Boa tarde, caros tribuneiros,


sei das regras da tribuna, sei também que o texto abaixo não fala de
diretamente de samba e tampouco do choro, mas a licença poética nesse caso deve
ser concedida.

Grande abraço a todos.
Léo - Natal


O BRASIL NÃO PERDEU - 04.07.2010RUBENS LEMOS


                                                Em agosto do ano 2000, 
participei do Congresso Internacional de
 Jornalismo Luso-Brasileiro. Assisti, em Recife,  ao auditório inteiro 
aplaudir de pé,  a frase derradeira do mestre Ariano Suassuna, que 
defendia o papel como instrumento indestrutível diante do surgimento da 
internet. 



Ariano disse que não haveria riscos para o livro em formato original nem
 para o jornal impresso. “Literatura, é amor, vocação, prazer e festa.  O
 que é feito com esses ingredientes é eterno”. O seu contendor, de 
cabelo cheio de gel, Matinas Suzuki Junior, adormecera a platéia com 
estatísticas e fórmulas científicas sobre a tendência da objetividade 
como grande vitoriosa da profissão. Ariano é o Brasil.



Câmara Cascudo definiu o ser humano nacional com perfeição ao dizer que o
 melhor do Brasil é o brasileiro. Em seus livros, suas pesquisas, suas 
correspondências, suas reflexões ancoradas pelo Rio Potengi, Cascudo 
sempre priorizou as raízes de cada povo, suas características, manias, 
idiossincrasias e seus gingados, como patrimônio inalienável da cultura.
 Cascudo é o Brasil.



Do poeta, romancista e tribuno conterrâneo François Silvestre, numa 
noite estrelada em Martins, de clima frio e inspirador, ouvi que se pode
 destruir um país com uma guerra, seu povo com armas e balas, seus 
monumentos com canhões. Mas sempre ressurgirá a sua face genuína no 
primeiro homem renascido. François é o Brasil.



O Brasil não foi eliminado pela Holanda na Copa. O que foi 
desclassificado, para o bem do futebol, foi um arrogante e patético 
circo comandado por um soba que é a antítese de tudo o que o 
brasileirismo representa em quatro linhas de gramado. 



A Holanda derrotou o estilo pregado como eficiência e que nunca passou 
de contradição da lógica e subversiva, intuitiva e inventiva maneira de 
se jogar em solo pátrio. 



A feiúra defensiva, mecânica e embrutecida que contraria os shows de 
Djalma e Nilton Santos,  Didi,Mané, Pelé, Gerson, Rivellino, Amarildo, 
Rivaldo, Romário e Ronaldo, os que desequilibraram pelo penta.



Quem vê o futebol como arte e espetáculo,  extrairá dos 2x1, a esperança
 de que conceitos burros e contrários à tradição dos campos de pelada, 
sejam definitivamente expulsos, não com a estupidez de um Felipe Melo, 
que é o lugar-tenente e caricatura de uma era de desgosto e truculência.
 



Felipe Melo é o oposto de tudo o que significa futebol brasileiro. Ele é
 como um eslovaco jogando basquete com negros malabaristas numa esquina 
do  Harlem. Ou  um irlandês sambando na quadra da Mangueira.



Felipe Melo é o alter ego de Dunga, muso  de um padrão tosco, feio e 
expulso do teatro da bola pelos seus resultados práticos: Em quatro 
Copas, como jogador ou técnico,Dunga perdeu três, as três do seu jeito 
ridículo de ser. Em 90, Maradona deixou-o de bunda no chão. Em 98, 
Zidane fez dele o que não quis. Em 2010, virou farinha o seu casaco de 
general, derreteram suas teses que resultaram num segundo tempo de time 
de Série D. 



Mesmo quando ganhou, Dunga não deixou de Dungar, como se verbo de 
grosseria ele fosse. Ergueu a taça do tetra chamando jornalistas de 
“traíras” , desfigurando o gesto nobre de Bellini, Mauro, Carlos Alberto
 e Cafu. 



Dunga é a presença viva de um espírito que deve ser extirpado de nossas 
vidas pelo bem dos nossos filhos e netos. 



Aquela dissimulação vivaldina de que ganhar por ganhar é o que importa, 
vencer até passando por cima do cadáver do inimigo é sinal de 
competência, esperteza acima de tudo é que é importante, nunca a 
dignidade. 

O brasileiro de verdade é boa gente, solidário, receptivo e contente, 
não é mercantilista. 



Disseram que Dunga tem rompantes de Maquiavel. É mais parecido com 
Noriegas e Somozas que pontificaram como ditadores temporários de 
republiquetas famintas. 



Chorar a derrota para a Holanda é menos importante do que questionar o 
que foram fazer na Copa Felipe Melo, Michel Bastos, Gilberto, Josué, 
Kléberson, Grafite, Júlio Batista e, por ontem, Luis Fabiano. 



Os que defendiam Dunga diziam que levara seus homens de confiança. Mas 
que critério é esse num esporte em que o talento sempre prevaleceu sobre
 toda burrice?  



Por tal e asno raciocínio, legitimados estarão Al Capone, Lucky Luciano,
 Pablo Escobar, Uê, Sam da Cidade de Deus, Fernandinho Beira-Mar. Eles 
sempre estiveram ou estão com seus homens de confiança, seus 
caporegimes, seus soldados, seus asseclas, seus puxa-sacos. 



Crime de lesa-futebol deixar de fora Ganso, um meia que só é superado 
por Messi no futebol mundial, um criativo, um artesão com o pé canhoto, 
um brasileiro nato, um craque genial. Alex, ex-Cruzeiro,Hernandes do São
 Paulo, Ronaldinho Gaúcho, até Romário aos 44 anos, jogam mais do que os
 ungidos por Dunga e com ele, jogados na vala da mediocridade que está 
no subsolo da história.



Kaká e Robinho, de verdade, juntaram-se em Sneijder, um brasileiro de 
camisa laranja que não tremeu, não amarelou, como todo o time que vestiu
 azul e recebeu bilhete de igual coloração. E tramou, com pés de carioca
 de morro, uma virada merecida.



Quando perdemos em 1982, o futebol-arte foi condenado. Agora, a forca ou
 a injeção letal devem ser aplicadas no bagrismo ululante que não tem 
nada com o Brasil.



O Brasil não perdeu. O Brasil nem foi à Copa. 
                                          
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