Que bela história, cada um vai fazendo a trilha sonora de sua vida. Obrigado
pelo link !
 
 
Estêvão

 
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De: [email protected]
[mailto:[email protected]] Em nome de Mauricio Martins
Enviada em: terça-feira, 3 de agosto de 2010 16:12
Para: Tribuna samba e choro; Rogério Martins
Assunto: [S-C] Uma homenagem a Paulo Moura



 


Pessoal, encaminho belo texto sobre Paulo Moura postado no blog Marginal
Conservador,

Abraços, Maurício Martins

 

por Rogério Martins


 
<http://marginalconservador.blogspot.com/2010/07/essa-musica-me-lembra-uma-h
istoria-doce.html> Essa música me lembra uma história: Doce de coco, ou Uma
homenagem a Paulo Moura 

Eu devia ter uns 11 ou 12 anos, não tenho mais certeza. Mas foi mais ou
menos nesta época que meus pais se mudaram. Continuamos no mesmo bairro,
Ramos, mas um pouco mais distante de minha escola, onde eu terminava o
antigo 2º grau. Naquele ano eu comecei a voltar pra casa, após a escola, por
um novo caminho, com alguns companheiros de turma na maioria das vezes,
sozinho outras tantas. Saía da escola lá pelo meio-dia e no caminho passava
por outra "escola", ou melhor, a quadra da escola de samba Imperatriz
Leopoldinense. Pertinho da escola de samba, havia uma casa da qual eu sempre
que passava em frente diminuía os passos. Da rua, dava pra escutar
perfeitamente o som que vinha de dentro: um som de um instrumento de sopro -
um saxofone?, uma clarineta? eu não sabia. A pessoa que tocava aquele
instrumento estava nitidamente praticando, ensaiando com afinco para mais
tarde tocar para a plateia de dançarinos de uma gafieira ou para os bolsos
mais afortunados presentes em uma casa mais sóbria, como o Teatro Municipal.

Somente mais tarde eu fui descobrir quem era a pessoa que soprava
elegantemente aquele instrumento, e que me fazia diminuir os passos para
ouvir mais um pouquinho de sua arte. Tratava-se de Paulo Moura, no curto
período em que o genial músico morou no meu bairro, no começo dos anos 1980.


Creio que foi minha mãe que me contou da presença daquele músico que eu
pouco conhecia. Mas a certeza de que havia um músico respeitado no meu
bairro me fazia querer conhecer um pouco mais do trabalho dele. Algum tempo
depois, uma de minhas tias, que adorava comemorar aniversários de forma
diferente, avisou à família que iria comemorar naquele ano na Lapa. O local
escolhido era o Circo Voador, onde todo domingo havia a "Domingueira
Voadora", com o maestro Severino Araújo comandando a Orquestra Tabajara num
baile bastante concorrido. Paulo Moura não estava lá, mas a grandeza do
naipe de metais da orquestra me fez lembrar daquele tempo passado.

Mais tarde meu pai apareceu em casa com um disco de gafieira de Paulo Moura.
Eu já era adolescente e, através de meu pai, um grande fã de músicas de
orquestras, bossa nova e MPB, comecei a ficar mais eclético e expandir meu
gosto. Uma música do disco me agradava muito. Era a primeira faixa, o fox
"Mulher", de autoria de Custódio Mesquita e Sadi Cabral, um grande sucesso
dos anos 40. Os dois ou três primeiros minutos da gravação resumiam-se a um
magnífico solo de clarineta de Moura, para somente depois entrar a voz do
crooner. Perdi a conta de quantas vezes escutei aquela gravação. Outra
canção que eu adorava ouvir do disco era o choro "Doce de coco", um choro
simplesmente lindo. 

Sim, eu sei, não são histórias brilhantes, nem muito originais. Mas resolvi
contá-las depois que ouvi a notícia da morte de Paulo Moura, aos 77 anos, na
clínica em que estava internado para se tratar de um câncer. Aquele homem
que sem o saber alegrou meus retornos pra casa após a escola em meus tempos
de garoto, se foi para sempre. Fico imaginando quem, como eu, não sorriu,
dançou, amou, brigou, conversou ao som de um solo de sax ou clarineta de
Paulo Moura. Quantos casais não se formaram depois de dançarem enlevados um
fox-trot tocado por Paulo? Quantos brasileiros subitamente e sem o
perceberem deixaram-se seduzir pelos sublimes arranjos da música
instrumental dos discos do maestro, naquelas belas canções sem palavras?
Quantos ignoram até hoje que o talento de Paulo Moura esteve presente em
quase todos os grandes momentos de nossa música nas últimas décadas? 

No ano passado, dei de presente ao meu pai o disco "Dois panos para manga",
o belo encontro musical de Paulo Moura e João Donato, apenas piano e
clarineta em versões instrumentais para clássicos brasileiros e americanos.
Escutamos juntos o CD em casa e no carro. Não havia dúvidas: aquele menino
que nascera em São Paulo na década de 1930 e que por algum tempo morara em
nosso bairro era realmente genial.

Paulo Moura se foi no começo desta semana. Morreu sereno e tranquilo como
sempre foi. Li nos obituários de sua morte que ninguém jamais se lembrara de
tê-lo visto levantar a voz com algum músico ou esbravejar com alguém. Era de
uma elegância ímpar, nos gestos e no instrumento. Pouco antes de morrer,
Wagner Tiso e vários músicos amigos de Paulo o visitaram na clínica São
Vicente, nde estava internado. Ali, já bastante fragilizado, Paulo pegou a
clarineta e soprou por uma última vez "Doce de coco". 

Hoje em dia só passo por aquela rua de carro, apressado entre o trabalho e a
casa onde moro. A casa onde Paulo Moura morou ainda está lá. Sei que nunca
mais ouvirei o som daqueles sopros musicais vindos lá de dentro. Mas a
lembrança daquelas caminhadas de volta pra casa e do lento diminuir de
passos apenas para ouvir o músico, ficarão comigo para sempre.

Adeus, Paulo Moura. 



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