Salve tribuneiros e butequeiros!
Aproveitando o embalo, segue abaixo a entrevista que fiz com Lobáo em 2001
na qual revelou que Cartola foi uma de suas grandes influencias.



*O Universo paralelo de Lobão*


*A vida nunca foi tão doce como agora está sendo para Lobão. Acostumado a se
meter em confusões com empresários, com a mídia e a polícia, pagou o preço
por falar, muitas vezes, o que pensa. Hoje ele desfruta o sabor da
independência e lança seu manifesto contra a "ditadura branca". *

Por mau comportamento (não aderiu à campanha contra a pirataria por achá-la
cínica e falaciosa) foi ejetado da Universal. Comprou briga com as
gravadoras e fundou a sua própria, a Universo Paralelo Records. Publicou a
revista - "Lobão Manifesto"- e anexou a ela o último CD de seu projeto mais
audacioso chamado, "A VIDA É DOCE".

Lobão conseguiu uma proeza inédita, introduziu no mercado musical a primeira
tiragem de CDs numerada na história do Brasil. Lançou um produto híbrido -
pacote 3 em 1, incluindo CD, revista e CD-ROM - através de venda via
internet, em bancas de jornais, além de megastores (Fnac, Saraiva). O
projeto do polêmico músico saiu por apenas R$14,90, com uma campanha para a
criminalização do jabá (propina) nas rádios e TVs, e para a moralização dos
direitos autorais.

Lobão comemora seu sucesso (100 mil cópias vendidas nas bancas), e agora
convidado pela ESCAMBO, o verborrágico multimídia solta o verbo (pra não
perder o costume) e conta mais sobre este universo paralelo que, segundo
ele, ameaça desmascarar a picaretice que ronda a indústria fonográfica
brasileira.

*Por Vini Correia*

*ESCAMBO - A relação entre emissoras de rádio, TV e gravadoras, aqui no
Brasil, está impregnada de “jabás”. Na sua opinião, como isso prejudica os
artistas excluídos desta panelinha?*

LOBÃO - Simplesmente ocorre uma seleção arbitrada pelas gravadoras de quem é
“a bola da vez”. Daí, se investe rios de dinheiro nessa meia dúzia de três
ou quatro enquanto o restante é simplesmente ignorado.


*ESCAMBO - De que modo a publicidade afeta na assimilação do seu trabalho
pelo público?*

LOBÃO - Eu posso dizer que tenho um modo muito peculiar de dar publicidade
ao meu trabalho, mas, de uma forma ou de outra, a publicidade é que faz
“existir” o trabalho para o público. O grande problema, no caso das
gravadoras é a adoção de um marketing unívoco, válido para todos os artistas
e, conseqüentemente, burro.

*ESCAMBO - Segundo a crítica, você se encontra em uma de suas melhores fases
de sua carreira. O meio alternativo de distribuição de discos foi realmente
a melhor saída contra a política das gravadoras?*

LOBÃO - Bem, eu acredito que com as características que possuo se integram
de forma bem mais harmoniosa com a linguagem alternativa do que qualquer
outra.

*ESCAMBO - Você cantou, uma vez, “A Vida é Doce” no Domingão do Faustão.
Como se sentiu tocando uma música bastante profunda e reflexiva num horário
de grande IBOPE, onde o espaço é maior para a superficialidade da cultura de
massa?*

LOBÃO - Uma vitória política. É uma vitória política ter sido chamado para
participar de um programa numa emissora que me proibiu apresentações ao vivo
durante 11 anos. É uma vitória política impor todas as regras para tocar
neste programa, cantar uma música desconhecida e profunda, como você disse,
falar de um assunto tabu na emissora (que é o das rádios livres) e ainda por
cima, ter sido o maior pico de audiência daquele programa dos últimos 10
anos.

*ESCAMBO - O que mais incomoda você na mídia brasileira?*

LOBÃO - A monomania.

*ESCAMBO - O que você pensa sobre a pirataria? Tem gente que diz ser uma
forma de protestar contra o abuso dos preços estabelecidos pelas gravadoras.
Você concorda em levantar esta bandeira?*

LOBÃO - Sou totalmente contra a pirataria. Basta verificar a estrutura do
projeto do meu disco “A Vida é Doce”, que inclusive foi premiado pela APCA
pela eficácia da empreitada onde se alojam os únicos requisitos para que a
pirataria seja evitada: a numeração do disco e a diminuição radical do
preço. O que eu sempre disse e continuo a dizer é que a verdadeira pirataria
é a praticada pelas gravadoras, pois não numeram o disco, vilipendiam o
artista e superfaturam o produto, tendo em vista que eles tem que pagar um
astronômico jabá para tocar nas rádios e quem paga a conta é o consumidor.
Enquanto houver essa relação da indústria fonográfica com a radiodifusão,
não existe moral para atacar qualquer tipo de pirataria, pois a situação é
muito mais grave do que esses fenômenos periféricos.

[image: lobao] *"Nós estamos vivendo uma ditadura branca e isso é muito
sério" *

*ESCAMBO - Qual a contribuição das rádios livres, dita “clandestinas”, para
a divulgação do seu trabalho junto ao público?*

LOBÃO - Este termo está bem de acordo com o que a mídia propaga, no entanto,
estou longe de pregar desobediência civil. O que defendo é o direito de
liberdade de informação que não é respeitado e muitas vezes caluniado. Essas
pessoas deviam prestar mais atenção no meu discurso: eu prego a vigência da
lei das rádios livres (Radicom lei 6.912) e não “rádios clandestinas”.
Existe uma propaganda extremamente falaciosa que atenta aos princípios da
democracia e da verdade, atribuindo às rádios comunitárias, interferências
em aeronaves, ambulâncias e corpo de bombeiros.

E eu tenho um dossiê formulado por aeronautas, metereologistas, CMDTES de
aeronaves, advogados, etc que comprovam tecnicamente toda essa falácia. Nós
estamos vivendo uma ditadura branca e isso é muito sério. Quando pretendo
difundir o meu trabalho através de rádios livres é porque é impossível ter
acesso às rádios oficiais, uma vez que todas elas cobram o execrável jabá. E
creio ser, através das rádios livres, o primeiro grande passo para exercemos
definitivamente nossa tão sonhada democracia.

*ESCAMBO - Para encerrar nossa entrevista, diz aí quais são os discos que
tocam ultimamente na sua vitrola?*

LOBÃO - Os últimos quartetos de Beethoven e Technicolor dos Mutantes.

*ESCAMBO - E as suas maiores influências?*

LOBÃO - No Brasil: Villa-Lobos, Mutantes e Cartola. No exterior: Bach, Jimmy
Hendrix e Fred Astaire, mas no fundo, no fundo, meu primeiro anseio musical
foi imitar uma britadeira.

*ESCAMBO - Que tipo de conselho você daria para os músicos que também buscam
caminhos alternativos de distribuição?*

Sejam criativos, corajosos e perseverantes.
_______________________________________________
Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro
Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos

Responder a