Matérias do Correio Braziliense, de ontem, em seguida.
Caio Tiburcio
Noel Rosa: há cem anos nasceu o poeta que revolucionou a música
brasileira
Ivan Iunes
Publicação: 11/12/2010 08:00 Atualização: 12/12/2010 02:39
Na madrugada de 9 para 10 de dezembro de 1910, o Rio de Janeiro vivia
em estado de quase convulsão social. A reação do governo da então
capital federal sufocava com tiros de canhão o último levante
relacionado à Revolta da Chibata, na Ilha das Cobras, dentro da Baía
de Guanabara.
Em meio a uma cidade dividida, o médico José da Graça Mello foi
chamado às pressas para o chalé da Rua Teodoro Silva, em Vila
Isabel. O parto, complicado pela bacia estreita da mulher, só foi
resolvido com a ajuda de outro médico, Heleno Brandão. Um fórceps
mal executado acabou por fraturar o lado direito do maxilar do bebê,
que dias depois recebeu o nome de Noel de Medeiros Rosa.
Nas primeiras décadas do século 20, o samba, como retrato do
próprio Rio, poderia ser considerado um ritmo partido. Foi no Morro
do Estácio, espremido entre o samba de roda e o maxixe, que teve
gênese o samba contemporâneo. A reinvenção do gênero, no entanto,
só ganhou o asfalto, poesia e o lirismo atuais a partir do
protagonista principal do chalé da Teodoro Silva.
Nascido há exato um século, foi apenas a partir dos anos 1950 que
a obra de Noel Rosa se fez perene a partir de regravações de Aracy
de Almeida, uma de suas intérpretes favoritas. A obra do compositor
branco, de classe média, mirrado, com apenas sete anos de produção
intelectual, até o seu desaparecimento em 1937, percorreu um
purgatório de 13 anos até que, redescoberta, o transformou no mais
influente letrista da história da música brasileira.
Figura controversa, escorregadia, amante da boemia, das zonas de
meretrício e da velha Lapa, avesso à luz do dia, porque “levava as
morenas embora”, Noel Rosa jogou todo seu talento em sete anos de
produção. Cercou-se de pouco mais de 60 parceiros, entre os quais
Antônio Nássera, Cartola, Ismael Silva, Wilson Batista, Braguinha,
Almirante e o mais produtivo deles, Vadico, com quem compôs sua
obra-prima O último desejo, além de Feitio de oração e outras.
“A lista de parceiros de Noel passa por praticamente todos os morros
do Rio de Janeiro daquela época”, diz o biógrafo Carlos Didier.
Amizade
Deixou um legado de 252 composições, fora parcerias que não
assinou pelo que chamava de “nossa amizade”. Produziu uma obra
atemporal, tão irônica quanto lírica, com temas até hoje atuais,
como a invasão cultural norte-americana. “Até Noel, a lírica
musical brasileira era parnasiana, idílica e o amor, algo
inatingível. Ele vulgariza isso tudo, trazendo inclusive o amor para
uma linguagem cotidiana, coloquial, extremamente moderna. Ele entende
o modernismo mais do que boa parte dos modernistas”, explica o
historiador André Diniz.
Em uma era em que rádio e a mídia eram incipientes, soube cultivar
polêmicas e, no rastro delas, se eternizar. Somente para a
inspiração do primeiro sucesso, a paródia do hino nacional Com que
roupa, inventou um par de histórias diferentes — da mãe que havia
escondido suas roupas para que não saísse à noite até uma canção
política, sobre o estado do país na época, uma nação de
“tanga”, como gostava de dizer. Da mesma forma, trava um duelo
musical com Wilson Batista, amplamente divulgado e motivado por
ciúmes da mesma Ceci que, além de inspirar O último desejo, também
o levou compor A dama do cabaré. Ao morrer, aos 26 anos, deu início
ao final da era de ouro da música brasileira, que nunca mais teria o
mesmo vigor.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2010/12/11/interna_diversao_arte,227249/noel-rosa-ha-cem-anos-nasceu-o-poeta-que-revolucionou-a-musica-brasileira.shtml
Especialista lamenta a superficialidade como é abordada a obra de
Noel Rosa
Ivan Iunes
Publicação: 11/12/2010 08:10 Atualização: 12/12/2010 02:37
Noel Rosa, o poeta do Samba e da Cidade (Livro e CD) De André
Diniz. Editora Casa da Palavra. Número de páginas: 160. Preço
médio: R$ 85 (o livro ainda vem com um CD, contendo sucessos de Noel
interpretados por Alfredo DelPenho, Carlos Didier e Soraya Ravenle)
No ano em que completa 100 anos, os poucos lançamentos de peso sobre
o poeta de Vila Isabel contrastam com a importância que ele teve para
gerações futuras, que vão da bossa nova a Chico Buarque e à
revitalização da Lapa. “O nosso Noel, infelizmente, foi muito bem
recebido pelo showbusiness. A denominação de gênio, ainda que
desprestigiada nos dias atuais, não caberia mais a outro músico
brasileiro do que a Noel”, defende o biógrafo Carlos Didier. Em
comemoração ao centenário do sambista, estão previstos diversos
shows na capital federal (leia abaixo), além de lançamentos
editoriais e regravações.
Capitaneado por Paulo Miklos, dos Titãs, a série de shows Noel um
novo século, montados no Centro Cultural Banco do Brasil de São
Paulo, resultará em DVD e documentário sob direção de Alex
Miranda.
No dia 20, o historiador André Diniz lança em Brasília, no Bar
Brahma, às 19h, Noel Rosa, o poeta do samba e da cidade, que conta a
relação do compositor com o Rio de Janeiro por meio de fotos e
textos. “Não é possível entender Noel ou o Rio de Janeiro
separando um do outro”, explica Diniz. Além do livro, a
publicação também traz um CD com obras regravadas por Alfredo
DelPenho, Carlos Didier e Soraya Ravenle.
Opereta
No campo da literatura, outros lançamentos são Gravando Noel, que
traz 19 músicas do compositor ilustradas por artistas como Solange
Palatnik e Fausta Boscacci, e a opereta noelista A noiva do condutor,
ilustrada por Laís Gorski. Já o livro Noel, o menino da Vila, da
ex-integrante do grupo Blitz Márcia Bulcão e do marido, Clóvis
Bulcão, conta a história do sambista para crianças.
Em março, o produtor Marcelo Fróes lança o CD Universidade da
Vila, com nomes e roupagem pop para obras do sambista (tudo pelo
dinheiro). No elenco, estão Paulinho Moska, Zélia Duncan, Isabella
Taviani, Joyce, Ivan Lins, Jorge Vercillo. O encarte traz textos do
professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Luiz Ricardo
Leitão, autor de obras sobre Noel.
Nome tradicional de Vila Isabel, Martinho da Vila também colocou na
praça um CD em homenagem ao centenário de Noel. Inicialmente marcado
para o aniversário do compositor, o lançamento de Martinho canta
Noel acabou acontecendo em maio, na esteira do desfile da escola de
Samba Unidos de Vila Isabel, que homenageou o filho dileto. Martinho
regravou diversas músicas, ao lado de outros nomes como a filha,
Mart’nália, Analimar, Patrícia Hora, Maíra e Aline Calixto.
Ouça trecho de Pra que mentir, música de Noel Rosa na voz de
Paulinho da Viola [1]
Ouça trecho de Pierrô Apaixonado, música de Noel Rosa na voz de
Maria Bethânia [2]
Ouça a música Último Desejo, de Noel Rosa, na voz de Beth
Carvalho [3]
Assista ao clipe de "Eu era o Noel", homenagem do músico Cacá
Pereira a Noel Rosa [4]
Semana cheia de homenagens
» Irlam Rocha Lima
O centenário de Noel Rosa teve uma semana de comemorações em
Brasília. Entre terça e quinta-feira, foi apresentada no Teatro da
Caixa a série de shows Sopro de Noel, com a participação do
Quinteto Pixinguinha, do mestre da flauta Altamiro Carrilho e do
flautista e saxofonista Nivaldo Ornelas — todos fazendo versões
instrumentais do Poeta da Vila. Na quinta-feira, no Feitiço Mineiro,
o músico Cacá Pereira fez show juntamente com Sandra Duailibe
cantando Noel Rosa e aproveitou para lançar o vídeo clipe da música
Eu sou Noel, dirigido por Maxtunay e Luis Turiba.
Também no Teatro da Caixa, hoje, às 20h, e amanhã, às 19h, o
público poderá assistir ao espetáculo Noel Rosa: 100 Anos de Roda
de Sururu, com o grupo carioca Sururu na Roda, formado por Nilze
Carvalho, Camila Costa, Fabiano Selek e Sílvio Carvalho. Com nove
anos de carreira, o conjunto se envolveu no processo de
revitalização do histórico bairro boêmio do Centro do Rio de
Janeiro — escolhido por Noel, à sua época, como um dos seus
lugares preferidos.
“Músicas de Noel sempre fizeram parte do nosso repertório de
discos e shows. Referência importantíssima do samba tradicional, ele
deixou um impressionante legado, em apenas 26 anos de vida”, comenta
Nilze Carvalho. “Neste show no Teatro da Caixa, vamos mostrar
standards como Conversa de botequim, Feitiço da Vila, Palpite infeliz
e as menos conhecidas Tantos beijos, Quem rir melhor e Tarzan, o filho
do alfaiate”, anuncia.
Expressão
Homenagem ao compositor, nascido em Vila Isabel, será prestada,
também, amanhã, às 18h, na Livraria Cultura (Shopping Iguatemi),
pelo poeta Francisco K e pelo professor Luiz Roberto Pinheiro, com
entrada franca. Eles farão palestra sob o título Noel Rosa e a
modernidade indecisa, na qual serão focalizadas questões que colocam
em destaque a figura de Noel diante do surgimento e a consolidação
do samba urbano no mercado, como expressão preferencial da
brasilidade, no início do século 20.
Alguns sambas do compositor, a serem examinados pelos palestrantes,
sob o ponto de vista “da crítica da cultura e de outros aportes
teóricos”, vão ser apresentados pelo grupo Feitio de Feitiço,
formado por Ademir Martinello (voz, violão e cavaquinho), Chico
Marcílio (percussão), Liliane (trombone) e Francisco K (vocal).
Foram selecionados: Com que roupa, Palpite infeliz, Três apitos,
Filosofia, Feitiço da Vila, Feitio de oração e Pierrot apaixonado.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2010/12/11/interna_diversao_arte,227248/especialista-lamenta-a-superficialidade-como-e-abordada-a-obra-de-noel-rosa.shtml
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