No palco com Nelson

Canções e lembranças mais íntimas de Nelson Gonçalves são reunidas em DVD com suas participações no Fantástico e em um especial glamouroso, dirigido por Augusto César Vanucci, ainda na Rede Globo, no início dos anos 80 Entre convidados como Nelson Cavaquinho e Evaldo Gouveia, Nelson Gonçalves ressurge em DVD, quando faria 90 anos

No último domingo, Nelson Gonçalves completaria 90 anos. Dono de uma vida atribulada e de um vozeirão que igualava os mais diferentes ritmos e gêneros, o cantor gaúcho, cuja gagueira era dominada com um jeito de falar rápido que lhe rendeu o apelido de Metralha, se tornou um cantor de multidões, cujas vendagens são estimadas em cerca de 65 milhões de cópias, sem contar as vendas após sua morte, em 18 de abril de 1998. Marcando a data, a Sony e a Globo Marcas lançam o DVD ´Eternamente Nelson´, que reúne um show gravado em 1981 para comemorar seus 40 anos de carreira, além de clipes exibidos no programa Fantástico e de duetos dos álbuns ´Ele & Elas´ (1984), ´Ele & Eles´ (1985) e ´Ele & Elas. Vol 2´ (1986), também divulgados pela emissora. Há ainda um depoimento de 15 minutos em que o ídolo fala do início e de seu envolvimento com as drogas.

Vale lembrar sua trajetória. Antônio Gonçalves Sobral saiu de Santana do Livramento com a família, portuguesa, ainda criança para o bairro do Brás, em São Paulo. Deixou o colégio na infância, virou engraxate, sapateiro, pugilista (lutou até com Éder Jofre) e garçom. Dizem que até cafetão. Por sinal, exaltava sua virilidade até nas entrevistas de divulgação de seu último álbum ´Ainda é cedo´ (1997), em que cantou de Legião Urbana a Lulu Santos, Cazuza, Caetano Veloso, Herbert Viana e Paula Toller. Ao mesmo tempo, depreciava as ´danças da garrafa´ de então. E pensar que, no final dos anos 30, fora reprovado na Rádio Nacional e Mayrink Veiga. Dois anos depois, em 41, estava sendo gravado pela RCA Victor, em uma história que descreve, rapidamente, nos extras do DVD (veja ao lado). Também conta sobre seu drama com as drogas, já nos anos 60, mas omite se um dos motivos seria o ´ostracismo´ suscitado pela Bossa Nova. Ostracismo que não combina com sua vendagem.

Correndo para entrar no ringue, antes da homenagem, ele próprio sintetiza: “Meu nome é Antônio Gonçalves Sobral, gaúcho de Livramento. Minha vida sempre foi uma luta; minha arma, minha voz. Meu escudo, minha mulher, Maria Luiza. Meu destino: cantar”. Com regência do Maestro Cipó e texto de Hilton Gomes, ´Nelson Gonçalves 40 Anos´ foi registrado em 1981, com direção de Augusto César Vanuccci. Nelson aparece em grande estilo, recebendo seus convidados com seu porte inabalável, entre roteiro ensaiado e um regional de respeito, todos a black-tie, muitas câmeras, luz, cenário, holofotes no público, efeitos, edição precisa em 22 minutos.

Começa por Nelson Cavaquinho, autor, com Guilherme de Brito, de ´Dono das Calçadas´, música que, segundo o próprio xará do mundo do samba, fora feita para Gonçalves, embora fale de um violão e uns ´cabelos prateados´ que combinam mais consigo, enquanto os versos ´Eu que já vaguei nas madrugadas/ e já fui o dono das calçadas/ Pra todos aqueles que me estenderam a mão/ Dividi meu coração´ já soem familiares a ambos. Em seguida, homenageia ´Carlos Gardel´ (Herivelto Martins/David Násser), em tango com direito a breque. O samba ´Mais um ano sem Noel´ (Wilson Falcão/Portinho) chega com cordas e sopros. Ao lado do flautista Copinha, leva, com o restante do regional, ´Meu vício é você´ (Adelino Moreira). Depois, com o violão de Evaldo Gouveia sumido entre o naipe de cordas e uma vez feminina de contraponto, agradece a homenagem do cearense e do capixaba Jair Amorim em ´Despedida´. Depois, canta ´Nem às paredes confesso´ (Artur Ribeiro/Francisco Ferrer): ´o fado também corre em minhas veias´. E termina, com o mesmo vozeirão e a postura inabalável, ao microfone, com o sucesso ´Negue´ (Adelino Moreira/Enzo de Almeida Passos).

Mais lembranças

Em primeiro de abril de 1979, uma mentirinha técnica, de péssimos gosto e qualidade: um encontro ´virtual´ com Orlando Silva, morto desde o ano anterior em ´Última Estrofe´ (Cândido das Neves) e, na seqüência, homenageado com imagens de seu enterro e do compositor Adelino Moreira, em ´Pedestal de Lágrimas´. Com Martinho em sua elegância meio black power, meio do samba mesmo, Nelson dividiu, em 15 de setembro de 1985, a valsa ´Lembranças´ (Raul Sampaio/Belmil Santos), que na sua voz acaba, como sempre, um bom samba-canção. Com Alcione cheia de ziriguidum, de coque e em um vestido amarelo, ele chega cheio de charme, mas a escolha poderia ter sido algo mais romântico que o samba ´Louco´ (Wilson Baptista/Henrique de Almeida). Era 10 de março de 1985. Já em 14 de outubro de 1984, em um arranjo mais moderno, ele caía na bossa com Fafá de Belém na ´O negócio é amar´ (Dolores Duran/Carlos Lyra), que deve lhe ter constrangido um pouco com o verso ´tem mulher maluca que atura porrada´...

Em 6 de janeiro de 1980, Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro pintaram um ´Auto-Retrato´, que, entre imagens de Nelson entre um camarim e o palco cantando o tango, diz que ´faria tudo de novo´... O bolero ´Fica comigo esta noite´ (Adelino Moreira/Nélson) chega com ele sozinho no palco, em pot-pourri com os sambas-canções ´Meu Dilema´ e ´Escultura´, também da lavra com Adelino, e ainda ´Pensando em ti´ (Herivelto Martins/David Nasser). Ainda na sessão dedicada aos clipes do Fantástico, dirigidos por José Mário (?), ´Onde anda você´ (Vinicius de Moraes/Hermano Silva) o traz entre cenas da noite carioca, ´na rotina dos bares e da boemia´, tomando um scotch em busca de um amor do passado. Em ´Minha Rainha´ (Rita Ribeiro/Lourenço), não se entende bem o porquê de tantas fotos do próprio Nelson, já que a música é outro samba-canção cheio de fossa. Também não dá para entender, ao menos hoje, o glamour de show, em boate, claro, com um desfile de fãs pelas mesas, já que a canção nem é tão conhecida, como a seguinte, o maior de todos os seus clássicos: ´A volta do boêmio´ (Adelino Moreira). Mais magro, como os arranjos apenas entre violões, de camisa aberta, anel e medalhão de ouro, Nelson o canta, em tom de despedida, em outro pot-pourri com os melancólicos ´Folhas Mortas´ (Ary Barroso) e ´Deusa do Asfalto´ (Adelino Moreira), com o qual ´gostaria de ser lembrado´.

DVD

Eternamente Nelson
Nelson Gonçalves

R$ 39,90
73 MINUTOS
1981/2009
SONY/GLOBO MARCAS

FIQUE POR DENTRO

No ringue, o ´Metralha´ fala da carreira e drogas

Em depoimento de quinze minutos nos extras do DVD, em um ringue de boxe, Nelson Gonçalves conta detalhes do início da sua trajetória, do sucesso e de seu drama com as drogas. Primeiro, diz que queria mais do que cantar profissionalmente em São Paulo, a meta era o Rio. Então, roubou uma grana do irmão, e picou a mula para a Cidade Maravilhosa. Por lá, arrumou fama de valentão da Lapa, motivado pelo interesse da mulherada. Mas a carreira não vingou, não passou em nenhum teste, emagreceu, desistiu. Até Ary Barroso o aconselhou a voltar ao boxe em São Paulo. ´Tu não canta nada!´, brada o próprio Nelson, no ringue. ´Voltei pra São Paulo, voltei pro bar do meu irmão´. Ser garçom, claro, não era a idéia. Gravou um acetato, e, de volta ao Rio, conquistou um diretor da RCA Victor, que desistiu de lançá-lo ao ver que Nelson era gago. Mas logo o imbróglio foi desfeito. Nelson gravou e assinou contrato com o Cassino Copacabana, deixando de lado a Lapa em direção à Zona Sul. Fez sucesso com ´Maria Bethânia´ (Capiba), ´Caminhemos´ (Herivelto Martins)... ´Passei a ser um dos melhores cantores do Brasil´, descreve, sem modéstia. ´Fiquei assediado, muitos shows, aquela coisa. Mas, sempre tem um mas... O meu foram os tóxicos´, acrescenta. Seu vício começou, segundo ele, sem ter noção do que se tratava, induzido. Mas logo estava ´totalmente dependente da droga´. Separou-se, ´aí me entreguei mais ainda´. Vendeu carros, apartamentos, ficou sem gravar, sem se apresentar. ´Fui a tal ponto que eu, cantor famoso, Nelson Gonçalves, fui cantar várias vezes por cinco gramas de cocaína na casa de um malandro qualquer no subúrbio´. Casado outra vez, vai para São Paulo, mas continua na balada, chegando a espancar a esposa Maria Luíza várias vezes, inclusive com a arma que levava para as poucas apresentações que apareciam. ´Virei bandido, marginal. Passei a morar de aluguel, me cobrindo com jornal e me alimentando de favor´. Após um mês numa casa de detenção, decidiu parar, com o célebre jeito, digno de um filme como toda a sua vida: se trancou em casa, depois de jogar um quilo de pó na privada. Ainda apoiado pela mulher, viveu o drama da abstinência, descrito em detalhes escabrosos. No final, faz uma profecia que não se concretizou: ´vocês vão me aturar até 2001, porque até lá é que vou cantar´, metralhou.


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