cobertos de verdade - e publiquem a manchete: ‘O cantor Wilson Simonal é
informante dos órgãos de segurança do Estado’... Mais que biografar a ascensão
e queda meteóricas de um ídolo - e isso é feito de maneira empolgante -, o
documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua
história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha
feito".
Observem que:
1. O cantor "teria mandado bater no contador". Teria, em lugar de Mandou.
2. "...o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje
extinto), onde é torturado". Por acidente, ele foi parar no Dops.
3. "...o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo
finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem
sequer tenha feito." Absolvê-lo (...) Não demora, a família entrará com
processo na Anistia.
Por falar em Anistia, artigo no Jornal do Commercio, do Recife, é mais
explícito:
"A chance de anistia de Simonal - Filme conta história de cantor que morreu com
fama de dedo-duro, mas foi mesmo uma vítima da intransigência ".
No UAI, de Minas, a reabilitação continua:
"Nos dias de hoje, a maioria das pessoas que conhecem o assunto acredita na
tese de que Wilson Simonal foi derrubado por uma rede de boatos, somada a
preconceitos raciais e sociais que levavam, em muitos grupos, a um estado de
desconforto frente ao sucesso do cantor. Simonal pende nitidamente para este
lado."
No JB, do Rio, o mesmo samba:
"Com um design e produção impecáveis, o trio de diretores Cláudio Manuel,
Micael Langer e Calvito Leal tenta também trazer à tona a perseguição que o
cantor sofreu, após a suspeita de que ele estava a serviço do Dops, na época da
ditadura. Recheado de entrevistas, o filme tem o mérito de ser, em grande
parte, imparcial. Mas faltam depoimentos e nomes de artistas que efetivamente
promoveram o boicote... Numa montagem esperta, o papel de bicho-papão ficou só
com os jornalistas do Pasquim que participam do filme: Sérgio Cabral, Ziraldo e
Jaguar. Este último, em destaque, é colocado pela edição nos momentos
antagônicos, em contraponto a considerações positivas sobre o cantor. Seria
alguma forma de revanche? O público é quem decide. "
Em O Globo, entre outras louvações, transcrevem-se as palavras de Nelson Motta,
"Simonal virou um tabu, um leproso, um pária..." Mas o modo mais parcial vem do
Guia da Semana, de São Paulo, em editorial (!):
"No início da década de 70, Simonal percebeu que estava sendo roubado por seu
contador. De pavio curto, o cantor contratou um grupo para dar uma surra no
traidor. Porém, o episódio envolveu agentes do Dops, e o obscuro fato fez com
que se espalhasse a notícia de que o músico era informante do regime militar.
Sem provas contra ou a favor do artista, Simonal foi condenado ao ostracismo,
morrendo como um desconhecido em 2000."
Parece ter desaparecido no espaço o texto de Mário Magalhães, quando era
ombudsman na Folha de São Paulo, em 30 de março de 2008:
"A verdade: em 1974, Simonal foi condenado por surra dada em um contador. No
processo, levou como testemunha sua um detetive do Departamento de Ordem
Política e Social do Estado da Guanabara. Ele assegurou que o cantor era
informante do Dops. Outra testemunha de defesa, um oficial do 1o Exército,
jurou que o réu colaborava com a unidade. O juiz sentenciou: Simonal era
‘colaborador das Forças Armadas e informante do Dops’. Em 1976, acórdão do
Tribunal de Justiça do RJ reafirmou a condição de ‘colaborador do Dops’. Não
foram inimigos que inventaram a parceria com o regime, exposta sem reservas
pelos amigos de Simonal, que se dizia ameaçado por gente ligada ‘a ações
subversivas’ ".
Pelo andar da carruagem, não demora, vão fazer um documentário que absolva o
cabo Anselmo. Com a repercussão em uma só nota de toda a imprensa. Como agora,
no filme desta semana: Simonal, a reabilitação.
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