cinema
O bamba de Brasília
Documentário produzido por estudante da UnB mostra a trajetória do compositor
Carlos Elias e sua relação com o samba na cidade
Ana Clara Brant
Se o samba de Brasília pudesse se encarnar em uma pessoa, certamente seria no
carioca/mineiro/brasiliense Carlos Elias, 76 anos. Nascido em Laranjal, Zona da
Mata Mineira, ele saiu com apenas três anos de idade rumo ao Rio de Janeiro.
Lá, Elias se descobriu um sambista nato e de alta qualidade. Compositor de
sambas memoráveis como o que deu o título à Portela (sua escola do coração), em
1962, Rugendas, viagens pitorescas através do Brasil, em parceria com Zé Ketti,
Batatinha e Carlos Balbino, ele se transferiu para a capital federal em 1975 —
de onde nunca mais saiu — já que era funcionário do Ministério das Relações
Exteriores.
Agora, o artista é tema do documentário Estou de bem com a vida – Carlos Elias
e o samba em Brasília. O idealizador do vídeo, o estudante de Comunicação
Social com habilitação em Audiovisual da Universidade de Brasília (UnB),
Leandro Borges da Silveira, 25 anos, que também é sambista e um profundo
admirador do samba e do choro, sempre norteou seus trabalhos na faculdade em
função do mais brasileiro dos ritmos e quis produzir para seu projeto de
conclusão de curso um curta que abordasse a relação do samba na cidade. “Desde
pequeno, como sou filho de carioca, ouvia sempre muito samba, chorinho em casa.
Conheço o Elias de vários sambas, já que toco também cavaquinho e violão. E
então, tive a ideia de fazer um documentário sobre ele e sua relação com o
samba em Brasília”, explica.
O jovem cineasta faz questão de frisar que o curta, que terá a duração de 20
minutos, não é biográfico e aborda justamente a ligação do gênero musical na
capital com o compositor. “A maioria dos depoimentos que colhi são de pessoas
aqui de Brasília até porque o documentário é focado na relação do Elias com o
samba daqui. Não falo da vida, pessoal, não entrevistei mulher, parentes. Ele é
a história do samba em Brasília e o escolhi como personagem para falar do
samba. Mostrar a importância dele para a nossa cidade”, frisa Leandro.
Lançamento em 2010
No projeto, que está sendo finalizado e que deve ser lançado durante as
comemorações do cinquentenário de Brasília, em abril de 2010, Leandro conseguiu
depoimentos de grandes bambas como Dona Surica, um dos ícones da Velha Guarda
da Portela, dos compositores cariocas radicados em Brasília, Daniel Júnior e
Eugênio Monteiro, que são amigos e parceiros de Carlos Elias, além de
representantes da nova geração do samba na cidade como Lucas de Campos.
O sambista Daniel Júnior, 65 anos, que conhece Elias há 30 anos, destacou a
iniciativa do documentário e que ele pode promover uma maior visibilidade e
interesse com relação ao samba na capital federal. “Temos grandes sambistas
aqui e pouca gente conhece. A cidade tem vocação para o ritmo e as minhas
músicas mesmo são genuinamente brasilienses. Brasília deu a mim e ao Elias
espaço, reconhecimento. Fizemos uma nova história por aqui”, destaca Daniel.
O documentário, que será transformado em DVD posteriormente, intercala as
entrevistas com imagens e áudios de um show que foi gravado na semana passada,
na Choperia Chiquita Bacana, em Taguatinga, em homenagem a Carlos Elias. Na
apresentação, artistas de Brasília tais como Sérgio Magalhães, Breno Alves,
Renata Jambeiro, Célia Rabelo, Cris Pereira, Daniel Júnior e Helena Pinheiro
interpretaram canções de Elias como Imagens do passado, Canção da primavera e
Homenagem a Nelson Cavaquinho.
Leandro Silveira acrescenta que os passos iniciais do seu projeto foram dados
há 4 anos. “Coloquei meu dinheiro, chamei uns amigos que me ajudaram na
produção, edição e captação de imagens. Fui com a cara e a coragem. E todo
mundo que está envolvido é por amizade e amor ao samba”, conclui o diretor.
Sempre de bem com a vida
Se você já frequentou alguma roda de samba em Brasília, certamente já deve ter
se deparado com um senhor de terno bem alinhado, lenço na lapela, chapéu de
palha e sapatos impecáveis. Quando Carlos Elias chegou ao Chiquita Bacana, na
segunda passada, para a gravação do show em sua homenagem e que fará parte do
documentário sobre sua relação com o samba, o compositor esbanjava uma
elegância muito característica do mundo do samba. Primeiro, se aproximou do
jovem cineasta e diretor Leandro Silveira e disse: “O criador e a sua cria”,
brincou.
Empolgado com o documentário, o artista contou que chegou, inclusive, a fazer
aulas de roteiro de cinema. Foi então que surgiu o projeto de Leandro. “Eu já
tenho vários roteiros na minha cabeça, mas nunca pensei em aparecer em um filme
como agora. Qualquer iniciativa que seja feita para levantar o samba é sempre
bem-vinda”, destaca.
O sambista acrescentou que não havia título melhor para o documentário (Estou
de bem com a vida), nome de uma de suas canções. Segundo ele, as suas obras
sempre têm um tom bem alto astral como em Otimista e Feliz da vida, parcerias
com Daniel Júnior, e isso se reflete no seu dia a dia.
“Estou sempre de bem com a vida. Não adianta ficar de mal com ela, porque só
piora as coisas, não é verdade? Então tem que seguir assim mesmo, porque tudo
fica mais fácil”. Palavra de Carlos Elias! (ACB)
http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_123.htm
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