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CORREIO BRAZILIENSE
Brasília, domingo, 12 de julho de 2009
Lançamento
O exercício da reverência
Irlam Rocha Lima
Na visão onírica de João Bosco, o artista trafega o tempo todo no
espaço mítico que delimita a terra e o céu. Isso, de certa forma,
explica o título dado ao CD que o cantor e compositor mineiro acaba
de lançar: Não vou pro céu, mas já não vivo no chão. A frase
também vem a ser trecho de um verso de Sonho de caramujo, música
com letra de Aldir Blanc, que conclui afirmando: “Eu moro dentro da
casca do meu violão”.
As 13 canções do álbum, melódica e harmonicamente sofisticadas,
que se acasalam com naturalidade a letras inspiradas e pertinentes,
ganham interpretações surpreendentemente suaves de um João bem
diferente de outros trabalhos. E, principalmente, o das
apresentações ao vivo, quando se permite improvisos e
experimentações arrebatadoras. Não que essa faceta tenha
desaparecido, mas agora ressurge de forma sutil.
“Conversei muito com Francisco Bosco (filho e parceiro) ao longo
dos dois últimos anos”, conta João. “Conceitualmente, me
entreguei ao exercício da reverência à canção brasileira, de
maneira límpida e respeitosa, mostrando-a em sua integralidade, sem
qualquer tipo de interferência ou filigrana. Tive que explorar outro
caminho, precisei me reeducar antes de gravar essas composições”,
acrescenta.
Entre outros aspectos que se destacam em Não vou pro céu…, como
a absoluta qualidade dos músicos que acompanham o cantor, deve-se
festejar a retomada da parceria entre João Bosco e Aldir Blanc,
dupla responsável por alguns dos melhores momentos da música
brasileira nas décadas de 1970 e 1980, em especial nas
interpretações memoráveis de Elis Regina.
O reencontro de João e Aldir deu-se depois de 20 anos de
afastamento. “As coisas ocorreram com naturalidade, como convém a
amigos fraternos, o que me trouxe muito contentamento. Primeiro, nos
sentamos a uma mesa de bar para uma cervejinha e um bate papo. Daí a
reatar a parceria não demorou nada”, comemora. A nova tabelinha
entre o flamenguista João e o vascaíno Aldir resulta em quatro
golaços, sob os títulos de Navalha, Mentiras de verdade, Plural e
singular e Sonho de caramujo.
Quem mais divide canções com João é o poeta (e consultor)
Francisco Bosco, que assina as letras sofisticadas de Perfeição
(que abre o repertório), Tanto faz, Desnortes e Alma barroca. Com o
paulistano Carlos Rennó, o compositor fez Pronto para a próxima e
Pintura; o carioca Nei Lopes é parceiro em Jimbo do jazz. Para
complementar, há a sublime recriação do cantor para a não menos
bela Ingenuidade, de Serafim Adriano. “Esse samba foi gravado
originalmente por Clementina de Jesus, em 1976, quando participei com
ela dos projetos Seis e Meia e Pixinguinha. Quis, com essa
regravação, homenageá-la.”
CRÍTICA - Não vou pro céu… ****
Som celestial
Rosualdo Rodrigues
É como se João Bosco de repente resolvesse pedir silêncio
absoluto (como outro João, o Gilberto), se debruçasse sobre seu
violão e os dois — o artista e o instrumento — passassem a ser o
centro de tudo. Tanto que, mesmo quando os demais instrumentos entram
em cena, é com discrição quase reverente a esse encontro (João e
o violão). Não vou pro céu… tem clima de intimidade entre o
músico e a canção, uma introspecção de onde saltam pérolas como
Navalha, samba à moda antiga, com uma tristeza que lembra Nelson
Cavaquinho ou Candeia, expressa em versos como “Teu sorriso é uma
navalha/ que abre meu coração”. Eles são cantados com tal
intensidade que nos damos conta de que, além de grande violonista e
compositor, João Bosco é também grande intérprete. Aliás, o
reencontro com Aldir Blanc não poderia ser mais feliz. É dos dois
outra das melhores faixas do disco, o samba-canção Mentiras de
verdade, com letra que dialoga com o clássico do gênero Cansei de
ilusões. E, fechando a trilogia de canções que por si só valeriam
esse disco, vem Desnortes, composta em parceria com o filho,
Francisco. Mais uma vez, na valsa que João Bosco leva sozinho ao
violão, o passado é evocado, mas vestido pela modernidade do
violão meio jazz meio samba do artista. É de uma beleza de levar o
ouvinte ao céu.
http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_150.htm
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