Correio Braziliense

Brasília, sexta-feira, 19 de junho de 2009

Cinema
A elegância do sambista de Botafogo



São Paulo — No cartão profissional, oferecido a clientes e amigos, lê-se: 
“Walter Alfaiate, o magnata supremo da elegância moderna”. Esse título talvez 
esteja com os dias contados. “A vida continua por aqui, mas falta gente 
querendo fazer roupa”, diz Walter. “As pessoas estão comprando do chinês, 
porque é mais barato, mas a qualidade é bem inferior.” E nem adianta lembrar o 
que até outro dia se ouvia na secretária eletrônica do ateliê de Walter 
localizado na Galeria Ritz, nº 610 da Av. Nossa Senhora de Copacabana, no Rio. 
“Estás mal vestido e com dinheiro no bolso? Não vais arrumar nada, meu 
camarada. Estás bem vestido e sem dinheiro no bolso? Vais arrumar o que 
quiseres. Deixe o seu recado.”

O documentário Walter Alfaiate — A elegância do samba, em cartaz em São Paulo, 
não registra todos esses detalhes, mas cria um retrato das várias facetas 
daquele que é considerado por Paulinho da Viola “o cantor oficial de Botafogo”. 
Dirigido por Vital Filho, Emiliano Leal, Paulo Roscio, Rommel Prata e Vitor 
Fraga, o filme homenageia o artista que fez fama após entrar na casa dos 60 
anos. Walter Nunes de Abreu lançou Olha aí (1998), o primeiro CD, quando 
completou 68. Mas sua história começa na adolescência, nos anos 1940, quando 
escolheu ser alfaiate e ingressou no bloco carnavalesco Paraíso das Cabrochas, 
dirigido por Oswaldo Tintureiro.

Walter Alfaiate é um dos bambas de Botafogo, “um pedaço da Zona Norte na Zona 
Sul”, na definição de Regina Casé, uma das moradoras ilustres do bairro de onde 
saíram, entre outros, Mauro Duarte, Mical, Zorba Devagar e Niltinho Tristeza, 
influências de Paulinho da Viola. Botafogo também é importante por ser uma das 
origens, ao lado do Cacique de Ramos, como lembra Nei Lopes, do pagode de 
quintal, que nos anos 1980 mudou a pegada do samba com a inclusão de novos 
instrumentos, como o banjo, o tantã e o repique de mão. É famoso o Cantinho da 
Fofoca, frequentado pela turma botafoguense e onde Beth Carvalho conheceu 
Walter, que antes de Alfaiate foi chamado de Walter Sambista e Walter Sacode, 
por fazer sucesso com Sacode Carola (Alfredo Marques e Hélio Nascimento).

Embora lamente o fato de a família de Mauro Duarte não ter liberado o samba 
A.M.O.R, gravado em Olha aí, Walter espera que o filme seja “como uma flor que 
se abre na vida”. Em 2005, ele lançou Tributo a Mauro Duarte, homenagem ao 
parceiro que conheceu num Botafogo contra Fluminense. Lançado depois de Samba 
na medida (2003), Tributo… é o CD mais recente de Walter, que deseja gravar o 
quarto disco neste ano. “Gostaria de mostrar meu lado crooner.” Junto com 
sambas sincopados — especialidade desse mestre da divisão rítmica do canto, com 
uma voz de timbre encorpado, herdeiro da escola de Ciro Monteiro —, ele 
gravaria sambas-canção que interpretava na boate Bolero, na Copacabana dos anos 
1950.

Os amigos são unânimes em dizer que ele é o último dos representantes do 
carioca da antiga: um malandro de fina estampa, simpático e doce no trato, que 
vê a vida como se brincadeira fosse. “O carioca da minha safra é mais maneiro 
mesmo.” Caso se recupere de “uma gripe terrível”, Walter estará na última 
sessão do documentário na quarta-feira, no CineSesc, na capital paulista. “Está 
calor em São Paulo? Detesto frio.” Depois de pedir um clima mais ameno, ele 
confessa um segredo: “Toda vez que chego a São Paulo, o sol aparece”.

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