Caros tribuneiros,
Segue um vídeo de Tom Jobim entrevistando Radamés Gnattali, num programa da
extinta TV Manchete.http://www.youtube.com/watch?v=yD5Af3sx3hc
e aqui nesse link, outro vídeo com uma excelente interpretação do último
movimento da suíte retratos (Retrato D - Chiquinha Gonzaga, Corta Jaca), peça
que Radamés escreveu pra unificar a música popular brasileira com a música de
concerto. A formação original (bandolim solista, cavaquinho, violão, pandeiro e
orquestra de cordas - violino 1 e 2, viola, cello e baixo) aparece nesse vídeo
de uma maneira reduzida, pois a orquestra de cordas só conta com um
instrumentista de cada naipe, formando na verdade um grupo de
câmara.http://www.youtube.com/watch?v=-VOnMP46xQw
No próximo dia 28 de novembro (domingo), às 15h no Parque da Cidade, no
Itaigara, eu vou ter a honra de participar da apresentação da Suíte Retratos
com a Orquestra Sinfônica da UFBA. Gostaria de convidar todos pra assistirem.
Vai ser uma oportunidade rara e muito legal de ver um regional de choro tocando
com uma orquestra sinfônica.
O que: Apresentação da peça Suíte RetratosOnde: Parque da Cidade -
ItaigaraQuando: Domingo, dia 28/11 às 15hQuanto: entrada
gratuitaQuem:...............Bandolim Solista: Alexandre
Vargas...............Cavaquinho: Marcelo Neder...............Violão: Arturo de
Paz...............Pandeiro: Ana Luísa Barral
...............Orquestra Sinfônica da UFBA...............Regência: Maestro José
Maurício Brandão
Abs
Marcelo Neder
P.S. Segue abaixo um texto do cavaquinhista Henrique Cazes sobre a Suíte
Retratos publicado no livro "Desde que o choro é choro" Ed. 34
Suíte Retratos: Semente de Mudanças
A ponte que o maestro Radamés Gnattali fez entre a música de concerto e a
música popular materializou-se principalmente quando escreveu concertos para
solistas populares.Em fins de 1956, portanto um ano após a morte do grande
colaborador e amigo Garoto, Radamés teve a idéia de escrever uma suíte para
bandolim, conjunto regional e orquestra de cordas, que se transformou, além de
uma de suas obras mais conhecidas, em um divisor de águas na história do
Choro.A Suíte Retratos foi arquitetada para homenagear quatro compositores que
Radamés considerava os pilares fundamentais da música brasileira.O primeiro
compositor foi o que ele mais admirou na música popular: Pixinguinha. Para
homenageá-lo escolheu “Carinhoso”, um Choro do qual Radamés gostava tanto que
escolheu para seu primeiro arranjo orquestral. No segundo movimento, a
homenagem é para Ernesto Nazareth na forma de uma valsa. Radamés escolheu,
dentre tantas que adorava,
“Expansiva”. O terceiro movimento homenageia Anacleto de Medeiros com um
schottisch, gênero no qual Anacleto foi insuperável, a partir do tema de “Três
Estrelinhas”. O quarto movimento é uma homenagem à Chiquinha Gonzaga, com
“Corta Jaca”, um maxixe. Mesmo ela não sendo uma compositora – segundo o
próprio Radamés – do mesmo porte dos três primeiro, a solução encontrada foi
musicalmente perfeita paraRetratosterminar “pra cima”.Pronta a suíte, foi
dedicada a Jacob do Bandolim, músico que Radamés admirava pela seriedade e
capricho.Para Jacob, era um salto considerável, pois tanto técnica como
musicalmente a peça trazia dificuldades maiores do que as que o solista
costumava enfrentar em seu repertório. Para ajudar o bandolinista a “tirar a
música do papel”, Radamés providenciou uma gravação realizada por Chiquinho do
Acordeom na Rádio Nacional, na primeira audição da obra.As inúmeras audições
dessa
gravação auxiliaram Jacob, e de quebra, passaram a ele um pouco do
elegantíssimo fraseado de Chiquinho, especialista no estilo de Radamés.Durante
os sete anos que se passaram entre a primeira audição na rádio e a gravação,
Jacob estudou bastante. A carta ao maestro Radamés, datada do dia 23 de outubro
de 1964, dá uma idéia de quanto Retratosmudou a vida de Jacob:Meu caro
Radamés:Antes de Retratos eu vivia reclamando: “É preciso ensaiar”, e a coisa
ficava por aí, ensaios e mais ensaios.Hoje minha cantilena é outra: “Mais do
que ensaiar, é necessário estudar!”. E estou estudando. Meus rapazes também. O
pandeirista já não fala mais em paradas: “Seu Jacob, o senhor aí quer uma
fermata? Avise-me, também, se quer adágio, moderado ou vivace!...”. Veja
Radamés, o que você me arranjou! É o fim do mundo...Retratos: valeu estudar e
ficar fechado dentro de casa, durante todo o carnaval de 64, devorando e
autopsiando os
mínimos detalhes da obra, procurando descobrir a inspiração do autor no
emaranhado de notas, linhas e espaços, e, assim, não desmerecer a confiança que
em mim depositou, em honraria pródiga demais para um tocador de Chorinhos.Mas o
prêmio de todo esse esforço foi maior que todos os aplausos recebidos em trinta
anos: foi o seu sorriso de satisfação! Este é o que eu queria, que me faltava e
que, secretamente, eu ambicionava há muitos anos. Não depois de um Chorinho
qualquer, mas sim, em função de algo mais sério. Um sorriso bem demorado, em
silêncio, olhos brilhando, tudo significando aprovação e sensação de desafogo
por não haver se enganado. Valeu! Ora se valeu!E se até hoje existia um Jacob
feito exclusivamente à custa de seu próprio esforço, de agora em diante há
outro, feito por você, pelo seu estímulo, pela sua confiança e pelo talento que
você nos oferece e que poucos aproveitam.Meu bom Radamés: sinto-me com quinze
anos de idade comprando um bandolim de cuia e um método simplório na loja do
Marani & Lo Turco, lá no Maranguape... Vou estudar bandolim!Que Deus, no
futuro, me proteja e Radamés não me desampare!Obrigado, mestre.P.S. Perdoe-me.
Sei que fica inibido com elogios de corpo presente. Daí esta carta. Sua
modéstia julgará que é absurda, sem motivo e, até mesmo, ridícula. Mas eu tinha
que escreve-la para não estalar de um enfarte, ta?.O lançamento em 1964 do LP
contendo Retratos – que apareceu com o título: Concerto para Bandolim,
Orquestra de Cordas, Violão e Cavaquinho – ao contrário do que se imagina, não
encontrou grande repercussão. O disco trazia no lado B uma seleção de músicas
para piano de Radamés como o Choro “Canhoto” e a valsa “Uma Rosa para
Pixinguinha”.A gravação de tal disco na CBS deve ter tido para Jacob um sabor
de vingança, pois já havia algum tempo ele vivia às turras com Ramalho Neto,
diretor da
RCA Victor, que reclamava de suas vendagens. Em 63, Jacob gravou um LP de
nítida intenção comercial intitulado Jacob Revive Sambas Para Você
Cantar. Parece que a idéia do karaokê não agradou muito ao bandolinista, pois é
nesse disco que encontramos as únicas imperfeições de afinação de toda a sua
discografia.Para o meio chorístico da época, cada lançamento de Jacob
representava repertório a ser aprendido para tocar na roda. Mas Retratos era
diferente e os chorões não deram muita bola.Joel Nascimento contou que foi
presenteado com o LP Retratos pelo seu irmão Joir e, ao contrário da maior
parte dos chorões, se apaixonou pela música justamente por ser diferente, por
ter o arranjo com orquestra de cordas. Joel passou anos tirando de ouvido
partes da suíte e sonhando toca-la inteira. Depois de cerca de dez anos, Joel
conseguiu o telefone de Radamés, criou coragem e ligou para pedir a partitura.
A reação de Radamés, apesar
de seca, foi positiva e na mesma semana Joel começou a estudar Retratos.Dois
meses depois, Joel voltou à casa do maestro para apresentar o resultado. Antes
mesmo de estar com o bandolim afinado, Radamés foi fazendo a introdução e,
apesar do nervosismo, a música fluiu. Radamés ficou fascinado com o som e a
interpretação de Joel, bem diferente de Jacob e mais próxima da partitura
original.Retratoshavia encantado outro chorão.
A ligação entre Joel e Radamés começou a dar os primeiros frutos ainda no tempo
em que o bandolinista tocava com o conjunto A Fina Flor do Samba, e Radamés
escreveu alguns arranjos para o grupo. No disco da trilha da novela Nina Joel
participou ao lado dos solistas preferidos de Radamés como Zé Menezes e
Chiquinho do Acordeom.Quando foi entrevistado para O Pasquim em maio de 77,
Radamés fez questão de dizer que Joel tocavaRetratos muito bem e aproveitou
para desmentir a idéia de que Jacob tinha quase uma co-autoria na suíte.
Hermínio Bello de Carvalho perguntou para Radamés:– Você fez a Suíte
Retratos para o Jacob do Bandolim?E Radamés respondeu:– Joel toca essa música
muito bem. A música foi feita para o Jacob do Bandolim, mas o Joel também toca.
Apenas é que na hora da gravação eu disse: “Jacob, toca como você costuma
tocar”. O Jacob toca à sua maneira.Mas Hermínio retrucou:– Não, na época você
me contou que
levou para a música todos os maneirismos do Jacob.E Radamés já perdendo a
paciência:– Não levei droga nenhuma, rapaz. Escrevi aquilo como o retrato do
Pixinguinha, Nazareth, Anacleto e Chiquinha Gonzaga.Hermínio não desistiu:–
Então você deu a Jacob uma liberdade em cima da sua harmonia?– Sim, mas apenas
na maneira de frasear.Um dia, em fins de 78, Joel teve a idéia de pedir a
Radamés uma versão de Retratos sem orquestra, apenas para um conjunto com
formação usual dos grupos de Choro, no padrão Época de Ouro: três violões,
sendo um de sete cordas, cavaquinho e pandeiro.Radamés relutou, mas escreveu, e
Joel organizou um grupo de jovens instrumentistas para montar a suíte. Esse
grupo, que mais tarde se intitulou Camerata Carioca, empolgou Radamés e mudou a
história dos chamados regionais. Retratos continuava encantando chorões.
Em maio de 1980, quando a Camerata Carioca e Radamés Gnattali se apresentaram
no IBAM, Sérgio e Odair Assad, violonistas que naquele momento iniciavam
carreira internacional, assistiram ao concerto e foram vítimas do encanto da
suíte. Pediram, então, a Radamés um arranjo para dois violões. Como acontecera
anteriormente, Radamés em princípio achou que não daria certo, mas os irmãos
insistiram e o arranjo foi feito. O resultado, de tão bom, correu mundo na
interpretação perfeita do Duo Assad.O contato com Sérgio e Odair trouxe muitas
alegrias a Radamés, que, por sinal, ficava em estado de graça quando ouvia o
Duo Assad, e a eles dedicou um belo concerto.Mas Retratos ainda estava longe de
ser esgotada. Em 88, Rafael Rabello e Chiquinho do Acordeom resolveram adaptar
livremente o arranjo para dois violões, e daí surgiu mais uma versão da suíte.
Depois de um penoso processo judicial com a gravadora Visom, a gravação foi
finalmente
lançada no CD Retratos da Kuarup. O CD ganhou o prêmio Sharp de melhor disco
instrumental de 91 e levou Chiquinho a receber uma consagradora ovação no palco
do Teatro do Hotel Nacional, poucos meses antes de sua morte, em fevereiro de
93.
A Suíte Retratos ainda hoje tem um longo caminho a seguir. Existem ainda dois
arranjos inéditos deixados pelo maestro. Um para o seu quinteto, formado por
contrabaixo, piano, acordeom, guitarra elétrica e bateria. Outro para orquestra
completa, sem solista, escrito a pedido de Roberto Gnattali, sobrinho dele e
também maestro.Como se não bastasse o que Retratos já causou no Brasil,
solistas de diversas partes do mundo já foram tocados pelo mesmo encanto, como
o bandolinista venezuelano Cristóbal Sotto. Um grande número de violonistas que
conheceram Retratos pelos Assad pôde, a partir da edição do arranjo para dois
violões, caprichosamente revisado por Sérgio, tocar e se encantar
com Retratos.Sé mesmo uma música especial, com uma grande força, seria capaz de
mudar a vida, a cabeça e a carreira do teimoso Jacob do Bandolim. Só mesmo uma
música como Retratos faria surgir a Camerata Carioca, faria Radamés voltar ao
palco, faria
dois violonistas vistos como “clássicos” enveredarem pelo repertório do Choro,
divulgando o gênero pelos quatro cantos do mundo.Retratos é uma suíte que ainda
terá muitas versões, será tocada em diversos países, além de ter sido, sem
dúvida, a semente de grandes mudanças ocorridas no Choro.
_______________________________________________
Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro
Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos