JLV,

A esmagadora maioria do povo brasileiro, notadamente negros,
notadamente herdeiros da senzala como Simonal e seus pais,
principalmente na década de 60, ignorava completamente o fato de
vivermos em uma ditadura militar.

Cobrar qualquer tipo de postura política ou engajamento de Wislson
Simonal, que frequentou, por pouquíssimo tempo, por motivos mais do
que óbvios, os bancos da escola apenas para hastear a bandeira,
teatralizar a ordem unida ou frequentar as aulas de moral e cívica é -
pra dizer o mínimo - hipocrisia.

No dia em que você me apresentar o depoimento de qualquer artista que
seja que tenha sido "dedurado" pelo Simonal a gente muda o ruma dessa
prosa. No dia que você me apresentar qualquer vídeo, entrevista ou
gravação de Wilson Simonal elogiando militares ou a ditadura a gente
também muda o rumo dessa conversa.

No mais, o que você faz é repassar pra frente a construção mitológica
de um suposto Judas Scariotes, ou um Joaquim Silvério dos Reis. Muito
apropriada a essa repetição solene desse modelo historiográfico
vulgar, fruto da fofocaiada, do "ouvir dizer".

Malhar Simonal, no meu modo de ver, é tudo que a canalha reacionária
queria naquela época. Me espanta que alguém que se julga de esquerda
tenha caído numa esparrela dessas.

Simonal era totalmente apolítico. Reacionários, conservadores,
ultra-direita eram os também excelentes Roberto Silva e Candeia.
Monsueto tinha um irmão no DOPS, mas não fazia tanto sucesso quanto
Simonal.

No mais, fazer tributos a Martin Luther King e repetir gestos dos
panteras negras em show não me parece propriamente um ato reacionário.

Quanto ao livro do Paulo César Araújo ("Eu não sou cachorro, não"), é
realmente a mais verdadeira e corajosa obra da história da música
popular nesse país. Obra prima. Para mim, uma bíblia.

Abs,

Eugenio




2009/6/14 JL Vivas <[email protected]>:
> Sonia Palhares Marinho escribió:
>>
>> REPASSANDO!!!
>>
>>
>>
>> Sonia Palhares (BsB-DF)
>>
>>
>>
>>
>> Amigos,
>>  Ontem, em entrevista ao Estado de S. Paulo, Caetano Veloso comentou o
>> polêmico documentário sobre Wilson Simonal e recomendou: "Leia Eu Não Sou
>> Cachorro Não":
>
>>  É terrível, porque tem algo como uma caricatura da impossibilidade de um
>> pretinho talentosíssimo, filho de cozinheira, cumprir um destino positivo
>> até o fim."
>>
>
> Terrível foi a ditadura, e os que a apoiaram ou foram coniventes com ela,
> pretinho ou branquinho, filho de cozinheira ou de marajá. Essas pessoas não
> merecem um destino positivo.
>
> JLV
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