Matéria do jornal Correio Braziliense de hoje, do Irlam Rocha Lima,
fala da morte do Paulo Moura.
 O texto está transcrito em seguida.
 Caio Tiburcio
 OBITUÁRIO
 Paulo Moura, músico
 Referência para clarinetistas e saxofonistas de várias gerações,
o instrumentista lutava contra um câncer linfático
        Irlam Rocha Lima 
 Não vão ficar para a posteridade as reuniões que, semanalmente,
entre o começo de 2009 e maio deste ano, Paulo Moura tinha com João
Donato. As fusões rítmicas, os improvisos jazzísticos, a rica
sonoridade que criavam infelizmente não ganharam registro. Vão
ficar, para sempre, impregnadas nas dependências do apartamento do
pianista acreano, na Avenida Portugal, no bairro da Urca, no Rio de
Janeiro, onde reverberaram. 
 Um dos mais importantes e sofisticados instrumentistas brasileiros,
referência para clarinetistas e saxofonistas de várias gerações,
o paulista Paulo Moura, nascido em São José do Rio Preto, morreu na
noite de segunda-feira, aos 77 anos, vítima de câncer linfático. O
corpo do músico será velado hoje, a partir das 11h, no Teatro
Carlos Gomes, no Centro do Rio. 
 No último sábado, no apartamento que ocupava na Clínica São
Vicente, na Gávea, Paulo Moura recebeu a última e emocionante
homenagem de companheiros de ofício, organizada pelo pianista
norte-americano Cliff Korman, com quem costumava dividir o palco e
estúdios (eles lançaram em 2006 o CD Gafieira Jazz), da qual
tomaram parte, entre outros, Wagner Tiso e Humberto Araújo —
discípulo do mestre. 
 Nos dois dias anteriores, quem esteve com ele foi Leo Gandelman,
outro saxofonista que o tinha como “permanente fonte de
inspiração”. Os dois tornaram-se amigos fraternos. “Aos 19
anos, quando comecei os estudos do instrumento, tomei o Paulo como
professor. Aliás, ele foi professor também de Mauro Senise, Raul
Mascarenhas e de Humberto Araújo, além de outros saxofonistas e
clarinetistas mais ou menos conhecidos”, lembra Gandelman. 
 “Em 2009, criei o projeto Quatro por quatro, no qual tinha como
convidados o Paulo, o Mauro e Nivaldo Ornellas. Fizemos uma série de
quatro apresentações em teatros do Sesc, sendo duas no Rio e duas em
Petrópolis e Teresópolis. Foram momentos de grande criatividade no
palco que vou guardar para sempre na memória”, conta o saxofonista
carioca, que tocou pela última vez com Moura há 20 dias, na casa da
ex-secretária municipal de Cultura Jandira Feghalli. 
 Do Rio a Moscou 
 Paulo Moura começou carreira no começo da adolescência, no
interior de São Paulo. Logo depois radicou-se no Rio e lá passou a
tocar em cassinos, dancings, gafieiras, como integrante da Zacharias
e Sua Orquestra. Ao concluir o curso de clarineta na Escola Nacional
de Música — onde também aprendeu teoria musical, harmonia,
regência, orquestração e arranjo —, viajou com Ary Barroso para
o México e a Rússia. Lá chegou a reger a Orquestra Sinfônica de
Moscou. 
 Transitando entre o erudito e o popular, Paulo Moura frequentava o
Beco das Garrafas, reduto da bossa nova. Ali se apresentou com
Sérgio Mendes e atuou como arranjador para Elis Regina, em início
de carreira. No fim dos anos 1960, ele gravou Paulo Moura Hepteto, o
primeiro dos 40 discos lançados ao longo de mais de 50 anos de
trajetória. 
 Entre os títulos mais importantes estão Confusão urbana,
suburbana e rural (1976), Vou vivendo — Paulo Moura e Clara Sverner
(1986), Paulo Moura & Raphael Rabello (1992), Pixinguinha — Paulo
Moura & Os Batutas (1998), Paulo Moura visita Gershwin & Jobim
(2000), El negro del blanco (2004) e Dois panos para Manga (2006),
que gravou com João Donato, lançado pela Biscoito Fino. O álbum
marcou o reencontro dos dois em estúdio, depois de muito tempo. 
 “Me aproximei do Paulo em meados dos anos 1950. Eu era muito
jovem, iniciando a carreira, e ele me orientava bastante. Nos
reuníamos na casa dele, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, onde
aconteciam concorridos ensaios. Na época, chegamos a formar um
conjunto de jazz”, recorda-se Donato. “O Paulo e o Altamiro
Carrilho participaram do primeiro LP que gravei, a convite do Tom
Jobim, que era diretor artístico da Companhia Brasileira de Discos.
O disco foi relançado recentemente em CD pela EMI Music, antiga
Odeon”, acrescenta. 
 Dois panos pra Manga — feito em homenagem ao produtor de tevê
Carlos Manga, amigo dos dois — virou show e foi apresentado em 2007
no Clube do Choro de Brasília. “Foi um privilégio para nós reunir
em nosso palco esses gênios da música popular brasileira”, afirma
Reco do Bandolim, presidente da entidade. “O Paulo participou de
vários projetos do Clube, exibindo aquele requinte instrumental e
aquela elegância costumeiros. Ele transitava com familiaridade e
classe pelas músicas erudita e popular. Passeava pelos ritmos
nordestinos, por samba, choro, jazz, mantendo em seu sopro a
autenticidade e a inteireza de cada estilo”, elogia. 
  "Ele transitava com familiaridade e classe pelas músicas erudita e
popular. Passeava pelos ritmos nordestinos, por samba, choro, jazz,
mantendo em seu sopro a autenticidade e a inteireza de cada estilo”

  Reco de Bandolim, presidente do Clube do Choro

http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_8.htm
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